quinta-feira, 15 de julho de 2021

Eram felizes, e não sabiam...

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Eram miúdos.


Brincavam na rua. 


Corriam pelos montes.


Aventuravam-se...


 


Caíam, e levantavam-se.


Mesmo com um joelho esfarrapado, ou um braço arranhado.


Não tinha importância.


 


Mergulhavam no tanque.


Tomavam banho à mangueirada.


Que importava?! Queriam era refrescar-se!


 


Madrugavam. Com o nascer do sol.


Acordavam ao som dos animais. 


Aqueles com quem conviviam, até irem parar ao prato. 


 


Alimentavam as galinhas.


Passeavam as cabrinhas.


Bebiam leite das vacas.


 


Corriam atrás das borboletas.


Fingiam caçar os pássaros.


Sonhavam ao ver os pirilampos.


E chegavam, ao fim do dia, cansados.


A olhar o céu estrelado, antes de fechar os olhos.


 


Ali, eram como uma grande família.


Uma família onde passavam os verões. As férias. Ou o ano inteiro.


Uma família com a qual cresceram.


Os pais, os tios, os avós, os vizinhos.


 


Os mimos.


A comida especial.


O aconchego.


 


Mas, um dia, quiseram partir.


Ou tiveram que partir.


E tudo mudou.


 


Os anos passaram.


Os avós, partiram. 


Os tios, partiram.


Os pais, partiram.


Alguns vizinhos, partiram.


 


Alguns miúdos, agora adultos, tentaram manter a ligação. A tradição. As memórias. 


Tentaram diminuir o efeito do tempo. Honrar a família.


E preservar aquele que será, sempre, o seu verdadeiro lar.


Onde podem reencontrar a felicidade, a paz, a tranquilidade.


A sua essência. As suas raízes. 


 


Outros, afastaram-se de vez.


Quebraram a ligação.


Abandonaram o passado, e não fazem ideia de lá voltar.


E, com esse abandono, com esse esquecimento, tudo o que lhe dizia respeito se foi degradando. aos poucos.


Tudo se foi perdendo.


 


No seu lugar, restam as lembranças de quem ainda por lá anda. As saudades de quem ainda por lá vai passando.


Quem sabe, um dia, a vida não volta àquelas casas, àquelas terras, àquelas gentes?


Quem sabe, os filhos pródigos não voltam, ao lugar onde eram felizes, e não sabiam, na esperança de agora, sabendo-o, voltar a ser...


 


 


Imagem de Nellya Brito


Este texto surgiu na sequência da imagem da Nellya. Mal a vi, vieram-me várias reflexões à mente.


A Nellya desafiou-me a escrever uma delas. E aqui está!


 

14 comentários:

  1. Bonitas lembranças. Belo texto. Gratas lembranças de Infâncias vividas no campo. Imagem tão Alentejana! Será?! Saúde, muita.

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  2. Agora fizeste-me voltar as minhas memorias de infância

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  3. As nossas memórias, os nosso lugares.
    Adorei o texto
    Beijinhos

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  4. Olá Francisco :)
    Muito obrigada pela visita e comentário!
    Sim, é uma imagem alentejana, da aldeia de Alcarias, penso eu.

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  5. Ainda bem que gostaste
    Embora nunca tenha vivido a minha infância pelo Alentejo, imagino que fosse um pouco assim.

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  6. Era essa a ideia
    Penso que muitas vezes, quando chegamos à idade adulta, tudo aquilo de que gostávamos quando éramos crianças soa a pouco, e partimos em busca de mais.
    E, muitas vezes, só quando começamos a envelhecer, é que pensamos em voltar à origem. Quando percebemos que, afinal, o tanto que queríamos, não era tão bom como o pouco que deixámos para trás.

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  7. eu vivi numa aldeia, e espero voltar brevemente para lá. Mas é no Oeste, perto de Alcobaça. Tanta liberdade que se tinha.

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  8. A fotografia é realmente belíssima, mas o teu texto não lhe fica nada atrás. Gostei muito Marta
    Boa semana.

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  9. A minha infância foi passada na região saloia.
    Eram comuns os piqueniques nos pinhais, mas também muita praia no verão.

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  10. Obrigada, Rute!
    Na verdade, foi escrito em grande parte pelo que imaginei que seriam esses tempos, e pelo que fui lendo, de pessoas que por lá viveram uma parte da sua vida.

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  11. Obrigada, Isa!
    A foto dava um quadro
    Estes locais da infância, que um dia tanto gostámos e, depois, abominámos, são aqueles em que, por vezes, nos refugiamos mais tarde, regressando à origem.
    Beijinhos e boa semana!

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