segunda-feira, 29 de março de 2021

Histórias Soltas #15: Dias bons, dias maus

Autocolantes de ciência sol e nuvens - TenStickers


 


O despertador tocou.


Uma vez. Outra vez.


Mecanicamente, Sara desligou o alarme de cada vez que ele soou.


Agora, já não tocaria mais.


Sabia que tinha que se levantar, mas não queria arriscar sair da cama, e enfrentar outro dia como o anterior.


Sara tinha dias bons, e dias maus.


O dia anterior tinha sido um desses dias maus, em que a dor de cabeça a tinha atirado para a cama, para um quarto escuro, e para o silêncio.


Silêncio relativo, já que se ouvia os filhos dos vizinhos na rua a gritar enquanto brincavam e, só mais ao final do dia, o som lá de fora se limitou ao canto dos pássaros.


Ainda tinha tentado levantar-se, e fazer alguma coisa em casa mas, poucos minutos depois de estar de pé, as dores voltavam com o dobro da intensidade, e a indisposição não lhe permitia continuar a insistir.


Nestes dias, em que Sara resistia, heroica ou estupidamente, a tomar um comprimido que fosse para aliviar as malditas enxaquecas, a solução era mesmo deitar-se, e esperar que no dia seguinte as dores tivessem passado, e ela pudesse voltar aos dias bons.


No entanto, as crises tinham começado a tornar-se mais prolongadas, mais fortes, e ultimamente, o dia seguinte era apenas sinónimo de uma melhoria, não de restabelecimento total.


A culpa era sua, bem sabia.


Sara já conhecia bem os gatilhos que despoletavam as crises e, por isso, sabia bem que deveria evitá-los o mais possível.


Sabia que deveria evitar locais demasiado movimentados, abafados e barulhentos, como os centros comerciais, por exemplo.


Que não deveria deitar-se muito tarde, ou dormir até tarde.


Que não deveria ver televisão durante várias horas.


Que o sol intenso, a luminosidade excessiva ou odores fortes poderiam ser o suficiente para a deixar mal.


Ela sabia tudo isso. Mas há coisas que nem sempre dá para evitar.


E que nem sempre ela queria evitar.


Depois, restava-lhe aceitar o “castigo”, que se vinha a tornar mais penoso.


Ela, que nunca tinha sido mulher de beber cafés, até esse truque tentava, sem efeito.


Desta vez, ponderou mesmo tomar um comprimido para atenuar as dores.


Mas a noite chegou, conseguiu dormir e, agora, era um novo dia.


Com pouca vontade, levantou-se.


Aparentemente, estava bem. As dores tinham passado. A indisposição também.


Parece que, afinal, seria um bom dia.


Ou assim o esperava Sara…

9 comentários:

  1. Planear, planeio.
    Ando com vontade de avançar com isso, mas falta-me tempo para escrever uma coisa contínua.
    Esta é a minha história de ontem, e dos últimos tempos. As enxaquecas não me dão muitas tréguas, mas pelo menos serviram de inspiração, e pode ser um tema a falar no livro, tal como o divórcio e a adaptação a uma nova vida sozinha, depois dos 40 anos (embora esta parte ainda seja apenas ficção).
    Acho que a protagonista desta vez vai ter como hobby a fotografia, e quem sabe fotografa algo que não devia, e venha daí algum crime.

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  2. Obrigada!
    Acredito que esta seja a realidade de muitas pessoas que sofrem de enxaquecas, e talvez com quadros ainda piores que este.

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  3. Interessante! A minha irmã também sofre de enxaquecas crónicas.

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  4. A minha mãe teve durante anos, com a menopausa passou.
    A mim já há alguns anos que tenho, mas ultimamente é mais frequente. O que vale é que duram um ou dois dias, e depois passam.

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  5. Ainda não. A médica de família não viu necessidade disso. Mandou-me tomar comprimidos, enfiar-me na cama e deixar o marido fazer as coisas

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