Guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, que ficam arrumados numa gaveta fechada... Abri essas gavetas, e o resultado é este blog!
Muitas vezes, as pessoas tomam determinadas decisões, que encaram como uma mudança na sua vida, e convencem-se de que, a partir desse momento, tudo será diferente.
Como quem acredita que encontrou, finalmente, uma direcção diferente para chegar ao seu destino.
No entanto, depois de muito andar, quando dá por isso, percebe que está, precisamente, de volta ao mesmo ponto de partida.
Isto acontece a muita gente - passar a vida a andar em círculos.
Da mesma forma que, ao longo dos séculos, a História se repete, também ao longo da vida, esta tendência de andar em círculos se manifesta.
Dizem que é algo natural - voltar aos mesmos pontos, mas com mais sabedoria e maturidade.
Mas também é verdade que, ao continuar a andar em círculos, o único destino que irão encontrar será o mesmo de sempre.
Seja de forma consciente ou não, repetir as mesmas acções e comportamentos irá gerar as mesmas reacções e resultados que pretendiam evitar.
E, por vezes, torna-se frustrante, depois de tanto esforço, perceber que os anos passam e nada muda.
Não só para quem o vive mas, igualmente, para quem vai assistindo de fora.
Quando deixamos cair algo que nos
é precioso, partindo-o em pedaços, o nosso instinto é juntar esses pedaços e
colá-los, para que volte a ficar inteiro.
No entanto, quantas mais vezes
deixamos cair, menor a probabilidade de voltar a ficar como antes.
Seja porque há limalhas que se
perdem para sempre, deixando espaços vazios.
Seja porque, cientes de que nunca
voltará a ser o mesmo, acabamos por desistir de tentar juntar os cacos.
Ou porque, com o tempo, a cola
simplesmente deixa de fazer efeito e segurar os pedaços, não havendo volta a
dar.
Ontem fui ver o que havia de novo na Netflix, e deparei-me com o trailer.
Convenceu-me, e foi o escolhido.
Se calhar não o devia ter feito. Afinal, eu já sei que filmes com animais trazem ao de cima o meu lado mais sensível. Normalmente cães, gatos, cavalos. Eventualmente, lobos, ou outros animais mais selvagens.
Mas um polvo?! Alguma vez eu imaginei que ia chorar por causa de um polvo?!
Pois chorei, e bastante! Há sempre uma primeira vez para tudo.
Os polvos são conhecidos por serem animais bastante inteligentes: os invertebrados mais inteligentes do planeta.
Seria, pois, de esperar que o título do filme fosse uma referência ao seu protagonista Marcellus. Não é.
Mas foi a sua inteligência que uniu todas as pontas soltas, para uma história com um final feliz.
Este filme é uma história de superação. É sobre enfrentar os medos.
Encarar o passado e arrumá-lo, definitivamente, numa gaveta.
É uma história sobre solidão, nos seus diversos sentidos.
Sobre escolhas, e novas oportunidades. Sobre perdão.
Sobre amizade, e amor. Sobre altruísmo.
Como diz Tova: "há uma forma certa e uma errada de agir". Cabe-nos decidir qual delas queremos seguir.
Marcellus é um polvo que vive os seus últimos dias de vida num aquário, na sequência de um resgate após ter ficado ferido no seu habitat natural.
Farto de ter de lidar com humanos, sobretudo as crianças que todos os dias vão visitar o aquário, ele prefere ficar no seu cantinho, escondido, camuflado, em paz.
A única pessoa de quem ele gosta é Tova, uma humana solitária que, ao final do dia, está encarregue da limpeza do aquário.
Marcellus queria muito voltar a casa uma última vez. Enquanto não o consegue, vai dando umas escapadelas nocturnas, à procura de petiscos, que acabam por o colocar em apuros.
Tova, está num dilema, entre permanecer na sua casa, sozinha, com os fantasmas do passado, ou aceitar a vaga num lar residencial.
Marcellus quer ajudar Tova e, com a chegada de Cameron, vai assumir a missão de juntar os dois.
Porque também Cameron está perdido, e sem rumo. Também é uma alma solitária. E, talvez, tenha mais em comum com Tova, do que imagina.
Duas gerações diferentes, com muito a aprender uma com a outra.
No final, Tova e Cameron terão de corrigir os erros até aí cometidos, e Marcellus enfrentará o seu mais temido inimigo.
O resultado, é "casa".
Cada um à sua maneira, no fim, sentir-se-á, finalmente, em casa.
E haverá algo melhor do que isso?!
Deixo-vos aqui as citações que mais me chamaram a atenção:
"Parece ser uma imagem de marca da espécie humana. Péssima capacidade de comunicação. Por que razão os humanos não usam os milhões de palavras para dizerem uns aos outros o que desejam?"
"Os humanos, na sua maioria, são enfadonhos e trapalhões. Mas, ocasionalmente, podem ser criaturas extremamente inteligentes."