
A manhã estava relativamente calma, para quem acabava de chegar, na sala dos "amarelos".
Algumas macas, algumas pessoas sentadas nas cadeiras, uma ou outra em cadeiras de rodas.
Utentes sozinhos. Outros, sobretudo os que estavam nas macas, acompanhados.
Os auxiliares mostravam-se prestativos, atenciosos.
Até o segurança ajudava.
Mas, à medida que as horas iam passando, o caos começava a instalar-se.
Eram chamados doentes, que sabiam que estavam a ser chamados, mas não tinham ninguém que os levasse, porque estavam nas macas.
Outros, nem sabiam, e ficavam por ali à espera que alguém se lembrasse deles.
Os auxiliares já pouco vinham cá fora tentar saber onde estavam os utentes chamados.
Tinham que ser os acompanhantes, ou os utentes que se podiam movimentar, a ajudar.
Cada vez havia mais pessoas. Cada vez o espaço ficava mais reduzido. Por cada maca que saía para o doente fazer exames ou ser visto, outras duas ocupavam o lugar.
Às tantas, já havia macas nos corredores, encostadas umas às outras, ou em qualquer buraquinho disponível, e até mesmo por baixo do ar condicionado, ou no meio das correntes de ar, como se não bastasse a doença que já tinham.
Sempre que passava outra, as que por ali estavam sujeitavam-se a levar um encontrão.
Havia doentes à espera de ser chamados para consulta há 24/ 48 horas. Alguns até se deitavam nas cadeiras. E outros que andavam por ali, entre exames e afins, há 2/3 dias, sem ir para casa, mas também sem saber se ficariam internados.
Havia pessoas cheias de dores, mas os auxiliares passavam por eles totalmente indiferentes.
Havia utentes a reclamar do tempo de espera, a desistir. Outros, já conformados, munidos de paciência, telemóveis carregados e algo com que se entreter.
E outros, já meio avariados do juízo, a passear pela sala e arredores descalços, com os sapatos na mão. A falar alto sobre doenças e mais doenças, como se alguém quisesse ouvir algo assim naquele momento.
Tudo leva tempo. Tudo demora horas. Tudo é saturante, desgastante.
Os médicos demoram a chamar, apesar de estar tudo a rebentar pelas costuras.
Há congestionamentos de macas, utentes e cadeiras na área de gabinetes e tratamentos.
Não há qualquer distância de segurança. Nem sempre há álcool gel. Não há qualquer controlo ao covid. É tudo ao molho, e fé em Deus.
Isto é o dia a dia da urgência de um qualquer hospital central e, quem a ele recorre com frequência, já sabe como é. Mas, para quem não está habituado, é triste.
Na terça-feira, tive que ir à urgência do Santa Maria com a minha mãe.
Já nem da cama se conseguia levantar.
Não foi considerada uma situação de emergência, pelo que tivemos que chamar os bombeiros para a levar. Foram impecáveis, e até permitiram que eu a acompanhasse.
Chegámos por volta das 09.30h.
Foi vista pela médica perto das 11h.
Uma consulta que mais parecia uma anedota!
A médica estava mais preocupada com quem fazia as compras para os meus pais, e o que comiam, do que com o estado de saúde da minha mãe.
"Ah e tal, se ela não come muito é porque não tem fome. Não come porque não quer. Também na idade dela não precisa de comer muito."
"Não sei se a sua mãe preenche os requisitos para internamento. Ela é uma mulher saudável. Está melhor que eu."
Mandou fazer análises e soro. Tinha que ser eu a andar lá com a maca de um lado para o outro. Nunca a deixei. E depois, quando o meu irmão chegou, íamos trocando para não ficar sozinha.
Duas horas depois, nova análise ao sangue. E esperar.
Depois, tentativa de análise à urina. Beber água, que ela não conseguia.
Teve que o meu irmão pedir mais soro, porque não tinham indicação para dar mais. Lá extraíram a urina por outros métodos.
Passava das 20h, quando a médica me chamou ao gabinete.
Queria fazer mais soro. E receitar antibiótico para infecção urinária. De resto, todas as análises estavam bem, portanto, não havia nada a fazer.
