quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Preconceito, rótulos ou pura realidade?


 


Como disse um dia Albert Einstein "É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito".


Até mesmo aquelas pessoas que afirmam não ser nada preconceituosas têm, por vezes, pensamentos ou atitutes que demonstram que não é bem assim.


Mas, o que será que nos leva a rotular determinados grupos, a demonstrar preconceito por determinadas pessoas? Será pura ignorância, valores errados que lhes foram incutidos, um perfeito absurdo, ou apenas a constatação da realidade?


É verdade que não devemos julgar o todo pela parte. Cada pessoa é como é, diferente de todas as outras, e pessoas boas e más existem em todos os grupos sociais e culturas. Não somos melhores nem piores que ninguém.


No entanto, porque é que, por exemplo, os ciganos, são tão temidos e ninguém gosta deles? Não será porque, frequentemente, vemos os mesmos envolvidos em confusões ou em cenas de violência? O mesmo acontece em relação aos ucranianos. Mas isso acontece com todos, não é só com eles. 


As mulheres brasileiras, por exemplo, foram muitas vezes rotuladas de "destruidoras de lares". Mas será que os homens portugueses só começaram a trair as suas mulheres quando chegaram cá as brasileiras? Duvido muito!


Um outro exemplo são os bairros em que a maioria dos habitantes são pretos. Muitas pessoas evitam frequentar estes bairros com receio de assaltos, violência e outro tipo de crimes. E associam estas pessoas a delinquentes, jovens em risco, gente que não faz nada na vida porque não quer, que anda no mundo da droga.


Eu própria tenho amigas que são negras, com quem me dou bem e, de uma forma geral, não tenho nada contra quaisquer outras raças, mas será que me sentiria segura num bairro destes?


E quando falamos de ex presidiários? Ou pessoas que, um dia, cometeram determinados crimes? O meu marido estava no outro dia a ver um filme em que havia dois jovens - o primeiro, rico mas cego, cujo único problema era sofrer de bullying; o segundo, pobre, já tinha efectuado alguns furtos mas estava a tentar endireitar a sua vida, e ajudava o primeiro nas suas competições. Ficaram amigos. No entanto, quando supostamente desapareceu um relógio de ouro ao primeiro, o seu pensamento foi de que poderia ter sido o seu amigo a roubar-lhe o dito relógio. É um pensamento automático, involuntário ou não, mas que chega antes que o possamos evitar. Afinal, o relógio estava apenas caído no chão. 


E o mesmo acontece a quem já esteve preso por determinado crime. Se o fez uma vez, é provável que faça uma segunda.


Mais recentemente, temos o caso dos refugiados e dos terroristas. Mesmo sabendo, até por todos os casos de que já ouvimos falar na televisão, que um terrorista pode ser um americano que pegou numa arma e se lembrou de matar não sei quantas pessoas só porque sim, um inglês que estava deprimido e resolveu andar à facada a toda a gente, ou até mesmo um português, quem sabe nosso vizinho ou conhecido, que afinal era um violador ou serial killer, ainda assim talvez nos sintamos mais seguros num ambiente onde não estejam vários muçulmanos. Porque, embora não queiramos pensar que em cada muçulmano há um terrorista com uma bomba prestes a explodir escondida, a verdade é que esse pensamento é, muitas vezes, mais forte que nós e damos por nós a querer sair dali depressa.


Ou seja, embora todo e qualquer preconceito seja uma forma de discriminação e violência, existem aqueles que são totalmente infundados e sem cabimento, outros que resultam de rótulos que foram sendo atribuídos ao longo dos anos, talvez por situações que já aconteceram com membros desses grupos sociais ou culturas, e que servem agora para julgar o todo pela parte, e aqueles que se baseiam em factos reais e concretos.


Se é possível erradicar de vez estes preconceitos? Acredito que possamos tentar ser mais tolerantes, compreensivos e evitar julgar as pessoas sem as conhecer, ou formar juízos de valor tomando o todo pela parte. Mas não me parece que seja possível eliminá-lo de vez. Porque, mesmo sem querer, há-de vir sempre aquele pensamento, aquela desconfiança, aquela insegurança que, embora nem sempre resulte em atitudes preconceituosas directamente contra as pessoas em causa, está lá, mesmo que apenas na nossa mente.


 

5 comentários:

  1. Esta é uma questão que originiva um debate imenso. Tem de se apostar mais na tolerância, na existência desta diferença e aprender a conviver com ela, a viver em sociedade!

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  2. Eu até me considero uma pessoa tolerante. Mas confesso que não me senti muito confortável este fim de semana num supermercado, com 3 ou 4 muçulmanos lá. Embora depois tenha percebido,pela conversa da senhora que estava com eles (portuguesa), que seriam seus amigos que tinham fugido das guerras, e que até já cá estavam a trabalhar.

