“Devemos estar conscientes da distinção entre imigrantes económicos, que estão a tentar escapar da pobreza extrema, e refugiados, que fogem de bombas, armas químicas, perseguição, estupro e massacres, de uma ameaça imediata às suas vidas”, por Angelina Jolie.
Não sei se, com esta afirmação, Angelina quis apenas distinguir duas realidades, ou alertar para a necessidade de dar prioridade à questão dos refugiados, em detrimento dos migrantes. No entanto, tanto uns como outros têm em comum o facto de partirem em busca de um país seguro, onde possam viver em melhores condições, e sonhar com um futuro pacífico e próspero.
Se é verdade que a guerra representa um perigo de vida mais imediato, também é verdade que a pobreza e determinadas condições de vida desumanas, a médio e longo prazo, também o são.
No entanto, em conversa com o meu marido há uns dias, discutíamos dois pontos de vista legítimos, não sobre qual destes grupos deve ser ajudado primeiramente, mas sim sobre os objectivos de ambos os grupos, e a sua entrada nos países para os quais empreenderam viagens perigosas, arriscando muitas vezes a própria vida. Mais concretamente, se devemos deixá-los, ou não, entrar, e o que isso vai implicar para o nosso país, e para nós.
É verdade que sempre houve emigração e imigração, tal como sempre houve aceitação de refugiados em Portugal e noutros países. Mas agora têm sido centenas de milhares de pessoas, vindas do Oriente Médio, África e Ásia, a fazê-lo todos os dias, e cada vez mais e em maior número.
Alguns países adoptaram políticas de proibição de entrada destes migrantes e refugiados, fazendo alterações à lei em vigor até agora. A polícia patrulha as fronteiras e não hesitam em recorrer a gás, e violência física, se necessário for.
Dizia o meu marido que estes migrantes e refugiados fazem aquilo que qualquer um de nós faria se estivesse no lugar deles, e que estão no seu direito de fugir da guerra e da pobreza. Concordo. Mas os países procurados também estão no seu direito de não os querer receber, e tomar medida para tal, sob pena de se tornar uma situação incontrolável.
Sim, se eu estivesse no lugar de qualquer um deles também gostaria de ser recebida e ajudada. É isso que eles esperam de nós.
Mas, pergunto-me eu, como é que um país que ainda está a sofrer os efeitos da crise, tem condições de receber estas pessoas? Como é que um governo que aconselha o seu povo, principalmente os jovens que são o futuro do país, a emigrar para outros países, pode agora receber povos de outros países?
Que condições é que o nosso país tem para oferecer a esses refugiados e migrantes, quando não as tem para oferecer aos portugueses?
Se não há emprego para nós, haverá para outros? Se existem tanta gente em portugal a viver em condições desumanas, como é que pode oferecer diferentes condições a quem vem de fora?
Se não existe dinheiro para proporcionar saúde e educação gratuita às nossas crianças, para oferecer melhores reformas aos nossos idosos, onde irão buscá-lo para ajudar os milhares de refugiados que vamos receber?
É óbvio que, mais uma vez, vale a bondade e o esforço da população portuguesa que, mesmo não tendo muito, ainda assim está sempre pronta a ajudar o próximo, porque o governo, apesar de "obrigado" a receber estas pessoas, pouco fará, na prática, para os ajudar e integrar.
E mais, quem nos garante que, ao aceitarmos essas pessoas cá, não estaremos a piorar ainda mais a situação que vivemos actualmente? Quem nos garante que não nos estaremos a envolver, embora sem intenção, em guerras que não são nossas?
Não tenho nada contra os migrantes e refugiados. Como disse, no seu lugar faria o mesmo. Mas, tendo em conta todos os sacrifícios a que o governo nos obrigou a fazer, por causa da crise, é justo pensar também em nós, e nas implicações que isso nos trará.
Concordo inteiramente contigo Marta!
ResponderEliminarNão poderia concordar mais contigo. É óbvio que essas pessoas precisam de ajuda, mas nós não estamos em boas condições de as proporcionar. E depois vêm aqueles mais críticos dizer "antes dos refugiados, ninguém pensava nos pobres e sem-abrigo de Portugal", pensávamos, mas quem é que tem condições de os ajudar? Da mesma forma, quem é que tem condições de ajudar refugiados? Não tenho nada contra eles, até porque deve ser grande inferno viver numa cidade que está a ser destruída, que mata gente todos os dias, que só traz sofrimento e ainda para mais atravessar o mar, países, etc. só para ter uma vida melhor. Mas o que eu acho mais estúpido aqui é: dão-lhes de comer, é carne, rejeitam porque não comem carne. Então digam-me lá, têm fome, não têm? Oferecem-lhes comida, boa, ainda assim rejeitam porque vai contra a moral deles? Se eu tivesse fome, cagava-me para os meus moralismos e comia. Era comida! Por isso é que eu continuo a concordar com a Hungria: acho bem fecharem as fronteiras, porque antes era SÓ mil e não sei quantos refugiados/migrantes, agora são MUITOS mais! E o que é demais também farta e pelo que vi nas imagens, por muito stressados, cansados ou injustiçados que se sintam, usar crianças como arma, lançando-as aos guardas e usar pontapés, pedras, etc. não é uma forma educada de entrar no país dos outros, por isso, força com força se pagaram: gás pimenta, gás não sei quê, água. Sinceramente, se eles estivessem a vir a bem, as coisas estariam a correr às mil maravilhas, mas como eles querem à força sair e ir para onde querem, óbvio que lhes cortam as rédeas.
ResponderEliminarEssa opinião acerca dos refugiados parece-me sensata e equilibrada, embora não concorde com o receio manifestado quanto ao acolhimento dos mesmos em Portugal. De resto, o mesmo diria dos "imigrantes económicos", e até já temos aqui muitos deles, sobretudo provenientes dos PALOP e ainda alguns países da Europa de Leste.
ResponderEliminarObviamente, o ideal seria que as condições de vida nesses países fossem minimamente aceitáveis, para que as pessoas pudessem viver com tranquilidade e sem o temor que guerras e insurreições sempre trazem. A este respeito, parte da responsabilidade está nas políticas económicas e na diplomacia dos países do Ocidente, mormente os EUA e a UE. Logo, receber esses refugiados é uma decisão ética que não pode ser ignorada.
Além disso, Portugal vai receber um número limitado de pessoas e não vejo de que modo isso pode ter consequências negativas, pelo menos em termos económicos. Depois, já existe uma comunidade muçulmana em Portugal, pacífica e bem integrada, além de que a presença árabe na Península Ibérica também faz parte do berço lusitano. Deste modo, pode dizer-se que os povos que vamos agora receber até integram a nossa história e quem sabe se não poderão contribuir para a engrandecer?
Em suma: nihil obstat... acolher dignamente quem pede ajuda é uma obrigação moral e, perante isto, todos os demais considerandos devem ficar em segundo plano!
«Não pertenço a qualquer religião. Minha religião é o amor, cada coração é meu templo.» − Rumi (Pérsia, séc. XIII)