"O mundo é um lugar perigoso, não só por causa daqueles que fazem o mal, mas também por causa daqueles que observam, e deixam o mal acontecer."
"Bullying?"
"O que é isso?"
"Cá não há nada disso."
"São jovens, têm que resolver as coisas entre eles."
Por incrível que pareça, ainda se ouvem muitas vezes estas e outras expressões similares quando falamos de bullying.
A propósito de um documentário sobre o bullying nas escolas, dizia o meu marido que as coisas agora estão melhores. Diferentes, acredito, Melhores, tenho dúvidas.
Na escola da minha filha foi-nos dito pelo director de turma, que nós, pais, não devemos minimizar as situações, que devemos estar atentos aos sinais e agir, ainda que por mero descargo de consciência. E aos alunos, foi dito para não terem medo, para conversarem com os professores, para denunciarem, para não temerem. Até existe uma espécie de caixa do correio onde as vítimas de bullying podem colocar por escrito os seus problemas, de forma anónima.
Se, na prática, as medidas funcionam? Não faço ideia. Mas, pelo menos, assumem que o problema existe e que, teorica e aparentemente, se preocupam com ele. Porque o bullying existe, não é uma brincadeira de crianças, magoa, faz sofrer e pode levar ao suicídio, como já aconteceu.
Nesse documentário que referi, diziam os representantes das escolas: "Não podemos evitar que eles falem, não os podemos vigiar 24 horas por dia..." ou então "São os pais que devem falar com os filhos em casa". E assim se desculpam pela inércia, e lavam as mãos.
Uma das cenas que mais me irritou, foi ver uma directora chamar dois alunos (vítima e agressor), e pedir que dessem um aperto de mão para resolver o assunto. O agressor estendeu a mão. A vítima, no início, não. Depois, fê-lo contrariado. A directora, considerou que o comportamento da vítima não era correcto, que o aperto de mão não tinha sido sincero, e chegou mesmo a afirmar que a vítima, ao agir dessa forma, estava a ser igual ao agressor!
Como é possível ouvir alguém dizer isso? Então era suposto a vítima, que todos os dias sofre, é humilhada e agredida, aceitar um aperto de mão "para inglês ver" como pedido de desculpas, sabendo que nada ficou resolvido? Que tudo vai continuar igual? A vítima é que é a "má da fita"? A vítima é que tem de se rebaixar ainda mais? É inadmissível!
Uma outra família, falava do seu filho de 13 anos. Anos esses que não têm sido, de todo, fáceis. Cada dia que vai para a escola, é um inferno. Cada dia que regressa a casa sem que lhe tenha acontecido nada, é uma benção, um "respirar de alívio".
Num outro episódio, uma estudante do quadro de honra, desportista com várias medalhas e prémios, vítima de bullying, foi presa por sequestro de 25 crianças quando, num acto desesperado e depois de provocada, decidiu apontar uma arma (que tinha levado de casa) aos alunos que se encontravam com ela no autocarro.
O mais grave, foi o de um menino que não aguentou, e se enforcou no seu quarto. Dizia o pai que compreendia o que tinha levado o seu filho a fazer isso. Actos como roubar a roupa do filho enquanto ele estava no balneário e obrigá-lo a andar nu pela escola, e muitos outros, são pura violência psicológica e que podem destruir qualquer jovem.
Mas, afinal, qual é a origem do bullying? Como é que tudo começa? Será que quem pratica bullying já traz essa prática implantada no seu carácter, na sua personalidade? Será que a educação que recebeu o instruiu para isso? Ou será que se aplica aquele ditado de que "por detrás da pessoa que fere, há sempre uma pessoa ferida"?
E como é que se pode combater o bullying? Ajudar as vítimas? Quem pode fazer o quê?
Acima de tudo, devemos ouvir as vítimas. Saber ouvir, compreender e dar apoio.
Porque se as pessoas, principalmente aquelas que estão mais próximas e que deviam ajudar, minimizam o problema, ignoram, desdramatizam e viram costas, as vítimas fecham-se, calam-se, guardam para si, sofrem sozinhos, e isso pode levá-las a atitudes extremas.
