sábado, 31 de julho de 2021

Quando recebemos a notícia de que a nossa mãe partiu

É curioso que, tendo já escrito tantas homenagens, não me saiam agora palavras para falar da minha mãe.


Talvez porque tudo o que eu disser será pouco. E porque aquilo que está cá dentro não caberia num só texto. Ou porque talvez seja mais difícil quando são os nossos.


 


Apesar de, nos últimos tempos, ter previsto este cenário por diversas vezes, é algo para o qual nunca estamos preparados, quando ele se confirma.


Quando acordei, esta manhã, estava confiante. Nada me preparou para o que aí vinha.


 


Um telefonema da médica, pouco depois das 9 da manhã. Pensei que fosse para me pôr ao corrente da evolução da minha mãe.


Nem quando me disse que a minha mãe tinha um quadro complicado, suspeitei. 


Nem mesmo, quando me perguntou se eu tinha mais alguém em casa. Pensei que fosse por ser necessário ir lá.


Só quando lhe perguntei o que iria ser feito, quais os passos seguintes, é que ela me informou que, infelizmente, a minha mãe tinha falecido.


Portanto, ela falou e fez-me falar, já em modo de preparação, para atenuar o choque da triste notícia.


E foi, de facto, um choque. Como, imagino, será para todos os que perdem familiares.


 


Posto isto, a principal preocupação foi como dar a notícia ao meu pai.


Porque teria que ser eu a dá-la, e não o poderia fazer no estado em que estava, para além de não saber como iria ele reagir.


 


Depois, avisar familiares, amigos e, a cada telefonema, ou mensagem, reviver as emoções, relembrar o choque, encarar e tomar consciência da realidade.


E tentar não pensar nisso, para não descambar.


Fazer piadas, ocupar com tarefas domésticas.


Momentos intercalados com lágrimas e lembranças.


Até as bichanas perceberam. A Amora veio dar-me turrinhas, como que a consolar-me.


Estava em casa apenas com a minha filha.


Não foi fácil.


 


Depois, momentos de decisões.


Autopsiar, ou não autopsiar? Para quê? De que adiantava agora  saber a causa da morte?


Calhou-me ligar para a médica, e dizer que não queríamos autópsia.


 


E, em seguida, ligar para a agência funerária, para dar início a todo o processo.


Escolher urnas.


Escolher flores.


Escolher cartões para o velório.


Escolher mensagem.


E aperceber, mais uma vez, da realidade.


É necessário. É uma homenagem. Mas quem é que tem cabeça para essas coisas num momento destes?


 


Desligar o interruptor.


Há uma filha, as gatas para tratar, o almoço para fazer.


O meu marido chegou entretanto. Tinha ido trabalhar mas, perante a situação, arranjaram alguém para o substituir.


O meu irmão viria também.


 


Afinal, ainda havia mais trâmites a tratar.


A escolha da roupa para vestir a minha mãe.


É horrível.


Sabemos que será essa a última imagem dela, e queremos dar-lhe a dignidade possível, ainda que nesta hora em que nos despedimos dela.


Mas é voltar tudo ao de cima, olhar para as coisas dela, e um milhão de pensamentos e lágrimas a misturar-se, e a deitar abaixo.


 


No entanto, é preciso levar a roupa.


Fazer compras.


Limpar a casa.


Desligar o interruptor, e tentar distrair-me é o melhor remédio.


E, se possível, tentar que não toquem no assunto.


 


A esta altura, final do dia D, em que a minha mãe completa 79 anos e meio, e nos deixa para sempre, já nem sei bem o que sinto. 


Mas sei que o pior ainda está por vir.


Amanhã.


 


Por mim, seria uma despedida rápida, só para nós, e acabava.


Mas sabemos que as pessoas querem dar apoio. Que também se querem despedir. Mesmo que cada palavra, dita com a melhor intenção e sentida, nos faça mais mal que bem. Que seja como um escarafunchar numa ferida que está em carne viva, e que assim não sara.


E, por muito que saiba que vai ser duro olhar para a minha mãe, ou para o que restou dela, sei que quero olhá-la uma última vez.


 


Não sou dada a religião, mas a minha mãe era católica e, por isso, pedi serviço religioso.


Que, também ele, vai ser duro. Faz parte. E se não aguentar, é sinónimo que sou humana.


 


E, por fim, o encerrar de tudo.


O momento em que percebemos, definitivamente, que é real, que não a veremos mais. Que, a partir dali, estará debaixo de terra.


Que, ao menos, o seu espírito encontre uma moradia melhor.


 


A nós, restam-nos dias duros, de mais burocracias que, também elas, são necessárias, e a esperança de que o tempo atenue a dor e o sofrimento dos que cá ficam, com a certeza de que a minha mãe, que partiu, já não sofre mais.


É a lei da vida. Calha a todos. Uns mais cedo. Outros mais tarde. Mas ninguém escapa.


Ainda assim, não deixa de ser sempre pior quando nos toca a nós, e aos nossos.


É tentar agarrar ao que de bom vivemos com ela, com plena noção de que não ficou nada por fazer, dizer ou demonstrar, no tempo que que estivemos com ela.


