quinta-feira, 8 de outubro de 2026

"A Leste do Paraíso", na Netflix

 



Quando comecei a ver a série não tinha noção da forma como iria mexer comigo.

Não, propriamente, em relação ao que é suposto ser o tema principal, mas noutras questões tão, ou mais, importantes.

Não conhecia o livro, de John Steinbeck, que serviu de base à adaptação. 

Dizem que, na obra do autor, Cathy é mostrada, crua e friamente, como um "monstro" que já nasceu assim. E que, na série, tentam mostrar uma Cathy que se tornou nesse "monstro" por circunstâncias da vida.

Para mim, é indiferente. Cathy é o que é, e como é, por escolha sua, independentemente do que lhe possa ter acontecido. As pessoas não podem apagar o passado. Mas são livres de decidir se querem usar isso como desculpa para as suas acções no presente (ou inacção), ou se querem ser pessoas diferentes, melhores, não deixando que o passado as defina.


E, sinceramente, no meio daquelas personagens, ao contrário do que seria de esperar, talvez não considere a Cathy a mais perigosa ou fria da série. Talvez, exceptuando os crimes cometidos, ela tenha sido das pessoas mais coerentes em diversos momentos.

Sim, ela é, aparentemente, desprovida de empatia. De culpa. De remorsos. Não olha a meios para atingir os fins, doa a quem doer, pisando quem tiver de pisar. Matando quem tiver de matar.

No entanto, na série, é difícil antipatizar com Cathy, quando outras personagens, supostamente "boas", me irritam muito mais com as suas atitudes, ou falta delas.


Adam é o melhor exemplo.

Tendo mostrado alguma personalidade quando contrariou a vontade do pai, e andou fugido, Adam acabou por deixar muito a desejar, como homem, e sobretudo, como pai. Para além de ser um "falso moralista", mostrou-se um homem fraco, sem atitude, sem objectivos. Apenas um corpo presente, durante anos a fio.

E quando decidiu despertar, não foi propriamente um grande exemplo. Tornou-se naquilo que sempre condenou no próprio pai.

O que é pior? Uma mãe, que nunca o quis ser, abandonar os seus filhos ao cuidado do pai? Ou um pai, que em vez de se dedicar aos filhos recém-nascidos, passa anos a pensar na mulher que perdeu, sem querer saber daquilo que ganhou? Se dependesse de Adam, os filhos teriam morrido, e ele nem daria por nada.

Então, de repente, decide ser pai. Só que, sabendo aquilo que ele e Charles viveram com o pai de ambos, e como isso lhes destruiu as vidas, Adam comete o mesmo erro. A constante comparação entre os filhos. O querer moldá-los à vontade dele, não aceitando as suas diferenças. Sempre a criticar, e a menosprezar Cal, como se fosse o mau, ao contrário de Aron. Não percebendo que isso só o tornava ainda mais revoltado, quando a única coisa que ele queria era agradar e orgulhar o pai.

E como se não bastasse, ainda se mostrou uma pessoa arrogante, hipócrita, muito mal-agradecida com quem esteve sempre lá para ele.

Por isso, sim, Adam foi a personagem mais irritante da série. E a que menos moral tem para o que quer que seja.


Já no sentido oposto, a par com Cathy, excelentemente interpretada por Florence Pugh, Lee (Hoon Lee) é, para mim, a personagem mais cativante. Mais marcante. 

Inicialmente contratado para ajudar com as lides domésticas e gestão da casa, alguém indiferente e invisível, Lee acaba por assumir papéis que não lhe cabiam, dedicando-se de corpo e alma.

Enquanto Adam lambia as feridas do abandono de Cathy, deixando-o com os seus filhos gémeos, Lee assumiu o comando.

Lee foi pai. Foi mãe. Foi conselheiro. Foi amigo. Foi razão. Foi pilar. Foi constante. Foi bússola. Foi equilíbrio. Foi tudo o que faltava naquela família. Do início, ao fim.

Visto, aos olhos de todos, como um estranho, um estrangeiro sem lugar no mundo, Lee encontrou no lar e na família Trask, o seu lar, e a sua própria família.


