Juntamente com outras tantas mulheres, ela aguardava sentada, numa cadeira, em pleno corredor, a sua vez de ser chamada.
Aquela espera parecia-lhe uma eternidade e, por momentos, teve vontade de desistir, de sair dali e nunca mais voltar.
Era um ambiente pesado, de semblantes carregados. Ninguém falava com ninguém. Quanto tempo mais ficariam ali?
Nunca ela imaginara que algum dia se encontraria numa situação daquelas, mas agora era uma realidade, e só ela poderia alterar o desfecho desta história.
Tinha uma filha, com cerca de três anos, fruto de um relacionamento que culminou em casamento e cuja vinda, muito embora não tivesse sido planeada mas também não prevenida, trouxe muita felicidade aos pais!
Errar é humano, e erros qualquer ser humano comete. Este tinha sido um desses “erros”, se assim se pode chamar, mas que era muito bem vindo – afinal, era só o antecipar do futuro que ambos desejavam.
Mas agora era diferente. Tinham estado separados durante três meses, o divórcio esteve prestes a ser assinado. Contudo, o que quer que fosse que ainda sentiam um pelo outro falou mais alto, e tentaram uma nova oportunidade.
Só que, numa altura em que predominava a instabilidade emocional e a instabilidade financeira, a última coisa que precisavam era de cometer novamente o mesmo erro! No entanto, foi o que fizeram! Como ela tinha sido burra – sim, porque só pode ser essa a explicação para tal loucura. Estava grávida, e não tinha vontade nenhuma de ser mãe, de trazer outra criança ao mundo para passar o mesmo que a filha tinha passado. Além disso, ela não tinha condições. Nem tão pouco o marido lhas podia dar.
Não foi necessário pensar muito para pôr em cima da mesa a opção do aborto que, por ironia do destino, tinha sido legalizado nesse mesmo ano! Na verdade, apesar de nunca ter pensado alguma vez na vida fazer um, a verdade é que sempre tinha sido a favor do aborto e da sua legalização.
Contra a vontade do pai do bebé, mas apoiada pelos seus pais, e decidida a resolver o quanto antes a questão, até porque não tinha muito tempo até ao limite de semanas permitido, avançou com o processo.
Primeiro, uma consulta com a médica de família, que a encaminhou para um hospital público que, por sua vez, a encaminhou para uma clínica privada. Fez por sua conta uma ecografia, que lhe seria pedida mais tarde. E aguardou que lhe marcassem o dia para comparecer na clínica.
Só que não foi exactamente como ela tinha pensado. A primeira informação que lhe deram, quase fê-la dar meia volta e esquecer o motivo que a tinha levado ali. Não se faziam abortos com comprimidos, apenas por cirurgia, que consistia em “aspirar” o bebé, numa fracção de segundos, sem dor e sempre assistida por profissionais. E ela nunca tinha pensado nessa hipótese. Sempre teve em mente que lhe iam dar uns comprimidos e que o resto aconteceria em casa. Uma cirurgia…isso não era de todo o que tinha imaginado. Assustava-a.
Mas o seu pai estava com ela, e nem mesmo quando, por acaso, ouviu outra mulher já de saída comentar que sentia um vazio muito grande, e observar o estado físico e psicológico em que se encontrava, ele a deixou desistir.
E, assim, estava ela agora sentada com outras mulheres em situações similares, cada uma com o seu motivo, umas mais novas, outras mais velhas, mas todas com um objectivo comum.
Era, de facto, surpreendente a quantidade de mulheres que naquelas horas ali compareceram.
Chamadas por grupos, tinham que passar por diversas fases – uma primeira conversa com o médico, análises, ecografia, consulta de psicologia, e voltar novamente ao médico, que marcaria então o dia, a todas as que mantivessem a sua decisão.
Quando finalmente saiu da clínica, respirou de alívio – alívio por sair daquele ambiente onde esteve fechada tantas horas, e porque estava cada vez mais perto do final.
Dia 14 de Novembro compareceu novamente na clínica acompanhada, desta vez, pelo marido que, mesmo condenando aquela decisão e, provavelmente, contrariado, acedeu a levá-la e trazê-la de volta de carro, em vez de ela ir de transportes públicos.