E a responsabilidade deverá recair não só sobre quem praticou, mas também sobre quem viu e nada fez para ajudar.
Como disse Albert Einstein, "O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer".
É um problema cada vez mais frequente e preocupante. Concordo que a grande maioria das pessoas não dá o devido valor a estas situações. Não se deve ficar calado, não se deve deixar andar. Quanto ao facto de as vítimas passarem a ser as culpadas, aqui em Portugal é hábito tal acontecer. Uma vergonha!!!
ResponderEliminarExcelente texto e só para concluir, se continuarmos cegos ao que há nossa volta acontece continuaremos a ser ignorantes até que um dia aconteça a nós
ResponderEliminarApesar de ainda existir muito trabalho para fazer, no sentido de acabar com o Bullying em Portugal, existem outros países na Europa onde o problema é maior, apesar de gostarem de pousar de "desenvolvidos". Falo da França que é o caso que conheço.
ResponderEliminarTendo lidado um pouco com estas duas realidades, a portuguesa e a francesa, creio que posso afirmar que muito do comportamento do agressor vem da educação (ou falta dela). Em Portugal, os pais têm pouco tempo, em França falta de paciência.
Noto esse exemplo que fala no texto: "são rapazes, têm de aprender a conviver" (ignorância, falta de formação e continuidade de tradições educativas que têm medo de quebrar). E outras pérolas do género.
O bullying terá fim?
Sim. Mas para isso é preciso fazer mudanças.
A primeira é aceitar que o problema existe (nesse aspecto Portugal tem feito um melhor trabalho). Depois é discuti-lo, falar sobre ele. É preciso educar e formar pais para uma educação com exemplos, e sem violência (os miúdos perpetuam os bons hábitos). É preciso formar os professores para esse problema, ensinando a estar atentos, a colaborarem em equipa com os pais (e não o que acontece muitas vezes que é a troca de culpas). É preciso formar os auxiliares de educação, que são pessoas que estão tão perto dos jovens durante o tempo de lazer e que não sabem usar esse tempo e essa proximidade.
Não podemos andar com os miúdos ao colo?
Não, mas temos obrigação como sociedade de os orientar melhor. Se melhorarmos a vigilância aos motivos que levam alguém a tornar-se agressor, estamos a proteger as vítimas.
Conseguiremos a 100%?
Provavelmente não. Mas estaremos mais atentos, mais preparados para actuar adequadamente.
Com um filho na escola em França, tenho travado uma pequena luta no sentido de acabar com a inércia das professoras, que acham normal os miúdos andarem a brincar aos “super-heróis” e verem um grupo de três rapazes a atacar apenas um, e sobrarem hematomas. Hoje são brincadeiras, amanhã será o quê?
É preciso diplomacia, e conseguir envolver outros pais, mas é possível e as gerações futuras agradecem.
Parabéns pelo tema.
Eu já passei por isso quando andava a estudar, há 20 anos atrás. Na altura, só queria desistir, mas valeram-me os meus pais, que me obrigaram a concluir os estudos, e a ignorar essas pessoas. Nunca houve agressão física, apenas psicológica, a mim e a uma colega minha. Mas naquela altura, a palavra bullying nem sequer existia!
ResponderEliminarObrigada pelo comentário!
ResponderEliminarPor acaso o comentário que vi era nos Estados Unidos, mas como refere, também em França não estamos melhor.
De facto, depois de eu própria ter passado por uma situação de bullying quando fui para a escola secundária (há mais de 20 anos), a minha preocupação é, acima de tudo, a de que a minha filha não venha a passar pelo mesmo. Na verdade, a de que nenhuma criança ou adolescente tenha que passar por isso. E se estiver nessa situação, que haja intervenção, que haja ajuda, que haja compreensão.
Hoje dão pelo nome, embora casos desses eram normais, mas não tão falados ou noticiados como agora
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