terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

A experiência traumatizante de um internamento hospitalar

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Ninguém vai, de ânimo leve, para um hospital.


Sobretudo, pessoas com mais idade. 


Pessoas que, felizmente, nunca precisaram de estar em hospitais anteriormente.


Pessoas que acham que está na sua hora. E que já perderam alguém, há muito pouco tempo.


O medo/ precaução do Covid tornou tudo ainda pior, se é que isso é possível.


 


Primeiro dia:


Faz hoje uma semana que o meu pai foi para Santa Maria.


Foi de ambulância. 


Passou pelo covidário, tendo sido, depois, recambiado para a zona dos "amarelos". Onde a minha mãe tinha estado, quando a levámos a primeira vez.


Só que, desta vez, não permitiam acompanhantes.


Ou seja, o meu pai, que não tem paciência nenhuma, sabendo que está numa situação não muito famosa, teve que ficar ali dentro, sozinho, horas a fio, juntamente com todos os outros que estavam em situações idênticas.


O meu irmão estava lá, do lado de fora. Mas, num dia inteiro, foi preciso chegar ao final do dia para que um segurança compreensivo deixasse o meu irmão entrar por 5 minutos, e uma enfermeira simpática permitisse que o meu irmão pudesse ficar com o pai durante cerca de 1 hora.


O meu pai ia falando connosco pelo telemóvel. Estava consciente. Sabia que ia ficar lá.


Ver o filho, no meio de toda aquela situação, fê-lo sentir que não estava sozinho. Nem todos tiveram a mesma sorte.


 


Segundo dia:


O meu pai continuava nos "amarelos".


Pelos vistos, passou lá a noite, e todo o dia de quarta-feira. 


Sozinho. Numa maca, provavelmente. No meio da confusão. Já sem conseguirmos falar com ele, porque ficou sem bateria no telemóvel.


 


Terceiro dia:


A médica informa-nos que o nosso pai passou a noite agitado, e apresentava alguma confusão mental.


Só poderia ser o stress de estar ali internado, pensámos.


A verdade é que, a partir do momento em que uma pessoa está num hospital, começa a perder as suas referências. Toda a sua rotina é alterada. Juntemos a isso a medicação, a saturação, o problema em si, e o estar-se sozinho, sem conseguir falar com ninguém.


O meu pai estava com máscara de oxigénio, a tratar uma insuficiência cardíaca que lhe afectou a parte respiratória e renal e, eventualmente, poderia ter causado danos no cérebro.


Tiraram-lhe o telemóvel porque estava muito agitado. E nós continuávamos sem perceber bem que agitação era essa.


 


Quarto dia:


Finalmente, o meu pai teria uma visita!


O meu irmão poderia vê-lo, durante meia hora.


Foi nesse dia que percebemos a real dimensão do trauma que o internamento lhe causou. Tal foi o choque.


Quem não o conhecesse, diria que tinha problemas mentais. Fez, inclusive, nesse dia, uma TAC ao crânio.


Embora com alguns momentos de lucidez, logo se escapava para outro mundo.


Achava que ninguém sabia onde ele estava, e que o tinham raptado, e mantido ali preso. O que não anda muito longe da verdade. Tiveram mesmo que adoptar medidas de contenção, à noite, e sedá-lo, para que parasse de gritar, e de se levantar para sair do quarto e ir embora.


Dizia ao meu irmão que tinha que ir para o hospital. Que, na "clínica" onde tinha estado (os "amarelos", supomos), não lhe tinham feito nada.


 


Quinto dia:


Teve direito a mais uma visita, desta vez, do irmão. 


Continuava confuso. Muito debilitado.


Queria ir à rua. Sair daquele quarto.


 


Sexto dia:


Nova visita, desta vez, da minha prima.


E começámos a ver a luz ao fundo do túnel.


O facto de ir lá gente vê-lo, talvez o tenha acalmado e, acalmando, reduziram os sedativos. Menos "drogado", o discernimento começou a regressar.


Já tinha um discurso mais coerente, embora por telefone, não se percebesse muito, devido à fraqueza dele.


 


Sétimo dia:


A médica informa-nos que ele já voltou ao normal, estava consciente, coerente, triste por não ver a filha, e farto de estar no hospital.


A TAC não acusou nada.


Está a melhorar e a recuperar do problema, e terá alta em breve, se continuar assim.


 


Oitavo dia:


Hoje, vai ter a visita do genro.


Vamos experimentar levar o telemóvel dele, que entretanto nos devolveram porque ele não o podia ter com ele, para ele voltar a estar contactável.


