Em tempos, houve um programa de televisão que juntou jovens e seniores, desconhecidos entre si, a viver na mesma casa, numa espécie de experiência social, para ver até que ponto poderiam dali sair "amizades improváveis".
Não sei, passados alguns anos, se algumas delas ainda sobrevivem, ou se já não existe contacto.
No entanto essas amizades, ditas improváveis podem, de formas e em contextos diferentes, surgir na vida real.
É assim que encaro a amizade, ainda recente, construída entre três jovens e um senior, cujos caminhos se cruzaram num supermercado: a minha filha, funcionária de uma das lojas do dito supermercado, duas outras moças que, em representação do novo ginásio que ia abrir, tiveram ali numa banca a angariar clientes para o mesmo, e um senhor com os seus oitenta's, que todos os dias ali vai às compras.
Começaram a falar e, hoje em dia, são uma espécie de avô e netas emprestadas.
Conheci o senhor um destes dias. É muito caricato, engraçado, divertido.
Tem filhos, e netos, mas talvez no dia a dia se sinta sozinho, e encontrou naquelas miúdas um pouco de atenção.
Quem vê de fora, pode ficar de pé atrás. O que um homem daquela idade quer de miúdas que podiam ser suas netas? E o que querem elas ao conviverem com um homem daquela idade? É legítimo.
Mas quem está por dentro, percebe que não há ali nenhum aproveitamento, nem segundas intenções.
Acredito que ele as vê mesmo como netas. E elas, a ele, como um avô.
Há um cuidado. Uma preocupação. Há um carinho genuíno.
O senhor esteve dois ou três dias sem lá aparecer no supermercado, e a minha filha ligou para ele para saber se estava tudo bem.
Há dias, combinaram um almoço de Natal, que a minha filha e a amiga pagaram a meias (uma vez que o senhor está sempre a pagar-lhes coisas) e trocaram, entre todos, lembranças de Natal.
Costumo dizer à minha filha que perdeu um avô, e agora ganhou um avô emprestado!
E é bonito ver que nem toda a geração actual está perdida. Que ainda surgem amigos improváveis, na vida real, quando e com quem menos se espera.