
O cancro é uma doença bastante conhecida e, atrevo-me a dizer, muito temida e odiada por todos nós.
Ela é responsável por levar muita gente desta vida. Familiares, amigos, conhecidos...
E, se é verdade que nem sempre mata, e é possível vencê-la, uma vez, e outra, se for preciso, também é verdade que, por vezes, leva a melhor. E quando não é ela própria, é o "rastro" que ela deixa. Como se costuma dizer, muitas vezes, não se morre da doença, mas da cura.
Claro que, quando uma pessoa recebe um diagnóstico destes, muita coisa lhe passa pela cabeça. Acredito que deva ser uma mistura de sentimentos contraditórios. Por um lado, quer lutar e acredita que pode vencer. Por outro, só a palavra por si só é suficiente para a pessoa achar que está condenada, e nem lhe apetecer lutar, numa guerra que já está perdida, à partida.
Acredito que, da mesma forma que a pessoa vai buscar forças que nem imaginava que tinha, também se vai depressa abaixo, noutros momentos.
Além disso, suponho que tenha dois pesos em cima de si. O de ganhar coragem para a sua luta, e o de transmitir coragem a quem a rodeia. Mostrar, muitas vezes, aquilo que os outros esperam.
Mas, pergunto-me, o que será que uma pessoa diagnosticada com cancro espera de quem a rodeia? De quem está ao seu lado?
Lembro-me de ir visitar a minha tia. De lhe dizer que não podia estar a pensar de forma negativa. Que não deveria pensar que ia deixar as filhas, os netos. Porque é o que se espera que digamos. E porque queremos que assim seja. Mas, não estaremos a enganar-nos, a nós, e à pessoa?
Lembro-me de a ver chorar, resignada, por aquilo que sabia que a esperava, embora fosse suposto nós dizermos o contrário, e ela ter que mostrar que sentia o contrário, para não nos incomodar, e deixar ainda mais tristes. Mas, no fundo, ela sabia. E partiu pouco tempo depois.
Uma vizinha nossa, também a lutar contra um cancro, sempre que a via, estava com um ar abatido, de lágrimas nos olhos, ciente do seu destino. Os médicos diziam que era tratável, que tinha cura. Pois... mas a medicação excessiva para essa cura acabou por lhe tirar a vida.
Ainda que cada uma das pessoas que falasse com ela lhe desse força, lhe quisesse tirar os pensamentos negativos da mente, e acreditar que tudo iria correr bem.
No fundo, parece que estamos a enganar a pessoa, a dar-lhe falsas esperanças. A dizer e mostrar algo em que nem nós acreditamos. Portanto, uma farsa.
Assim, de que forma nós, que estamos do outro lado, devemos lidar com pessoas com cancro?
Com positivismo? Com realismo? Com fingimento? Com sinceridade?
A pessoa diagnosticada preferirá frases feitas, ainda que quem as pronuncia não acredite muito nelas?
Preferirá verdade?
De que forma podemos ou devemos apoiá-la, sem pintar um quadro negro derrotista, mas também sem mascarar a situação, enchendo-a de uma cor que não tem?
Ainda que encaremos, pra nós, a situação de uma forma realista, devemo-la expôr? Ou ficar em silêncio?
Devemos andar ali com "paninhos quentes", e "pezinhos de lã"? Ou mostrar que a batalha é dura, poderá não ser ganha, mas estamos ali, para o que for?
A frase que mais se adequa à minha forma de pensar, e que me vem logo à mente, é "Always expect the best, prepared for the worst...", ou seja, esperar sempre o melhor, mas estando, ao mesmo tempo, preparado para o pior.
Quer quem está a passar pela doença, quer para quem está do outro lado.
Mas só quem já passou por isso, ou quem está a passar, poderá dizer aquilo que, verdadeiramente, quer e espera de quem está ao seu redor.
O que se espera é que as pessoas não evitem a pessoa doente por não saberem o que dizer. Se tivesse uma pneumonia já sabiam: façam da mesma maneira.
ResponderEliminarQue não contem as histórias de A, B, C que "também".
Que sobretudo, tenham consciência que quem tem um cancro não está, necessariamente, infeliz, com medo da morte, ou que um cancro foi a pior coisa que lhe aconteceu na vida.
Há pessoas saudáveis que são profundamente mais infelizes que outras, doentes, com a vida contada.
Que vão com elas caminhar, porque a oxigenação das células é o melhor remédio contra o tratamento e contra a doença... pelo menos meia hora por dia, caminhar! E é melhor com companhia. Mesmo depois dos tratamentos, caminhar todos os dias!
Não lhe dêem conselhos sobre o que deve comer.
E, enfim, ninguém com cancro reage da mesma maneira! Há pessoas que choram, outras que ficam revoltadas, outras que vão abaixo com os tratamentos, outras que nem tanto. Ha pessoas que tentam levar uma vida normal, outras não. Há pessoas que se afastam dos parceiros, outras que ainda precisam mais de sexo que antes.
Têm que estar atentas aos sinais, não ir em lugares comuns de esperar uma "profunda transformação interior ".
O pior ano é o dos tratamentos, porque pode ser um enorme tédio, um vazio ali no meio antes de se poder retomar a vida. E é bom ter companhia.
