domingo, 19 de julho de 2026

Enfrentar o luto


Passar pelo luto é como estar, tranquilamente, num mar sereno que, de um momento para o outro, se torna ameaçador.

Sabemos que vamos ter de enfrentar aquelas ondas enormes que lá vêm. Que vão passar por cima de nós, enrolando-nos no turbilhão da sua passagem.

A sua força derruba, arrasta, desnorteia. Andamos ali a lutar com cada nova onda que chega. 

Ao início, tão seguidas que mal nos conseguimos erguer, já outra nos afunda de volta. 

Depois, mais espaçadas, aparecendo quando acreditávamos que já não viriam.

Não adianta lutar contra. É deixar vir, e esperar que passe.

O mar voltará, mais cedo ou mais tarde, à sua tranquilidade, permitindo-nos pôr de pé e sair dele.

E restará apenas a memória distante de um momento difícil que se ultrapassou.



segunda-feira, 6 de julho de 2026

O "elefante na sala"

 



Não sei se as pessoas pensam que, não falando das coisas, elas acabam por ser esquecidas. 

Ou se realmente acreditam que, ignorando as situações, é como se as mesmas nunca tivessem acontecido.

Por outro lado, há quem ignore o óbvio porque não lhe agrada o que ele acarreta.

Então, finge-se que está tudo igual. Que nada mudou. E evita-se o assunto, que nada de bom trará ao abordá-lo.

No fundo, como diz a expressão, ignora-se "o elefante na sala". 

Que está lá, bem visível. Que ocupa o espaço e se torna incómodo. Que é real.

Não sei se por ingenuidade, por incapacidade de lidar com os acontecimentos naquele momento, ou por puro descaramento.


quarta-feira, 1 de julho de 2026

Andar em círculos

 


Muitas vezes, as pessoas tomam determinadas decisões, que encaram como uma mudança na sua vida, e convencem-se de que, a partir desse momento, tudo será diferente.
Como quem acredita que encontrou, finalmente, uma direcção diferente para chegar ao seu destino.
No entanto, depois de muito andar, quando dá por isso, percebe que está, precisamente, de volta ao mesmo ponto de partida.
Isto acontece a muita gente - passar a vida a andar em círculos.
Da mesma forma que, ao longo dos séculos, a História se repete, também ao longo da vida, esta tendência de andar em círculos se manifesta.
Dizem que é algo natural - voltar aos mesmos pontos, mas com mais sabedoria e maturidade.
Mas também é verdade que, ao continuar a andar em círculos, o único destino que irão encontrar será o mesmo de sempre.
Seja de forma consciente ou não, repetir as mesmas acções e comportamentos irá gerar as mesmas reacções e resultados que pretendiam evitar.
E, por vezes, torna-se frustrante, depois de tanto esforço, perceber que os anos passam e nada muda.
Não só para quem o vive mas, igualmente, para quem vai assistindo de fora.


terça-feira, 30 de junho de 2026

Quando já não conseguimos colar os cacos


 

Quando deixamos cair algo que nos é precioso, partindo-o em pedaços, o nosso instinto é juntar esses pedaços e colá-los, para que volte a ficar inteiro.

No entanto, quantas mais vezes deixamos cair, menor a probabilidade de voltar a ficar como antes.

Seja porque há limalhas que se perdem para sempre, deixando espaços vazios.

Seja porque, cientes de que nunca voltará a ser o mesmo, acabamos por desistir de tentar juntar os cacos.

Ou porque, com o tempo, a cola simplesmente deixa de fazer efeito e segurar os pedaços, não havendo volta a dar.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Criaturas Extremamente Inteligentes, na Netflix

 



Nunca tinha ouvido falar deste filme.

Ontem fui ver o que havia de novo na Netflix, e deparei-me com o trailer. 

Convenceu-me, e foi o escolhido.

Se calhar não o devia ter feito. Afinal, eu já sei que filmes com animais trazem ao de cima o meu lado mais sensível. Normalmente cães, gatos, cavalos. Eventualmente, lobos, ou outros animais mais selvagens.

Mas um polvo?! Alguma vez eu imaginei que ia chorar por causa de um polvo?!

Pois chorei, e bastante! Há sempre uma primeira vez para tudo.


Os polvos são conhecidos por serem animais bastante inteligentes: os invertebrados mais inteligentes do planeta. 

Seria, pois, de esperar que o título do filme fosse uma referência ao seu protagonista Marcellus. Não é.

Mas foi a sua inteligência que uniu todas as pontas soltas, para uma história com um final feliz.


Este filme é uma história de superação. É sobre enfrentar os medos. 

Encarar o passado e arrumá-lo, definitivamente, numa gaveta.

É uma história sobre solidão, nos seus diversos sentidos.

Sobre escolhas, e novas oportunidades. Sobre perdão.

Sobre amizade, e amor. Sobre altruísmo.

Como diz Tova: "há uma forma certa e uma errada de agir". Cabe-nos decidir qual delas queremos seguir.


Marcellus é um polvo que vive os seus últimos dias de vida num aquário, na sequência de um resgate após ter ficado ferido no seu habitat natural.

Farto de ter de lidar com humanos, sobretudo as crianças que todos os dias vão visitar o aquário, ele prefere ficar no seu cantinho, escondido, camuflado, em paz.

A única pessoa de quem ele gosta é Tova, uma humana solitária que, ao final do dia, está encarregue da limpeza do aquário.

Marcellus queria muito voltar a casa uma última vez. Enquanto não o consegue, vai dando umas escapadelas nocturnas, à procura de petiscos, que acabam por o colocar em apuros.

Tova, está num dilema, entre permanecer na sua casa, sozinha, com os fantasmas do passado, ou aceitar a vaga num lar residencial.

Marcellus quer ajudar Tova e, com a chegada de Cameron, vai assumir a missão de juntar os dois. 

Porque também Cameron está perdido, e sem rumo. Também é uma alma solitária. E, talvez, tenha mais em comum com Tova, do que imagina. 

Duas gerações diferentes, com muito a aprender uma com a outra.


No final, Tova e Cameron terão de corrigir os erros até aí cometidos, e Marcellus enfrentará o seu mais temido inimigo.

O resultado, é "casa".

Cada um à sua maneira, no fim, sentir-se-á, finalmente, em casa. 

E haverá algo melhor do que isso?!


Deixo-vos aqui as citações que mais me chamaram a atenção:

"Parece ser uma imagem de marca da espécie humana. Péssima capacidade de comunicação. Por que razão os humanos não usam os milhões de palavras para dizerem uns aos outros o que desejam?"


"Os humanos, na sua maioria, são enfadonhos e trapalhões. Mas, ocasionalmente, podem ser criaturas extremamente inteligentes."

 




Enfrentar o luto

Passar pelo luto é como estar, tranquilamente, num mar sereno que, de um momento para o outro, se torna ameaçador. Sabemos que vamos ter de ...