Novamente à espera, chamaram-na para o vestiário com mais duas ou três mulheres. Já preparadas, levaram-nas para o bloco operatório onde lhes foi aplicada a anestesia. Ela tinha optado pela anestesia geral – assim não daria por nada. E quando acordasse, já estava!
E assim foi. Uns minutos depois, acordou já numa outra sala, de recobro, como se nada tivesse acontecido. Mais um tempo em observação, uma nova consulta de psicologia, um saquinho com antibiótico e anti-inflamatório, e tinha acabado o pesadelo.
Sim, foi essa a sensação que ela teve – novamente, alívio! Como se lhe tivessem tirado um peso das costas. Como se tivesse, desta forma, remediado o erro que tinha cometido.
Era a única solução possível naquela altura, disso não tinha a menor dúvida. Tinha feito o melhor para todos.
Não sei como se sentem as mulheres depois de abortarem – acredito que muitas entrem em depressão, que fiquem tristes, que se sintam culpadas, arrependidas…
Mas ela não – nunca se arrependeu, nunca se sentiu culpada, nunca se deixou abater, e seguiu a sua vida!
Hoje, engravidar não está fora dos seus planos, mas só se a sua vida e as condições o permitirem, porque errar uma terceira vez seria pura burrice, e aborto é uma opção que não se colocaria novamente.
Marta, é um tema delicado. Eu sou contra o aborto em qualquer situação. Não por vias religiosas, pois não tenho inclinação religiosa. Simplismente por vias fisiológicas e naturais. Embora eu possa argumentar com as vias religiosas, que são as vias mais comuns. O aborto não é um crime, é um ato de violência perpetrado contra a própria mulher, contra o pai da futura criança, contra a família, contra a sociedade. Basta observarmos a natureza e se desvela uma situação absurda e estranha ao plano da natureza humana.
ResponderEliminarAbraço
Eu gosto de assuntos delicados e controversos!
ResponderEliminarSempre fui a favor do aborto e foi, aliás, o referendo sobre este que me fez pela primeira vez dirigir-me a uma mesa de voto.
Não quer dizer que defenda o facto de as pessoas começarem a fazer abortos a torto e a direito, mas se tiver realmente optado por fazê-lo, mais vale que seja feito legalmente.
De qualquer forma, respeito opiniões contrárias, e agradeço o teu comentário.
Eu o que mais me revolta é ouvir dizer que as pessoas são contra o aborto a par de religiões, pois falemos então de violações, uma mulher de certeza que não foi violada porque quiz e numa acto de violoção pode resultar uma gravidez, vamos mais longe há pessoas que não tem condições para crirar filhos, e para trazer os filhos para passarem fome mais vale abortar, pois será um método politicamente mais correcto, não concordo nem acredito que as mulheres façam abortos compulsivamente, a mim o que me faz ainda mais confusão é como é que com tanta informação ainda existe tanta gente ignorante neste país!
