
- Porque é que a concha se abriu?
- Porque está na hora de saíres de dentro dela.
- Mas eu não quero sair.
- E porque não?
- Porque aqui, estou em segurança.
- Achas mesmo que sim?
- Claro! Ela protege-me.
- E do que te queres proteger assim tanto?
- Desses monstros que me olham, que parecem querer agarrar-me.
- Ora, os monstros de que falas nada mais são do que os ramos das árvores. Não tens que temê-los.
- E estás a ver toda essa escuridão? Mete medo. Aqui dentro há luz.
- Esta escuridão nada mais é que a sombra das árvores, que te falei há pouco. Mas, quando atravessares a floresta, perceberás que também existem clareiras, onde terás o sol a iluminar-te.
- Então e os barulhos, que se ouvem? São assustadores.
- Os barulhos são apenas os animais que vivem por aí. Que se atreveram a sair das tocas.
- Porque não posso, simplesmente, ficar aqui?
- Porque é preciso viver. E só poderás fazê-lo, saindo dessa concha, experienciando o que há para lá dela. E porque o medo não é motivo suficiente para o fazeres.
- Mas eu já vivo!
- Enganas-te. Limitas-te a existir.
Tens pés, mas não caminhas.
Tens mãos, mas não agarras as oportunidades.
Tens olhos, mas recusas-te a ver mais além.
Tens coração, mas não te permites sentir mais do que receio.
- Podes insistir em ficar na tua concha. Querer que ele se volte a fechar, contigo lá dentro. Mas que sentido isso faz? Vais passar aí toda a tua vida?
- E se o fizesse, que mal tinha?
- Estarias a desperdiçar a tua vida. Aquela por que muitos anseiam, e não a podem ter.
De que serve uma vida sem riscos? Sem coragem? Sem garra? Sem luta? Sem atrevimento?
Sim, pode-se perder muito. Mas também se pode ganhar muito.
Nessa concha, não perdes, mas também não ganhas.
Pensas que ela te protege mas, da mesma forma que não deixa ninguém entrar, também não te permite sair.
É mesmo aí que queres passar toda a tua vida?
- Não sei...
O que sei é que, quando, e se eu quiser sair daqui, tenho que fazê-lo por mim. Tenho que ser eu a querê-lo, e mais ninguém.
E, enquanto não o sentir, aqui ficarei, na minha concha.
Ainda que todos, à minha volta, insistam para que a abandone de vez...
Texto escrito para o Desafio de Escrita do Triptofano
Adorei o teu texto! É, ao mesmo tempo, uma lição de vida e de motivação!
ResponderEliminarO meu contributo para o desafio está aqui: https://greenideas.blogs.sapo.pt/esperanca-95225
Feliz dia sem medo de viver!
E representa, ao mesmo tempo, duas vozes ou sentimentos que vivem dentro de nós. O sabermos o que deveríamos fazer mas, ainda assim, não querer ou não ter coragem de fazer.
ResponderEliminarOlá Marta!
ResponderEliminarPosso dizer que li e reli o texto com muito atenção ....
Obrigada pelas palavras ......Gostei imenso....
Um beijinho.
Luisa Faria
magnífico
ResponderEliminarObrigada, Luísa!
ResponderEliminarPenso que todos nós sentimos um pouco estes receios ao longo da nossa vida. Estamos sempre tão bem na concha, e nunca se sabe o que iremos encontrar fora dela, que nem apetece arriscar.
Beijinhos
ResponderEliminarObrigada, Ana!
Pensamentos contraditórios que habitam muitas vezes o meu cérebro, e o dos humanos, em geral
Adorei o texto, uma interpretação fantástica da imagem! :)
ResponderEliminarE tenho de dizer que me revi nele : se ao menos a concha ainda produzisse uma pérola para uma pessoa a vender e ir de férias!
Agora fizeste-me lembrar o livro do John Steinbeck, por conta da pérola
ResponderEliminarTambém me revejo Tantas vezes que opto por ficar na concha... Mas, também, quantas vezes insistem para que nós saiamos, e depois são essas pessoas que vão lá para dentro, ocupar o lugar que deixámos vago.
De que serve uma vida sem riscos? Sem coragem? Sem garra? Sem luta? Sem atrevimento?
ResponderEliminarSere para nada.
Gostei.
verdade. e bom bom é isto, espreitar para fora da concha e.. de repente revermo-nos na expressividade uns dos outros como quem comunica sem saber bem como, ou porquê.
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