A série é marcada por várias tragédias, numa espécie de repetição da história em diferentes gerações. Adam e Charles, no início. Caleb e Aron no fim. Cathy entre eles.

Comum a todos, uma palavra: Timshel. De origem hebraica, significa "tu podes". Uma escolha livre, a responsabilidade do ser humano pelos seus próprios actos, escolhendo o seu caminho, independentemente do passado, dos erros dos antepassados, do histórico familiar.

Quem sabe, a esperança de que Cal, dali em diante, mude o rumo da história, para uma mais feliz.


Se puderem, vejam. São apenas 7 episódios, e vale a pena!



quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Pessoas que se alimentam de provocações e discussões

 



Quem nunca lidou com pessoas assim?
Que retiram prazer de ver os outros irritados ou desestabilizados?
Que se alimentam das reacções que geram nos outros?
Que transformam, sempre, uma conversa banal numa discussão disfarçada?
Que se acham donas e senhoras da razão, pessoas superiores, detentoras de verdades absolutas e que os outros não sabem do que falam?
Que querem "doutrinar" os outros para que pensem como elas, porque a visão delas é a única que está certa?
Que têm, seja por provocação, ou porque realmente o pensam, visões extremistas e radicais de tudo?
Que questionam as nossas escolhas ou opiniões de forma, aparentemente, inocente, apenas para nos tentarem encurralar?

Não sei se isso lhes proporciona adrenalina temporária. Talvez uma sensação de poder e controlo sobre o outro. Ou, simplesmente, estão entediadas e precisam de entretenimento.

Uma coisa é certa, não querem conversar ou debater diferentes ideias ou pontos de vista. 
Querem, apenas, vencer. 
Procuram, intencionalmente, um conflito.
Não estão minimamente interessadas em compreender o outro. Apenas em desgastá-lo.

Se conseguirem que, do outro lado, percam o controlo, a discussão está ganha, ainda que não tenham razão.
Se, por outro lado, são ignoradas, agem com fingida inocência, numa tentativa de voltar a estabelecer o contacto e a interação.

Se puderem, evitem pessoas destas na vossa vida.
São como vampiros, dispostos a sugar a vossa energia para se alimentarem a elas.
Se não tiverem como fugir, cortem o conflito.
Sejam entediantes. 
Optem pelo silêncio, ou respostas curtas e desinteressadas.
Não se justifiquem ou expliquem demasiado. 
Não vale a pena tentar mostrar que essas pessoas podem estar erradas.

E, como se costuma dizer, há um momento na nossa vida em que mais vale ter paz, do que ter razão!





terça-feira, 22 de setembro de 2026

"As Filhas do Silêncio", de Minka Kent




É o segundo livro que leio desta autora, e estou rendida.

Em "As Filhas do Silêncio", duas jovens, que toda a sua vida viveram isoladas do mundo, junto com a irmã mais nova, Evie, e a mãe, terão de enfrentar os seus maiores receios e sair da cabana, para a floresta, de forma a escapar ao homem que, na ausência da mãe, lhes invadiu a casa.
Acreditando que a mãe só iria levar a irmã à civilização para a curar, e que ambas voltariam em breve, Wren e Sage percebem que, provavelmente, foram ali deixadas para morrer à fome.
E quando o desconhecido lhes diz que as vai levar dali, elas antecipam-se, e fogem.
Essa fuga será o levantar do véu de uma teia de mentiras em que foram enredadas durante toda a sua vida.

Paralelamente, Nicolette e Brant, um casal aparentemente feliz, parece prestes a desfazer-se, quando Nicolette descobre que Brant guarda a fotografia suspeita na gaveta, anda a desviar dinheiro da conta dela para outra pessoa, e todas as sextas-feiras, de manhã, quando ela não está em casa, liga para uma mulher de nome Beth.
Acreditando que está a ser traída, roubada, e apunhalada naquilo que mais lhe dói - não poder ser mãe, e o seu marido ter uma filha com outra mulher - Nicolette não descansa enquanto tenta descobrir as provas de que necessita.

É quando está sozinha em casa, nessa busca, com o marido em viagem, que Wren e Sage lhes aparecem à porta, a pedir ajuda, sem saberem que, de certa forma, os seus caminhos e as suas vidas estão interligadas.