Então e não fazem outros exames?
Só se as análises apontassem para algo. Como está tudo bem, não fazemos mais nada.
Nisto, houve mudança de turno. Passagem de serviço. E nós ali à espera.
A nova médica entendeu que devia fazer mais soro.
Mais tempo de espera.
Chamaram-na depois das 22h. Para lhe dar alta. Não havia nada que pudessem fazer. Não era caso de internamento. E qualquer outra coisa não seria em urgência.
Soro em casa, é com o médico de família.
Sonda gástrica, é com o médico de família.
Outros exames, é com o médico de família.
Falei da dificuldade em deglutir. Não fazem consulta de otorrino em urgência, por isso, apenas podia referenciar para marcação de consulta.
Tive que pedir as análises feitas, porque dizem que não é hábito dar.
Saímos do hospital às 23h, com ela pior ainda do que tinha ido e, quando chegámos a casa e a deitámos na cama, só pensei. Não passa desta noite.
Mandaram-na para casa para morrer.
Ontem, já sem grande esperança, fomos ao Centro de Saúde.
Impecáveis.
Foi logo lá uma enfermeira pôr soro. Tivemos a aprender como se aplica.
À hora de almoço, foi a médica avaliá-la, e colocar a sonda gástrica. Tivemos a ver como se alimenta através da mesma.
Disse que calhámos com uma má equipa. Que não tivemos sorte. Que deveriam ter feito outros exames. Que deveriam ter passado um relatório de alta hospitalar.
Queria que fossemos novamente à urgência, desta vez a outro hospital. Para ver se fazia o que o primeiro não fez. Recusámos. Nenhum de nós, principalmente a minha mãe, aguentava mais um dia inteiro num ambiente desses.
Lá passou uns exames para fazer cá fora. Para ver se se descobre a causa, para pensar no melhor tratamento. Que já estão marcados. E com sorte teremos transporte de doentes para a levar e trazer, porque ela está acamada.
Já fomos buscar uma cama articulada e um colchão antiescaras, emprestado pela Protecção Civil. Só falta montar, e transferi-la para lá. O que vai ser muito complicado.
Neste momento, falta-nos o apoio domiciliário, sobretudo para cuidados de higiene.
As listas de espera são grandes. E quando não é esse o caso, são os custos elevados que pedem.
Tínhamos uma instituição que poderia começar hoje. Abriam uma excepção, dada a urgência. Mas pediam 300 euros por mês. É a reforma da minha mãe! Tivémos que rejeitar. Agora é esperar por outras alternativas, mais baratas.
Até lá, temos que ser nós a mudar as fraldas, e tentar limpá-la minimamente, correndo o risco de o fazermos mal, de lhe partir alguma coisa, tal a fragilidade.
E não é fácil perceber o que diz. Ontem tive mesmo que pedir que escrevesse num papel, para poder ajudá-la.
Está tão fraca e debilitada, que o mínimo esforço lhe esgota as forças. Tem que ser tudo feito com tempo, calma e cuidado.
Mas para as duas médicas que a viram no hospital, estava de perfeita saúde!
Isto é só mesmo para rir, para não chorar com tamanha incompetência. Ou melhor, a facilidade com que descartam as pessoas e as responsabilidades para outros.
Já de um ou dois auxiliares e enfermeiros, e do segurança que por lá andava a ajudar, não tenho qualquer razão de queixa. Foram a única coisa positiva.
Tem sido uma semana para esquecer.
Mas, ainda assim, apesar de tudo, está tudo a correr melhor do que prevíamos.
E está em casa, como sempre quis.
Muita calma com ela. Alguma coisa terá, senão não precisava de apoio para tudo.
ResponderEliminarAté a enfermeira percebeu isso, e achava que ela ia ficar internada.
ResponderEliminarSó mesmo aquelas médicas para pensarem o contrário, e até nos aconselhar a não voltar à urgência.
Marta, que tenhas força para enfrentar estas andanças e o que vier a acontecer. Um bejinho.
ResponderEliminarObrigada, Gabriela
ResponderEliminarTemos mesmo que ter força, para apoiá-la e ajudá-la como pudermos.
