terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Carta aberta de uma mãe a todos os professores

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"Exmos.(as) Srs.(as) Professores(as),


 


Não entendam esta minha missiva como desrespeito pelo vosso trabalho enquanto professores nem, tão pouco, desconsideração pela disciplina que leccionam, ou pela importância da mesma no percurso escolar da minha filha, vossa aluna, e no seu futuro.


No entanto, permitam-me manifestar, desta forma, a minha opinião que, certamente, enquanto pais que são ou virão a ser, compreenderão.


 


Que futuro terá uma criança/ adolescente que passa os dias no estabelecimento de ensino e, quando chega a casa, vê o seu tempo de lazer ocupado com trabalhos de casa, interrompidos apenas pelo lanche, pelo banho e pelo jantar?


Que vê os seus fins-de-semana preenchidos com trabalhos de casa de várias disciplinas, a que muitas vezes se juntam trabalhos de grupo e o estudo extra para os testes da semana seguinte, apenas interrompidos pelas refeições, pelo banho, e pelas breves pausas que, por entre o estudo, aproveitam para pegar no telemóvel e aceder às redes sociais, ou ouvir um pouco de música?


 


Sei que, certamente, haverão pais que sofrem desse mesmo problema, e vêem a sua vida reduzida a trabalho e tarefas domésticas. A que, muitas vezes, ainda se junta a ajuda aos filhos nos estudos.


Sei que vocês, como professores e pais, também terão o vosso tempo ocupado e limitado, sem muito tempo para a vossa vida familiar, com muita pena vossa e, provavelmente, com queixas por parte dos vossos filhos.


 


Mas sabem uma coisa? 


Sinto falta de passar tempo de qualidade com a minha filha!


Não, simplesmente, estarmos as duas na mesma casa, cada uma ocupada com as suas tarefas, ou as duas às voltas com livros, cadernos e matéria. Mas de estarmos as duas, sem preocupações, sem pressas, sem o relógio a contar o tempo que temos para conviver, no meio de tudo o resto.


 


Tenho saudades dos tempos em que a escola ficava na escola, e a casa era para a família. 


Para uma ida ao cinema, ao teatro ou ao circo, para um passeio num sábado ou domingo, ou até para uma festa de aniversário, tenho que andar a ver no calendário, o melhor dia, em que ela não tenha nada para fazer ou estudar. Passam-se meses, sem que o consigamos fazer. Valem-nos as férias escolares, apenas, e o escasso período de pausa entre fornadas de testes.


 


E, então, pergunto-me:


Não será, por vezes, mais produtivo e educativo, um programa familiar onde possam aprender algo, conviver com a natureza, aprender valores que não vêm nos livros, do que dias a fio encerrados em casa, agarrados a matéria que nem percebe para que lhes servirá?


Não será preferível trocar os nervos, as dificuldades da matéria, o stress dos testes, a correria, as maratonas de estudo, por momentos divertidos e alegres com aqueles que mais os amam?


Não deveria valer uma boa acção, ou um bonito gesto, mais do que uma nota num teste ou na pauta final?


Não deveria um sorriso no rosto, a paz, a tranquilidade, valer mais que o receio de um mau resultado e que as lágrimas por algo que não conseguem perceber, ou não correu bem?


 


Ensinar não tem que ser uma coisa má, deveria ser algo que encarariam com recetividade e curiosidade.


Mas era preciso que o ensino não fosse algo que quisessem enfiar à força na cabeça dos alunos, como quem tem um prazo para enfiar uma infinidade de coisas em algum sítio, dê por onde der, não permitindo que os estudantes apreendam, no seu tempo, aquilo que estão a receber.


O ensino deveria ser o complemento da vida familiar, e não o seu substituto, a tempo integral.


 


E, acreditem, por vezes, tenho vontade de a deixar livre, para aproveitar as coisas boas que a vida tem para lhe oferecer, sem ter que pensar em mais nada. Tenho vontade de obrigá-la a trocar os livros por uma sessão de riso, com as nossas patetices, por umas horas de brincadeira, por uns momentos de solidariedade para com quem mais precisa, por tempo para se divertir com as amigas, por tempo para, simplesmente, não fazer nada!


 


Sinto falta da minha filha, apesar de estar com ela todos os dias!


Como tenho a certeza que vocês, professores, enquanto pais, também sentirão, relativamente aos vossos filhos, ou familiares com quem deixam de passar tempo por conta do vosso trabalho.


 


Grata pelo tempo dispendido na leitura desta missiva que, tenho a certeza, reflete o pensamento e sentimento de muitos pais deste país."