 


Passaram-se oito dias, que pareceram, a ele e a nós, uma eternidade, com alguns sustos pelo meio. No caso do meu irmão, o choque de o ver pessoalmente num estado que nunca imaginaríamos.


Para uma pessoa como o meu pai, cheio de força interior, chegar àquele ponto de os médicos pensarem que ele tinha algum distúrbio mental, imaginem o trauma.


E, da minha parte, ter que passar por tudo isto à distância, por conta do covid. Dependente de notícias de quem lá ia vê-lo, e da médica, com quem tenho falado sempre, ou de auxiliares. Sem poder vê-lo, descansá-lo, acalmá-lo.


 


Claro que isto não acontece com toda a gente que é internada.


Estava uma senhora, ao lado dele, já mais que habituada a esta andanças, e estava ali na boa, conversando e contando algumas das coisas que tinham acontecido com o meu pai.


Mas pode acontecer a muita gente, sobretudo numa altura em que, aos doentes, é tirado o suporte familiar do acompanhamento, o contacto directo com a família ao longo dos dias, e as visitas são tão poucas, e tão pouco tempo (1 única pessoa por dia, durante meia hora).


 


Eu, continuo de castigo, à espera do certificado de recuperação, para poder entrar no hospital.


Esperemos que ele venha para casa antes disso.


E que não venha com sequelas psicológicas, de toda esta experiência! 

19 comentários:

  1. É uma enorme angústia para quem fica no hospital e para todos que amam os seus entes queridos e que deixam de os ver. É preciso uma maior humanização na forma como se tratam estas situações.
    Infelizmente sei do que falas. Há um ano atrás tinha o meu pai internado e não o podia ver porque não havia visitas. Certos dias foram um inferno...
    Um abraço apertadinho e que o teu pai possa regressar a casa o mais brevemente possível!

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  2. Olá, espero que tudo corra pelo melhor e que volte rápido para casa. Ao ler o que se passou parece que estava incluída nessa situação. Tudo tão complicado agora e pior mesmo é para quem se encontra no hospital. Não deve ser nada fácil...

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  3. Eu vivi isso tudo, mas com a sorte graças ao meu chefe de ter o meu pai na minha enfermaria!
    É uma triste veres o teu pai que era um homem cheio de fia a definhar, a perder as suas capacidades e ter consciência disso.
    Informa-te sobre as visitas. Não pediram nenhum teste ao teu irmão?
    Quando fores visitar o teu pai não tires a mascara e leva das n95.
    As pessoas e os órgãos de comunicação dizem que o COVID acabou, mas puderam constar que não...

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  4. Vou tentar ser sucinta, enquanto algumas lágrimas descem pela minha cara.
    Em Outubro de 2019 o meu pai (na altura 84 anos) foi internado com um AVC isquemico.
    Ele é muito dorminhoco. Depois de 2 noites sem conseguir dormir, começou a alucinar. Foi-nos dito que poderia ter sido sequelas do AVC. Entramos em pânico, o que faziamos se o meu pai viesse para casa a bater mal? Entretanto começou a dormir e as coisas melhoraram. Ainda hoje conta uma situação de porrada entre médicos a que assistiu (custou a perceber que tinha sido alucinação, hoje compreende.)
    Janeiro de 2021 colocam-lhe um Pace maker, não teve tempo para alucinações. Poucos meses mais tarde foi operado a um aneurisma, e a uma válvula. Voltamos ao mesmo, tiveram de amarrá-lo.
    A minha mãe em Novembro de 2020 pôs um Pace maker. Teve azar, apanhou o fim de semana, e esteve 4 dias com uma mulher ao lado que gritava toda a noite. A minha mãe chorava quando falava connosco ao telefone. Uma mulher a quem nunca vimos chorar, entrou practicamente em depressão. Chegamos a ligar para a enfermaria a avisar da situação, para terem a atenção, porque aquela pessoa não era a minha mãe.
    Quando li este teu post, as lágrimas correram-me pela cara. Vi as situações pelas quais passamos, com a agravante que a maioria aconteceram em tempos de COVID e não houve visitas.
    Que tudo corra bem e que o teu pai possa voltar para os seus depressa.
    Beijinho grande

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  5. O meu irmão tem as vacinas todas, só teve que apresentar o certificado de vacinação.
    No meu caso, sem vacinas, nem teste negativo, só mesmo com certificado de recuperação, que chegará para o final da semana.
    Antes disso, ele vem para casa

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  6. Se tudo correr bem, vem amanhã para casa
    Sim, há hospitais que nem permitem visitas. E são tão fundamentais para quem está internado. É a única ponte com o mundo exterior, com o mundo que deixaram temporariamente. É uma fonte de ânimo. O único momento em que não estão a olhar para 4 paredes, à espera que o tempo passe.