ResponderEliminarAss: André Ferreira
Marta, li o seu comentário e o do André, de maneira que resolvi esplainar alguns argumentos que são alicerces da postura que mantenho com referência ao aborto. Sou contra o aborto, mas não sou contra a sua legalização. Isso pode parecer um paradoxo. Vou explicar-me. Se levarmos em consideração o papel biológico da reprodução, descobrimos que a reprodução não tem como fim o prazer, inclusive, percebemos que o prazer enquanto conceitualização de um efeito fisiológico é uma criação humana e, que a reprodução tem por fim a perpetuação da espécie. A concepção de uma nova criatura nada mais é do que a via de perpetuação da espécie. Desta forma o aborto não seria um crime, mas uma violação contra a própria natureza, pois o crime se configura quando tal ocorre no tocante a violência atentada contra a vida de outrem, levando-a a óbito ou não – neste caso ainda se estuda o limite de um feto, um ser humano e ai as religiões entram para falar da alma e a ciência para falar do animal humano. Não falemos em crime, mas em violação da natureza. E neste ponto acredito que o aborto é um atentado violento contra a criatura em gestação, pois lhe tira a possibilidade da vida, enquanto é uma violação da natureza, pois interrompe a perpetuação da espécie, e é também uma violência contra a sociedade, privando-a de uma criatura que auxiliaria na formação do futuro desta sociedade, além de violentar a própria mulher que segue uma existência atormentada moralmente, com inúmeros traumas psicológicos. Claro que há situações, tal como o André disse, nos quais a mulher é violentada, além das situações nas quais a mulher e a família não tem condições de sustentar uma criança. Pois, observando estas duas situações, podemos descortinar dois problemas sociais: a violência e a miséria. A mulher que está na miséria, hoje com os métodos contraceptivos, inclusive, que são oferecidos pelos postos de saúde, pois há uma proliferação de casos de doenças sexualmente transmissíveis, pode optar por não ter filhos sem a opção do aborto. No caso de violência contra a mulher, eis um caso delicado, no qual acredito que é preciso um trabalho intenso por parte da sociedade para que este crime vá sendo extirpado, contudo, acredito que a via do aborto não seria uma solução, uma vez que além de violar a natureza, a mulher impõe uma violência contra ela própria, inclusive, acredito que nestes casos tanto a mulher agredida como a família não estão aptas psicologicamente para uma tomada de decisão deste caráter, de maneira que o melhor seria aguardar os primeiros meses junto ao acompanhamento psicológico e médico, para que em seguida se formalize uma decisão por parte da mulher. E ai entra a legalização do aborto. Sabemos que o aborto ocorre mesmo sem a legalização, o que configura uma prática ilegal, a qual transcorre nos mantos obscuros da sociedade. A legalização do aborto permitiria que a sociedade esplainasse esse problema da violência com todas as tonalidades que ela carrega, pois enquanto o aborto está fechado nos mantos do obscurantismo, alia-se a ele a criminalidade, a violência, e surge o tabu, a incompreensão, a ignorância com referência a esse tema delicado e o qual merece atenção. Além de reafirmar o livre arbítrio com o qual as religiões seguem nos mostrando os rumos morais do pecado. Não devemos cercear com violência as atitudes, mas argumentá-las na sua lei de causalidade e aprofundá-las, para que cada ser humana possa adentra as camadas da responsabilidade com a compreensão profunda que um ato necessita comportar.
ResponderEliminarAbraço
Uma coisa é certa - hoje em dia (salvo raras excepções), dificilmente alguém engravida por acidente ou, pelo menos, não é suposto isso acontecer, dada a informação que temos e todo um conjunto de medidas preventivas que podemos tomar para que tal não aconteça. A mulher do meu texto, tinha acesso a toda essa informação, e sabia que tinha engravidado porque, ainda assim, não teve o cuidado necessário para se proteger.
ResponderEliminarPor esse ponto de vista, concordo que existem maneiras de evitar o aborto.
Quanto ao facto de se falar em violação contra a natureza, penso que é muito subjectivo...muitas vezes a própria natureza viola-se a si própria - não será da natureza, por exemplo, os pais morrerem primeiro que os filhos? No entanto, quantas vezes os filhos morrem tão jovens, deixando ainda nesta vida os seus pais. Somos nós que alteramos a lei da natureza, ou serão as leis da natureza que se alteram, e nos levam com elas?
Mas voltando ao aborto, e no caso específico das violações que resultam em gravidez, ainda no outro dia estava a pensar nesse assunto. É um facto que o aborto já era permitido por lei para esse caso específico.
Agora, por um lado, a criança não tem culpa da forma como foi gerada. E talvez até haja condições para esse bebé nascer.
Mas aí vai muito pelo lado psicológico da mulher. Até que ponto ela consegue superar o trauma e encerrá-lo, de forma a que consiga tornar bem vinda esta criança? Até que ponto, mais cedo ou mais tarde, não poderá surgir uma rejeição à mesma?
Penso que nenhuma criança se sentirá bem sabendo que não é desejada, que não é amada, que é rejeitada pela própria mãe...
Talvez, para isso, tivesse sido melhor não ter nascido...
Lá está, são questões muito delicadas, e só quem passa por elas sabe exactamente como se sente e o melhor para si.
O meu processo foi igualzinho ao teu. Tão igual que agora tive que ler quase por alto para não chorar ao relembrar mas até no final me revejo.
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