 


 


Não sei até que ponto enviar uma carta destas aos professores da minha filha seria considerado caso grave de internamento! Mas o que aqui está escrito é a mais pura verdade.


E por aí, há alguém que se reveja?

10 comentários:

  1. O meu costuma trazer trabalhos de casa uma vez durante a semana e mais alguns ao fim de semana. Não acho uma coisa má, a professora alertou-nos logo no início do ano lectivo que o iria fazer em virtude da turma estar atrasada em relação aos critérios do M.E. A mim ajuda-me a perceber os progressos dele e onde tem mais dificuldade, claro que lhe tira tempo para a brincadeira, mas na minha perspectiva, não sendo uma carga muito elevada tem-no ajudado muito a melhorar.

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  2. Não tendo filhos, mas sobrinhos, percebo a carta de uma mãe já desesperada por ver a filha cada vez mais isolada da família devido aos trabalhos diários!
    Hoje em dia as crianças, passam o tempo todo a estudar, na escola entendo, em casa e alguns ainda estão em centros de explicações! Depois os fins de semana chegam cheios de trabalhos para fazer também! Mas onde fica o tempo para a família?
    Deveriam os professores ter noção disto e moderarem-se um pouco mais!
    Queremos adultos responsáveis, mas que tenham tido uma verdadeira infância!
    Beijinho

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  3. Bons tempos, esses!
    Eu sei que no meu tempo também tinha esta vida como estudante, mas sinto mais agora, como mãe.
    Posso-te dizer que a minha filha, este fim de semana, levou para o pai no sábado trabalhos de matemática e físico-química (várias fichas). No domingo, esteve a fazer um trabalho de geografia de manhã, almoçou, foi fazer trabalhos de inglês, mais físico-química, lanchou, trabalhos de português, o resto de matemática, viu um filme e terminou a noite a estudar para o teste de segunda.

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  4. Era eu o responsável por ajudar as minhas irmãs mais novas nos trabalhos de casa e digo-te uma coisa, muitas vezes era eu que os fazia por serem tantos que nem sequer dava tempo para ensinar e escrever.

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  5. E é mesmo isso que acaba por acontecer muitas vezes.
    Eu só tenho uma filha, agora quem tem mais filhos (no teu caso irmãs), é tempo que se perde a dobrar ou triplicar.
    E como se não fizerem levam falta, toca de pôr uma coisa qualquer que seja, mesmo que não faça sentido, porque já não há paciência nem tempo para tentar perceber ou pesquisar.

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  6. Eu compreendo acontece o mesmo, falta tempo para eles poderem não fazer nada... e o meu nem está inscrito em mais nenhuma actividade extra...(Escolar)

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  7. Subscreve muitas das tuas frases e pensamentos, se não todas. Também sinto falta de passar tempo com ele, sem que seja a chamar atenção , para o mandar estudar, para o mandar fazer os tpc's, para o levar á biblioteca para os trabalhos de grupo...

    Fica ele e eu exaustos...
    Saudades da escola primaria, menos disciplinas, ritmo mais calmo...

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  8. No meu tempo também era assim, mas queixo-me mais agora, pela minha filha, do que na altura, por mim mesma!
    Acaba por ser um exagero.
    Só para teres uma noção, a minha filha fez anos a 17 de janeiro e nesse fim de semana fomos ver o concerto da Luna, porque já tinha os bilhetes comprados há meses. Mas ainda não consegui fazer o almoço com as colegas da escola, porque não houve fim-de-semana que não tivesse testes e trabalhos! A ver se é agora no Carnaval!

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  9. Exactamente, para não fazer nada! Também têm esse direito :)
    A minha está na dança, por vontade dela, à sexta-feira, porque o horário o permitiu. Mas não pode ir à aula extra que entretanto dão às quartas.

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  10. Às perguntas "Não será preferível trocar os nervos, as dificuldades da matéria, o stress dos testes, a correria, as maratonas de estudo, por momentos divertidos e alegres com aqueles que mais os amam?
    Não deveria valer uma boa acção, ou um bonito gesto, mais do que uma nota num teste ou na pauta final?
    Não deveria um sorriso no rosto, a paz, a tranquilidade, valer mais que o receio de um mau resultado e que as lágrimas por algo que não conseguem perceber, ou não correu bem?"
    Osho responde dizendo que a escola faz estúpidos.
    Saudades de quando existia relação entre o que se ensina e a realidade. E aos poucos íamos estimulando a abstração.

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