Beijinhos
Oh Marta, lamento imenso. Se as coisas já eram complicadas antes do covid, agora ainda é pior. As melhoras da tua mãe. Bjs
ResponderEliminarObrigada, Sofia
ResponderEliminarEsta noite foi outra vez para o hospital. O bombeiro disse que poderia ter líquido nos pulmões devido à sonda ter saído e iria lá para ser aspirada e voltava. Mas como os níveis de oxigénio estavam baixos, foi para a zona Covid, ainda só lhe fizeram o teste e vai passar lá a noite sozinha, porque nem deixam entrar ninguém.
Força e coragem! Estas fases não são fáceis…
ResponderEliminarBeijinhos
Sou um técnico de saúde que trabalha numa Urgência Geral (não essa que refere) e não podia deixar de comentar este post. Sou totalmente compreensível com a situação frágil da sua mãe e sou o primeiro a reconhecer as falhas e a incompetência que grassa em muitos hospitais. Mas não existe incompetência em todo o lado? É que só se vê gente a criticar-nos a nós. Nós, profissionais de saude, que trabalhamos em hospitais subdimensionados, subapetrechados, completamente fora de capacidade para a população que servem. Nós, profissionais de saúde, que vemos, ouvimos e lidamos com coisas que ninguém tem noção. Nós, profissionais de saúde, que com uma pandemia não nos escondemos e damos o corpo às balas. Portanto, a pergunta que coloco é quando é que começamos a criticar governantes, decisores políticos e etc perante as falhas enormes (que você reconhece e bem) que os hospitais apresentam? Em vez de criticar pessoas que por vezes trabalham perto de 200h por mês para ganhar 700e, enquanto lidam com pessoas que vomitam para cima de nós e doentes que nos tentam agredir.
ResponderEliminarMais uma vez, não pretendo criticar, sei bem as situações péssimas que se vivem todos os dias no hospital e quando nos toca a nós ou a famíliares é de facto péssimo e traumatizante. Mas é preciso começar a responsabilizar quem de direito e não quem não tem culpa de um sistema em colapso por incompetência grosseira de políticos. Cumprimentos e votos de melhoras para a sua mãe :)
Vi o teu comentário na feice, mas agora percebo.
ResponderEliminarOs hospitais, especialmente os públicos, estão a rebentar. Falta de médicos e acima de tudo falta de organização.
Tenho sorte de pider ir para um privado. Mas mesmo aqui por vezes é um sarilho.
Só posso desejar as melhoras e coragem!
Nunca pensei conhecer tanto de Sta. Maria.
ResponderEliminarAs vezes que estive nas urgências, tanto com o meu pai, com com a minha mãe, como quando lá estive eu uma noite inteira, correu bem e foram impecáveis. Mas não estava tão movimentado.
Tudo a correr o melhor possivel.
Beijinho
Está realmente um caos. Sei o que passou e de vez em quando tenho de levar a minha mãe às urgências, outras recusa-se a ir. Muita força, muita calma e as melhoras da sua mãe.
ResponderEliminarMM
quando comecei a ler, pensei com os meus botoes, mais um caso excepçao, ainda bem que tudo corria bem e que todos colaboravam.
ResponderEliminarMas depois, segue-se a realidade, horrivel ( eu sei, tambem já passei por isso ), e vce está tao lucida que percebe que nao aconteceu só ali, mas que acontece nos mais hospitais grandes.
Quem me dera conseguir escrever com esse detalhe. E doi-me que mais este testemunho, seja só isso mesmo, perdido no mar de testemunhos.
Uma das coisas que presenciei, e que continua, pois voce o garante, é o abandono dos doentes. Apesar de inadmissivel, para alem de desumano, mesmo pior, os doentes, p.e. acamados , nao estao em condiçoes seque de ouvir serem chamados, quanto mais de se movimentar.
Má hora em que li este post
Choro por todas as proximas vitimas.
Marta, lamento o que aconteceu e acontece com muitos utentes, infelizmente.
ResponderEliminarApesar de estarmos todos as sofrer o problema deste víru8s e doença Covid, e não criticando nem sacudindo toda a má organização para quem trabalha nas urgências, a verdade é que há anos que se vê isto.
