quinta-feira, 21 de março de 2019

Quando a velhice e a solidão andam de mãos dadas

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"Num hospital, após ter sido submetida a uma cirurgia e a recuperar, aparentemente, bem, uma paciente, ao ouvir os médicos dizerem que, a continuar assim, teria alta em breve, começou, subitamente, a queixar-se. 


Foram feitos novos exames, foram despistadas eventuais complicações, descartados novos problemas. Confrontada com a possibilidade de estar a inventar as queixas, para não sair do hospital, contou uma história sobre a filha, e como a sua determinação e ação contrária aos que os médicos diziam, tinha acabado por salvá-la, e permacer viva até hoje.


Mais tarde, quando investigada a sua história, por descargo de consciência, os médicos perceberam que não havia nada de errado a nível físico, mas apenas uma solidão enorme, por ter perdido a filha há muitos anos, e o marido mais recentemente."


 


 


Estar naquele hospital, poder conversar com os médicos, sentir-se acompanhada, e poder fantasiar sobre o que poderia ter sido a sua vida, tomando a fantasia como realidade, fez esta idosa preferir continuar lá internada, simulando sintomas e queixas, para não ter que voltar para a solidão e tristeza da sua vida, e da sua casa, onde nada nem ninguém a esperava.


 


 


Isto foi apenas uma cena de ficção, mas que representa bem a realidade de muitos dos idosos deste mundo.


Apesar de já existirem actividades, centros de convívio e outras alternativas para os atuais idosos, com o objectivo de os manter activos, integrados, úteis, ainda há muitos que vivem isolados, sós, abandonados.


 


 


Quem nunca se deparou com idosos que vão almoçar ao café ou restaurante da zona, para estar mais perto de outras pessoas?


 


Quem nunca teve de atender idosos ao telefone, que aproveitam para conversar ou desabafar sobre as suas vidas? Existem pessoas que ligam, muitas vezes, apenas para isso.


 


Quem nunca se deparou com idosos, no local de trabalho, na rua, ou em qualquer outro lado, que nos abordam para mostrar os seus papéis, facturas, receitas médicas, ou a pedir ajuda, e aproveitam aquele momento para afastar a lembrança das horas que, em seguida, irão passar sozinhos?


 


E nos cabeleireiros? Quantas pessoas não prolongam essas horas que ali estão, e vão falando das suas vidas, compartilhando aquilo que sentem com quem as atende, ou está presente no salão?


 


 


Existem locais onde as pessoas vão, muitas vezes, não para o objectivo principal a que se destinam, ou não apenas com essa intenção, mas sim para evitar a solidão, fazendo desses locais uma espécie de "sala de convívio".


Ainda assim, estes momentos em que a solidão parece ser atenuada, não chegam para colmatar aqueles em que anda de mão dadas com a velhice. 


 


 


 


 


 


 

4 comentários:

  1. Verdade Marta, tocaste num tema muito pertinente - a solidão dos idosos. cada vez mais assiste-se a este problema, idosos cada vez mais isolados da família, dos amigos e da sociedade, ou porque perderam a mobilidade, ou porque não têm com quem interagir, ou porque vivem em sítios isolados das cidades. Até mesmo os que estão nos lares sofrem com o abandono dos seus familiares mais próximos. Beijinhos e gostei muito do post.

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  2. É uma triste realidade, trabalhei na área da investigação e as pessoas mais idosas aproveitavam as entrevistas para darem dois dedos de conversa porque não tinham mais ninguém com quem falar. Acho que só aceitavam participar nos estudos para terem esse escape! É de ficar com o coração apertado.

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  3. Curiosamente, esta solidão começa a atingir outras faixas etárias, cada vez mais jovens. se antes verificávamos isto entre pessoas com 70/80 anos, e por aí fora, agora já começamos a ver pelos 50/60.
    Penso que será resultado do egoísmo, da independência, do desprendimento que caracteriza cada vez mais o ser humano no mundo e sociedade em que vivemos.

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  4. No fundo, todos nós acabamos por fazer um pouco de trabalho social com estas pessoas, mesmo quem não está directamente a exercer essa função.
    Aqui onde trabalho, funciono muito como ouvinte: pessoas que desabafam, que contam a sua vida, que choram...

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