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  3. Partilho de tudo o que foi dito no teu texto e acrescento que a opinião pública ajuda muito a criar também essa imagem,pois esta não é só criada de pessoas para pessoas, mas fundamentalmente pelo que ouvimos da opinião pública.

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  4. Olá Marta ! Concordo em parte, mas....
    Porque é que temos medo do cigano e não do tipo alto e louro que vive na porta ao lado, mesmo sabendo que os dois cometeram o mesmo tipo de crime? Porque muito provavelmente, nunca nos cruzamos com um cigano na vida e foi-nos alimentada a ideia que era gente má. Nunca tivemos oportunidade de verificar, antes que o medo e o consequente preconceito se apoderasse dos nossos juízos se o “cigano mau” pintado pela avó para que comêssemos a sopa, era realmente assim como ela o retractava. Para piorar as coisas, a imprensa coloca rótulos, alimentando-nos o medo. O tipo alto/louro é como aquelas pessoas com que nos cruzamos a vida toda, e “até pode ter roubado um banco, mas nunca o vi fazer mal. Comigo foi sempre muito educado”. Com realidades distantes a coisa complica-se. Dá muito jeito a muitos governos ter a desculpa perfeita para invadir um território, fazê-lo sem mais nem menos e sem o apoio da população era revolta garantida no seu próprio território. Então usam a técnica da avozinha, só que não é para nos empurrar a sopa goela abaixo, é para nos plantar o medo, para que sejamos nós a pedir “consequências”. A América no caso Iraque, ficou exposta nessa técnica. E no caso dos refugiados e dos muçulmanos, o caso pinta-se de cor petróleo, e a indústria das armas a querer facturar. A Síria é um local estratégico, mas com populações pobres, que se preocupam mais em sobreviver que em fazer uma Guerra que custa caro. Não é assim tão tolo, pensarmos que alguém armou meia dúzia deles mais radicais e deixou-os à vontade para fazer asneiras. Por cá a imprensa encarrega-se de dar a notícia, o medo faz o resto.
    Confesso que os muçulmanos com os seus lenços na cabeça e as suas vestes longas me metiam respeito, porque toda a vida só ouvi falar deles por “guerra e terrorismo”. Hoje vivo no mesmo espaço que eles, e fazem exactamente as mesmas coisas que nós: levam as crianças à escola, dizem “bonjour”, esperam na sala de espera do médico pacientemente como nós, … Ou seja, tive de repensar o chip que me impingiram, durante anos e anos de notícias. Acho que tem solução o preconceito, deve começar na educação dos nossos filhos: evitando o “porta-te bem que vou chamar o policia” (quantos não têm pânico da policia por causa disso!!). As escolas mistas, para que os miúdos convivam uns com os outros são essenciais. E claro, uma comunicação social, mais equilibrada na forma como noticiam, para não criar falsas imagens. No outro dia a ver um atlas com o meu filho de 6 anos, apareceu os EUA. E fazia referência ao Mississípi. Lembrei-me, talvez pelas histórias de “Tom Saywer” de explicar ao meu filho que esse país tinha enfrentado uma guerra, porque tratava mal as pessoas cor de chocolate. “O que é isso, mãe?” Tive de explicar que dependendo da zona geográfica as pessoas adquiriam características especiais para se adaptarem ao clima, e que isso se mantinha na herança por muitos e muitos anos. E no caso das pessoas de África, por exemplo, como lá o Sol é uma presença constante, as pessoas tinha uma cor bronzeada. A pergunta: “Mas, o meu amigo tem cor bronzeada e vive aqui.” Respondi: “Sim, mas ele herdou essa cor dos avós, e vai dar de herança aos filhos. São características que ficam por muito e muito tempo”. Lembrou-se do início da conversa: “Mas, porque é que isso fez uma guerra.” A minha resposta foi simplesmente “Porque alguns homens são ignorantes, não quiseram aprender o porquê das diferenças, e deixaram-se levar pelo medo. Quando tens medo o que é que fazes?” A resposta dele “Fujo.” Depois expliquei-lhe que o facto de fugir tirava-lhe a possibilidade de entender, e até de aceitar ou não. Conto isto, porque desta forma constatei o que já sabia de alguma forma, o preconceito não é algo natural, é algo que plantamos nos nossos filhos e perpetuamos geração atrás de geração. Quando são bebés eles aprendem a ler-nos para além do que falamos, por isso é tão importante o exemplo e não os discursos. O meu filho criou-se num espaço onde todos são aceites em igualdade de circunstância, por isso lhe fez co

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  5. Obrigada pelo comentário e por ter partilhado connosco a sua opinião!

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