Fizeste-me lembrar o meu pai que, quando tinha de ir à urgência, e as vezes que fui com ele, eram horas de espera, eram as macas que se acumulavam nos corredores, eram os médicos que atrasavam as consultas, sei lá bem porquê.
Em todos os hospitais, há os que se preocupam, os que deixam a coisa andar, independentemente de o doente estar mal ou menos mal.
Óbvio que agora estamos pior, mas estou de acordo com o anónimo: todos nós criticamos os profissionais de saúde, mas é o estado que tem de ouvir isto.
Lembro-me de, uns dias antes de a minha irmã mais velha falecer, foi à urgência, e muito consciente que estava da sua gravidade, ouvi o comentário de um médico dizer para alguém, que ela estava no fim, não havia nada a fazer.
Foi contado por ela.
O que ouviu levou-a mais depressa.
Desejo, de coração, que, e apesar das vossas limitações, a vossa mãe seja tratada com todo o carinho.
Eu também trabalho em ambiente hospitalar há 20 anos, sei claramente as falhsas que fala e as condições adversas com que trabalhamos. Mas existe uma grande diferença, quando estamos a falar de negligência médica. Infelizmente, para a mãe da Marta foi tarde demais...
ResponderEliminarÉ um relato constrangedor.
ResponderEliminarTenho uma pena imensa de quem adoece neste período de "pandemia".
As melhoras de sua Mãe.
PS: Ela tem dois filhos adoráveis.
Nem todo os doentes têm esta rara sorte.
Obrigada
ResponderEliminarInfelizmente, deixou-nos no passado sábado.
Obrigada!
ResponderEliminarAcabaram por não durar muito, infelizmente.
Beijinhos
Concordo consigo.
ResponderEliminarO sistema nacional de saúde e as urgências hospitalares não funcionam nas melhores condições, muito por culpa dos governos que consideram a saúde um desperdício de dinheiro.
E os enfermeiros, auxiliares, médicos, fazem o que podem, com o pouco que têm.
Ainda mais nesta fase complicada em que estão esgotados por conta da pandemia. E ninguém põe isso em causa.
Mas, seja como for, estão de serviço. E têm que fazer o seu trabalho. E, nesse sentido, consegue-se perceber quem, apesar de tudo, faz o seu melhor e quem, estando-se nas tintas, só está à espera que o dia acabe, para se ir embora.
Neste dia, duas médicas mandaram a minha mãe para casa sem fazer qualquer exame, porque estava saudável.
Dois dias depois, teve que voltar à urgência onde, já na área de covid, apesar de não o ter, foi-lhe feito tudo o que havia para fazer.
O hospital era o mesmo. As condições eram as mesmas. Mas desta vez, a médica importou-se.
Infelizmente, a minha mãe faleceu no sábado.
Sim, por vezes privado não significa melhor atendimento.
ResponderEliminarEu bem vi pela consulta a que fomos com ela na CUF.
Eu andei lá quando a minha filha entalou um dedo e teve que ser cosido. Mas era pediatria, não tive razão de queixa.
ResponderEliminarDe outra vez, fomos eu e o meu marido também para as urgências, em macas, com colar cervical. Teve que ser o pai dele a andar connosco para fazer os exames, senão também ficávamos ali abandonados.
Era por isso que ela se recusava a ir ao hospital. Vem-se de lá pior do que se foi.
ResponderEliminarObrigada, Marina.
Infelizmente, já partiu.
Havia um filho que foi lá, e ninguém lhe sabia dizer onde estava a mãe.
ResponderEliminarÉ triste.
Mas é o que vai continuar a acontecer.
Aí é que está, Maria: apesar de todas as dificuldades, circunstâncias, condições, há médicos que se preocupam, e outros que não. Há médicos sinceros, e outros que atiram areia para os olhos. Há médicos que não abdicam de gastar os poucos recursos, ainda que a pessoa esteja à beira da morte, e outros que consideram que é um desperdício.
ResponderEliminarOs meus sentimentos. Um grande beijinho. Muita força.
ResponderEliminarObrigada!
ResponderEliminarBeijinhos