 


 


 


 

19 comentários:

  1. Envio-lhe daqui um pouco de força. Paz para a sua mãe e luz para si e para os seus.

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  2. Os meus sentimentos! Coragem neste momento.
    Beijinhos 😘

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  3. Lamento muito Marta.
    Um abraço forte para estes dias duros que vais passar.
    Beijinho grande.

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  4. Olá Marta.
    Uma dor enorme.
    Muita força.
    Pois não existe palavras.
    Um abraço apertadinho.
    Luisa

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  5. Não consigo e acho que ninguém quer imaginar tamanha dor...
    Muita força, para si e para todos os que estão em volta. Um abraço apertado!

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  6. Que texto tão emotivo. Fez-me lembrar de como é difícil receber esta notícia. Já passei por isto.
    E depois da notícia ter tarefas a fazer no estado em que estavas.

    Pensar que ela agora está em paz e que já não sente dor, pode ajudar. Pensar que , pelo menos esta última equipe de médicos fez tudo o que podia. Pensar que agora tens uma estrelinha ou um anjo da guarda.

    Um beijinho

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  7. Marta,

    Como dizes, e bem, partir é o destino de todos nós.
    O meu sogro morreu em casa, na sua cama, rodeado da família que assistiu ao apagar-se da vela.
    Depois coube-me vesti-lo, com a ajuda preciosa do meu filho e do meu sobrinho. É a vida...
    Eu como catolico acredito que a mãe Isabel estará em bom lugar.
    Agora tens uma estrela no céu a olhar por ti. Coragem.
    E apoia o teu pai.
    Um beijo grande.

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  8. Estamos totalmente anestesiados, para tomar tantas decisões. Informar a família. Disse logo aos meus tios que não haveria velório, eu e a minha irmã não iamos suportar, mas pedi um capelão.Não houve escolha de roupa, naquela altura devido ao covid as indicações eram outras. Ficamos com um vazio no peito e alma, uma dor profunda... Se precisares de alguma coisa estou aqui. Um abraço apertado. Bjs

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  9. A minha filha perguntava-me: mas porque é que temos que estar aqui duas horas? Olha, porque pode haver pessoas que conheciam a avó, que queiram vir aqui dar uma palavra à família. Por mim, era só família próxima, e seguir directamente.
    O diácono fez um discurso da treta. O André já se estava a passar.
    Pedi para abrirem a urna logo no início, para ser uma coisa mais íntima, custou-me imenso vê-la. Nem pudemos aproximar nem tocar. Regras covid.
    Depois o meu pai, no cemitério, queria chegar-se mais ao pé da campa, parecia que queria ir com ela. Até que teve que se afastar, porque já não conseguia ver ela a ser enterrada.
    Espero que ele se aguente, que a nossa presença e força sejam o suficiente para ele não achar que já não está cá a fazer nada, e querer ir para junto dela.
    Beijinhos

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  10. Eu não pude abrir a do meu pai. O capelão fez um discurso bonito é a minha prima cantou uma música da igreja, o capelão juntou-se a ela. Vais perceber que é um dia de cada vez. E a burocracia é outro pesadelo. Bjs

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  11. Das poucas pessoas próximas que vi partir, a sensação que tenho é a de que não me consegui despedir delas como queria.
    Não sou católica, embora a minha mãe o fosse, mas acredito em algo. Quando a minha tia morreu, sonhei com ela duas vezes. A primeira, foi a despedida que não tinha conseguido fazer. A segunda, ela a mostrar que estava bem, feliz, e que podíamos estar descansados.
    Quando a nossa Tica morreu, sonhei duas vezes com ela. Uma também em jeito de despedida, e outra, em que ela vinha com dois gatinhos, o que nos levou a adoptar a Becas e a Amora.
    Agora, com a minha mãe, só lhe pedi que, quando pudesse, e quisesse, enviasse algum sinal.
    Esta noite, sonhei com ela. Eu tinha ido lá a casa, e para minha surpresa, ela estava na cama, como de costume. Melhor do que nos últimos dias.
    Talvez seja ela a dizer que, apesar de ter partido, continua viva para aqueles que a amam, e que quer que nos lembremos dela com relativa saúde, e não daquela imagem que vimos na urna.
    O meu pai é a nossa grande preocupação agora.
    Beijinhos, e obrigada pelas palavras

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  12. Acho que agora será uma questão de encontrar estratégias para ir vivendo cada dia.
    As crenças de cada um, sejam elas quais forem, também podem ajudar.
    No meu caso, pedi-lhe para me dar um sinal de que estava bem e, se isso acontecer, já me basta.
    Beijinhos, e obrigada!

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  13. Olá Marta, lamento imenso o sucedido, ainda por cima, em tempos de pandemia em que uma pessoa está impedida de se despedir em condições, desejo que o teu pai consiga sobreviver a tudo isso e que tu tenhas muita força e coragem para continuar a viver, tudo de bom para vocês, tens razão em dizer que todos nós partimos um dia, no entanto, é muito difícil conseguir ultrapassar essa grande dor que é ver partir alguém. Fiquem todos bem,

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