segunda-feira, 25 de março de 2024

E de repente, passei a ser "a outra"!

645e2a476dbb8edfe8735cec1d624279.jpg


 


Chega uma pessoa aos 45 anos, para isto!


Perguntava o meu pai, ao meu irmão, onde é que eu trabalhava.


Como ele está com alguma confusão, o meu irmão pergunta se se estava a referir à Inês (neta).


Responde o meu pai: "Não, a Inês trabalha nos computadores. Estou a falar da outra." 


E é isto. Nem Marta, nem filha. Passei a ser "a outra"!


 


Isto até seria engraçado, se não fosse mau.


Ele já fazia alguma confusão antes, mas desde que teve covid e foi internado, para além de ter voltado fisicamente fraco, veio ainda pior a nível mental.


Claro que tem os seus momentos de normalidade, conversa, sabe o que diz mas, depois, tem momentos em que não sei o que se passa na cabeça dele.


 


Depois, como sou a única que mora ali quase ao lado, sou eu (ou marido, ou filha) que vamos lá ver se ele come.


E não gosto desse papel porque parece que só vou lá para lhe "enfiar comida na boca".


Porque ele precisa mesmo de comer e, se não andarmos em cima, petisca mas não se alimenta em condições. Mas não quero ser a "fiscal" de serviço.


Antes tomava a medicação habitual para o coração e rins.


Agora, reclama sempre que lhe dou os medicamentos.


Tem momentos em que não percebo se ele acha que eu vivo com ele, porque se eu saio, pergunta-me onde vou ou, quando chego, o que andei a fazer.


 


Por isso, nós vamos rindo, vamos relativizando, mas custa ver a pessoa que ele foi, e como está a ficar.


Ainda tem aquela garra de se levantar da cama. De ir até ao quintal apanhar sol. De, por exemplo, querer fazer a barba.


Mas passa o tempo entre cozinha, quintal e cama. Muito mais tempo na cama. 


Desde que veio do hospital, nunca mais quis ver televisão.


Acredito que ele já nem saiba como ligá-la. Mas mesmo quando pergunto se quer que ligue, responde que não.


Tenho a ideia de que ele também já não sabe atender o telefone, nem ligar para ninguém.


O que também não ajuda. 


 


E é isto. Chega aos 82 anos, e acho que alterna ali entre a vontade de viver mais uns tempos (ou não tinha pedido para ir ao hospital), e o deixar-se levar pelo cansaço.


Entre os momentos lúcidos, em que acreditamos que está a melhorar e que, com tempo, vai voltar ao estado anterior, e os momentos em que parece que essas melhoras não se estão a verificar, e que é uma questão de tempo, até se deixar ir.


 


Mas isto sou eu, que sou pessimista...


 


 


 

11 comentários:

  1. Olá bom dia Martinha. Tens de ter muita calma e lamento por o teu pai estar assim. O meu pai tem 77 mas felizmente ainda está lúcido mas às vezes só fala no passado e das coisas más que chateia um bocado mas temos de ter paciência. O meu pai passa a vida a ver televisão especialmente notícias e pior ainda do correio da manhã.... é dose.....O que vale é que ele está na casinha dele com a minha mãe e eu estou na minha...

    ResponderEliminar
  2. Vamos manter a chama da espernça acesa!!!
    Boa semana!
    Beijinhos!!

    ResponderEliminar
  3. A dúvida é dolorosa, mas já faz parte da nossa vida.
    Beijinho

    ResponderEliminar
  4. Eu cheguei à conclusão que não sou boa a lidar nem com crianças nem com idosos

    ResponderEliminar
  5. Foi preciso falar, para o ver a arrebitar um pouco
    Mas é melhor não deitar foguetes...

    ResponderEliminar

  6. Acho que ter calma e manter-se positiva é o melhor.

    ResponderEliminar
  7. A minha avó acabou por ter que ir para um lar pq já não podia estar sozinha e qd deixou de andar e conseguir cuidar das necessidades básicas, começou a ser muito complicado termos condições para a ajudar. Felizmente, o lar onde ela está é a 5min aqui de casa e a minha mãe vai lá regularmente, trá-la para almoçar, leva-lhe uns miminhos e ela é lá muito bem tratada. No entanto, é sempre triste ver o quanto eles começam a definhar. Sabemos que é a lei da vida mas isso não o torna mais fácil de aceitar.

    ResponderEliminar
  8. Por aqui, felizmente, ainda vamos conseguindo evitar.
    Pensa-se nisso, em contratar alguém para lá ir a casa, para o ajudar porque o vemos debilitado e não conseguimos estar lá sempre. Mas ele consegue sempre dar a volta.
    Já vai fazendo as coisas sozinho, e já está bem melhor.
    A doença deitou-o abaixo mas, quase um mês depois, está a conseguir levantar-se e mostrar que não o vencem assim tão facilmente.

    ResponderEliminar
  9. Neste momento está bem melhor.
    Confesso que estava céptica.

    ResponderEliminar
  10. Não minha querida, não é pessimista e sim "realista" ... a vida é finita, e estamos todos na fila e de senha numérica na mão, resta-nos esperar que chamem o nosso nr.
    Sofremos muito mais, com degradação de quem amamos e "impotentes" que somos, do que os "protagonistas" em si.
    Muita Força e Coragem, porque um dia... ficarão as boas memórias nos nossos
    Afinal é isso o que mais importa, porque a "nossa" Vida vai continuar... caminhando !!
    Beijinhos de conforto.

    ResponderEliminar

A semana numa imagem

  Chuva, chuva, e mais chuva!