E não fiquem constrangidos quando aparecem pessoas nos filmes q morrem de cancro. Parece ser a maneira preferida de matar pessoas, nos livros também. Isso irrita um bocadinho :P
A taxa de sobrevivência do cancro da mama, por ex, é de 90% em Portugal.
O cancro é cada vez mais uma doença crónica. Cada vez mais se aliam as terapias complementares. O Champalimaud, por ex, está ligado à MamaHelp, criado pela dra M João Cardoso, onde há acupunctura, reiki, um naturopata oncologico que receita uns suplementos fantásticos.
Espero ter ajudado, beijinho
A nossa experiencia cá em casa (e já estamos no 2º ) é:
ResponderEliminar- Pensamento positivo, mas nunca pensar que o sucesso(cura) está garantido.
- Falar do assunto com a maior naturalidade e à-vontade possível, nas não fazer disso o assunto dominante de todo e dia e todos os dias cá em casa.
- Em relação aos de fora, tentar manter alguma privacidade. Não é segredo, mas também não somos nenhuns "coitadinho".
- Olhar para o passado, e ver onde erramos, e tentar corrigir caso seja possível.
- Olhar para o futuro, com esperança, e evitar cair nos erros do passado.
- Valorizar os que temos mais perto de nós. Valorizar as pessoas pelos atos e não pelas posses.
E depois é tentar levar uma vida o mais normal possível, desfrutar o dia a dia, e pensar que não somos só nós que sofremos, mas também aqueles com quem partilhamos a vida.
Muito mais podia dizer, mas acho que já fica aqui o essencial.
Esta é a nossa postura, mas como é obvio somos todos diferentes, e cada um tem a sua maneira de lidar com a situação
Bj
"Que não contem as histórias de A, B, C que "também".
ResponderEliminarAcho que isto acontece muitas vezes. Por um lado, servimo-nos de exemplos de sucesso para dar esperança. Por outro, recordamos os de insucesso, para não a criar, ficando de pé atrás.
O ser humano é mesmo complicado!
Cada caso é um caso. Cada pessoa é diferente e reage de forma diferente. É viver um dia de cada vez.
Felizmente, à excepção da minha tia, ainda não tive que lidar de perto com uma situação destas.
Obrigada pelo comentário.
Beijinhos
Acho que a forma como quem está de fora reage, tem muito a ver com a forma como quem está a viver o problema reage.
ResponderEliminarSe a pessoa estiver a reagir positivamente, então nós temos tendência a, naturalmente, apoiar e dar ainda mais força.
Quando a pessoa assume uma atitude derrotista, é que fica mais complicado para quem está do outro lado, porque pode sempre parecer que o nosso optimismo é "falso".
Se a pessoa encarar com relativa naturalidade e força, sem andar sempre a falar do mesmo, para nós também assim será.
Mas se a pessoa se faz de "coitadinha", é pior também para nós.
Beijinhos
Tens de apoiar a pessoa, ela tem de se sentir amada. Um doente oncológico em muitos casos é um doente agressivo. A revolta é enorme, o que é compreensível. Há doentes que são uns verdadeiros lutadores, outros entram numa espiral depressiva e não quer lutar. É muito importante ter acompanhamento. A maneira como cada doente encarada a doença é muito importante para o seu tratamento. O meu pai foi diagnosticado com um dos cancros mais mortais. Eu sabia que o ia perder em pouco tempo, nunca pensei que fosse numa semana... Ele tinha esperança. O que fazer? Cuidar dele, dizer para lutar, dizer que os amamos. O sentimento de impotência é grande. Mas consegui proteger-lo e felizmente graças á equipa do.meu serviço, os seus últimos dias teve a dignidade que merecia.
ResponderEliminarUm abraço apertado minha querida.
ResponderEliminarNão é ninguém do meu lado. É a avó do André que foi diagnosticada com cancro da mama, aos 85 anos.
ResponderEliminarFelizmente não tive de lidar com isso aqui para os meus lados.
ResponderEliminarOs meus pais têm outros problemas de saúde, mas ainda lá andam, e espero que por mais uns aninhos.
Obrigado Sofia.
ResponderEliminarUm abracinho também para ti
Infelizmente, já estive dos dois lados. Tive a minha mãe e a minha sogra que faleceram de cancro da mama e eu que tive cancro na tiroide.
ResponderEliminarEu acho que o melhor é sempre falar do assunto com naturalidade, sem perder a esperança mas também ser realista quanto à situação, pois também não é bom criar falsas esperanças e esconder a realidade. Acho que a pessoa que se encontra doente tem direito a saber a real situação, quais são as perspetivas de cura e falar sobre as suas escolhas se a situação não correr da melhor forma.
Em relação ao cancro em pessoas com idades já avançadas, por vezes, os médicos decidem não fazer tratamentos, pois a evolução pode ser lenta. Cada caso é um caso.
Força e BJS
Eu só estive de um dos lados uma vez, com a minha tia.
ResponderEliminarEla tinha vários problemas de saúde e, com o cancro que era, não resistiu e faleceu 5 meses depois de ter descoberto o bicho.
Agora, é a avó do meu marido que tem cancro da mama. Já tem 85 anos. Vai ser operada, e depois logo se vê.
Beijinhos
Que corra tudo bem para vocês, vivendo um dia de cada vez
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