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  7. A colega de quarto do meu pai dizia ao meu irmão "nós, aqui, passamos o dia à espera que chegue a noite, e passamos a noite à espera que chegue o dia".
    Tendo outras duas pessoas no quarto que passavam o tempo todo sedadas e a dormir, essa senhora aproveitava as visitas dela, e as do meu pai, para conversar e, assim, passar melhor o tempo. Isso para além do telemóvel.
    Para quem está mais debilitado e dependente, é muito complicado.

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  8. Querida Marta!! Sinto muito.......
    Espero que ele possa recuperar o mais rápido possível para sair.
    As melhoras.
    Um beijinho
    Luísa Faria

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  9. Foi mesmo esse sentimento de dúvida e angústia: se ele vem para casa, como é que vem? Será que volta a ser a pessoa que era? Sai dali e vai para a psiquiatria?
    Nós atribuímos a situação ao choque, de quem nunca esteve internado. Ele entrou para lá consciente. Alguma coisa se passou naqueles 2 dias, entre a entrada na urgência e a transferência para o internamento. A descompensação provocada pelo problema, os sedativos, a medicação, também não ajudaram.
    Os hospitais estão pelas costuras, não têm meios suficientes, as restrições e o caos provocado pelo Covid vieram piorar tudo, e quem sofre é quem tem que lá estar.
    Beijinhos e obrigada

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  10. Já está de volta ao normal, segundo a médica
    Amanhã vamos buscá-lo!
    Beijinhos e obrigada, Luísa

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  11. Que bom que já regressa a casa querida Marta! Desejo que tudo fique bem!

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  12. No caso do meu pai foi nitidamente, privação de sono, das duas vezes. Parece-me que por lá pensam que são velhos malucos. Mas são só seres humanos privados dos seus hábitos, e enfiados num sítio de doentes, de onde tem medo de não sair vivos. O meu pai está óptimo de cabeça. Mas do susto não nos livramos, e do medo de próximos internamentos também não.

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  13. querida Marta, infelizmente mais do que a doença, o COVID trouxe estas particularidades que, infelizmente, deixam mais macas que a própria doença.
    espero mesmo que corra tudo bem... felizmente aí ainda deixaram haver uma visita...há hospitais que nem isso e não se percebe que faz mais mal que bem :( enfim..
    um beijinho enorme e muita força

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  14. "Alguma coisa se passou naqueles 2 dias, entre a entrada na urgência e a transferência para o internamento. "
    Acredito nisto.
    As urgências são do pior que há para um doente, sobretudo quando se tem a idade do teu pai.
    É triste tudo isto, e a covid veio piorar a situação dos hospitais, e de quem trabalha lá.
    Espero e rezo para que o teu pai saia de lá o melhor possivel, e com a sua mente tranquila.
    Para ti, Marta, as melhoras, e olha por ele.
    Beijinho

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  15. As tuas melhoras e do teu pai, que situação.
    Beijinhos grandes

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  16. A parte boa é que já teve alta e está em casa, recuperado da parte psicológica. Animado no dia em que o fomos buscar. Com apetite! Desde então, uns dias mais em baixo. Outros menos.
    A parte menos boa é que os problemas estão lá, os novos, a juntar aos antigos, e sentimos que ele acredita que o tempo dele está a acabar.
    A médica de família, depois de ver o relatório de alta, disse-me "Aquilo que o teu pai tem é muito grave. A qualquer momento, o coração dele pode parar."
    É viver um dia de cada vez...
    Beijinhos, e obrigada Maria!

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  17. O mais surreal no meio dessa história das visitas e exigências é que, no fim, não se controla tudo. Se o meu pai estivesse internado, não me deixavam entrar para vê-lo, porque não tinha certificado de recuperação. Como ele teve alta, o segurança não pediu nada, e deixou-me entrar com o meu marido.
    Acabei por estar no quarto, onde seria a visita, com ele, ao pé de outros doentes.
    Enfim...
    Obrigada
    Beijinhos

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  18. Depois do que a médica de família te disse, quando chegar a hora, que seja muito em em paz.
    Com todo o carinho que ele merece, mima-o.
    Para ti, um abraço.

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