Afinal, não são só as jovens que viveram uma mentira. Também Nicolette apagou a verdade da sua mente e, agora, será obrigada a enfrentá-la.
Nada daquilo em que acreditava é totalmente verdadeiro. 
Há algo que ela não sabe, e que pode mudar para sempre o rumo da sua história.

Enquanto as autoridades tentam perceber o que aconteceu com as raparigas de Stillwater, e descobrir o paradeiro da mãe e da irmã mais nova, Nicolette e Brant investigam quem poderá estar a chantageá-los. Quem, tão próximo deles a ponto de saber algo tão íntimo sobre as suas vidas, seria capaz de usar essa verdade para extorqui-los de forma tão leviana, negando-lhes aquilo que lhes é mais precioso?

Uma história sobre mães que perdem os seus filhos. 
Mães que lidam, de formas diferentes, com o trauma da perda, em diversos sentidos. 
Com o luto. 
Uma história sobre memórias desvanecidas que, muitas vezes, são encaradas como fruto da imaginação e, outras vezes, parecem tão reais. 
Pesadelos que se creem partidas da mente mas que, no fundo, escondem segredos que não conseguimos ver, ou compreender.





  

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

"Mal de Amores", na Netflix


 

A série ocorre no início do século XX, em plena revolução mexicana, e tem como protagonista Emilia Sauri, uma jovem boticária que tem o sonho de se tornar médica.

Emilia, criada numa família relativamente liberal para a época, vive em Puebla.

Desde criança criou uma amizade com Daniel, que se transformou num amor cego.

Daniel é um aventureiro, um revolucionário que coloca a causa política acima de tudo - acima da estabilidade, acima da sua segurança, acima do seu amor por Emilia.

Durante anos, o amor de ambos vai resistindo às ausências de Daniel, à incerteza sobre se estará vivo ou morto, aos momentos vividos a dois no meio de uma guerra que parece não ter fim.

Por mais do que uma vez, Emilia segue o seu coração, e Daniel, construindo vidas temporárias em acampamentos e povoações onde reina a pobreza, a doença, os feridos e as consequências da guerra.

No entanto, chega a um ponto em que Emilia terá de pensar em si mesma, e no que realmente quer para a sua vida. 

Depois de abdicar do casamento com Antonio, e de deixar a meio a sua formação em medicina, depois de ver a morte de perto e perder pessoas que lhe eram próximas, depois de tanto tempo longe de casa, Emilia decide que não é isso que quer para a sua vida.

E acaba por construir a sua vida ao lado de Antonio, tornando-se, finalmente, médica e exercendo a sua profissão no hospital de ambos.


"Mal de Amores" aborda o papel das mulheres naquela época - esposa e mãe, mercadoria de troca, sem direito a trabalhar ou expressar a sua opinião.

Emilia, e as mulheres da sua vida, desafiam essas convenções, dando azo a comentários mais depreciativos sobre as mesmas, ainda que isso não as faça deixar de ser elas próprias, donas das suas vidas e dos seus destinos.

Mas os homens da vida de Emilia também são dignos de nota, e verdadeiros exemplos, que a influenciaram, de forma positiva, na sua vida, no seu percurso e nas suas escolhas.

Quanto à vertente política, como sempre, a ideia que fica é a de que, quem não está no poder promete muito, mas depois de lá estar cumpre pouco, e aqueles que hoje eram seguidos fervorosamente, amanhã serão o inimigo.

Ainda assim, entre tomadas e quedas de governos, e governantes, há sempre algo que vai mudando na sociedade. 

Pode não se ter tudo o que se desejava, mas sempre se vai conseguindo uma conquista ou outra, pelo caminho.

E, talvez, isso já torne, de alguma forma, o mundo melhor.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A semana numa imagem #18

 



Manhã fresca, mas luminosa.
O sol brilha no céu, apenas com umas pequenas nuvens, aqui ou ali, que em nada o afectam.
As árvores recebem os raios. 
E transformam-se.
Um contraste perfeito.
As cores não mentem!


"A Leste do Paraíso", na Netflix

  Quando comecei a ver a série não tinha noção da forma como iria mexer comigo. Não, propriamente, em relação ao que é suposto ser o tema pr...