Depois de algumas horas fechados na sala de aula, chega finalmente a hora do recreio!
Os rapazes vão jogar à bola, enquanto as raparigas se juntam em grupinhos, a conversar ou a brincar com aquelas coisas que trouxeram de casa.
Observo com mais atenção, e descubro uma menina sentada num banquinho, afastada das outras crianças, a comer o seu lanche que a mãe, carinhosamente, lhe preparou.
Vejo no seu olhar, e na sua expressão, que está triste. Ela gostava de estar com as outras meninas. Mas as outras meninas não querem estar com ela.
Afinal, porque haveriam de a incluir naquele grupo de amizades? Quem é ela?
Ela é, apenas, a filha daquele homem que trabalha todos os dias para poder alimentar e dar o que pode à sua família, daquela mulher que, quando não está a trabalhar, fica em casa com os seus filhos, e vai levá-los e buscá-los à escola naquele velho Renault Clio que, provavelmente, não se importariam de trocar por outro mais novo, houvesse dinheiro para tal. Mas não há, e afinal de contas, é preferível ter aquele do que não ter nenhum.
Ela é, apenas, uma menina que não veste roupa de marcas famosas. Certamente, muitas das suas roupas nem novas são – foram dadas por outras pessoas a cujos filhos já não serviam. Embora os pais lhe possam comprar uma ou outra peça naquelas lojas mais baratinhas, ou numa qualquer feira.
Num meio onde vivem, em maioria, crianças filhas de pais ricos, com dinheiro, donos disto e daquilo, não é fácil ser pobre, não usar roupas de marca, andar num carro velho, e não ter brinquedos de última geração!
Aquela menina, é uma menina a quem os colegas põem de parte, por todos esses motivos Uma menina que todos os dias ouve os colegas chamarem-lhe as mais variadas coisas, que todos os dias é insultada e enxovalhada.
É uma menina triste e solitária, que só desejava ter amigas como qualquer outra criança, que só desejava brincar e ser aceite pelos colegas, que só desejava não ser discriminada pelas condições de vida que os pais lhe podem proporcionar…
Uma menina que, como qualquer ser humano, tem sentimentos…
E pergunto-me? Será a pobreza motivo para ter vergonha dos pais? Será uma justificação válida para tal?
Ou deve, pelo contrário, ser um motivo de orgulho para os filhos, saber que tudo o que têm, nem sempre muito, foi conseguido com muitos sacrifícios, esforço e dedicação dos seus pais, para que nunca lhes faltasse o essencial?
Não nos devemos sentir gratos quando, por exemplo, uma mãe abandonada pelo companheiro ainda grávida, cria a seu filho sozinha, trabalhando de sol a sol, muitas vezes passando fome para que não falte alimento ao filho, juntando todo o pouco dinheiro que conseguiu na sua vida para pagar os estudos ao filho e vê-lo formado em medicina?
É triste quando esse filho não reconhece tudo o que foi feito por ele, quando esse filho tem vergonha da própria mãe, quando finge não a conhecer e mente a todos sobre a sua família, quando esse filho só pensa no seu próprio bem-estar e comodidade, quando esse filho tem nojo da comida que a mãe, dentro das suas possibilidades, lhe pode pôr no prato, quando esse filho tem vergonha da casa pobre onde vive, não percebendo que ter um tecto para o acolher e abrigar, já é uma bênção.
Esse sim, é um bom motivo para se ter vergonha – não da pobreza material dos pais, mas da pobreza de valores morais de filhos!
è verdade fazem os pais sacrificios, sabe deus aquilo que esses pais pobres abdicam do pouco que tem para proporcionar o melhor aos filhose eles não sabem dar valor, e esses filhos só sabem dar valor quando um dia perderem esses pais.
ResponderEliminaresqueci-me de assinar lol André Ferreira
ResponderEliminarMarta, cheguei aqui e ao que parece fixei morada, pois li o primeiro texto, inspirei-me e aqui continuo a ler-te no segundo texto. Lembrou-me o personagem da Novela das oito, o Antenor. Foi ele que te inspirou o texto? Enfim, considerei todos os pontos e inclui alguns outros, afinal, parece-me que a situação tem diversos ângulos. Não acredito que seja uma obrigação filial a gratidão, pois quando se fixa um dever, cria-se uma conveniência. Neste caso a pessoa é grata pela obrigação, não pelo reconhecimento, inclusive, aquele que aguarda a gratidão o faz por narcisismo e quando não o recebe é o ego que é ferido na sua intimidade. Vamos ilustrar uma situação: Imagine um casal rico, onde ambos nasceram em berço de ouro, o filho do casal vivendo sem sobressaltos, deve lhes ser grato por esta vida ostentatória? O comum é dizer que esse casal não tem méritos, pois nasceram ricos, e essa concepção ocorre porque a sociedade ainda é demasiadamente materialista. Precisamos desmistificar os bens materiais. Ser rico ou pobre não é uma condição de orgulho. Quando derrubarmos as muralhas que erguemos com os tijolos da materialidade, então alcançaremos o teto mais elevado da condição humana, a moral.
ResponderEliminarAbraço
A primeira parte foi inspirada, infelizmente, na minha sobrinha. A segunda no personagem Guilherme de telenovela "Morde e Assopra", que de há uns dias para cá tenho acompanhado.
ResponderEliminarComo disse o meu namorado, e bem, não é fácil nem exigível a uma criança de 8 anos que todos discriminam pela sua condição social (e ainda que assim não fosse), compreender e agradecer aquilo que a luta dos pais e tudo o que fazem pelos filhos.
Assim como também acredito, como mãe que sou que, embora saiba bem o reconhecimento dos filhos, os nossos gestos e acções são oferecidos sem a mínima intenção de aplausos. São o reflexo do nosso coração, aquilo que nós fazemos por amor, e o maior reconhecimento que podemos ter é saber que fizemos o melhor por aqueles que amamos.
Quanto ao exemplo que dás, quem nasce em berço de ouro tem, à partida, algo mais que os outros não têm - dinheiro. E como todas as pessoas que o têm, podem sentir-se com sorte, e agradecidas.
Mas serão seres humanos muito mais ricos se souberem utilizar essa aparente vantagem de uma qualquer forma não materialista, se tiverem a noção que, para muitas pessoas, o dinheiro não cai do céu e se, ao invés de condenar, excluir ou discriminar alguém pela condição social, conhecer e valorizar outras qualidades não visíveis exteriormente. Qualidades essas que nenhum dinheiro pode comprar!
o meu filho tem 15 anos e hoje disse-me que não gosta que eu o vá por á porta da escola. E eu perguntei-lhe: porquê?. Ele sempre respondia porque não. Ao fim de muita insistência, disse-me que alguns colegas gozam com outros colegas que as mães ou os pais os vão deixar na porta da escola. E eu perguntei-lhe porque ele sentia vergonha disso. Aí ele disse-me: "Ainda se tivesses um Lamborghini...
ResponderEliminarEu fiquei muito triste e decepcionada com o meu filho. Espero que um dia, ele possa ter um Lamborghini... e que os filhos dele não se sintam á vontade com os outros colegas por eles terem carros modestos como o meu.