sexta-feira, 11 de março de 2022

Da guerra...

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A guerra…


Procurei, calmamente, escapar dela.


Eu.


A minha família.


Os meus amigos.


E todos aqueles que aqui estavam, tranquilamente, a viver a sua vida.


 


Não a antevi. Não a percebi.


Para falar a verdade, nem sequer a concebi. Não a imaginei.


E, no entanto, parece que ela estava implícita.


Nas entrelinhas que não vi.


Nas letras pequeninas que ignorei.


 


Falava-se disso, é certo.


Mas acontecer mesmo, não acreditava.


Não queria acreditar.


Até ao dia em que aconteceu.


E percebi que era real.


 


A guerra…


Procurei, racionalmente, contorná-la.


Tentei esconder-me. Mas não o consegui fazer.


Arrisquei enfrentá-la. Afinal, sou forte.


Mas ela fintou-me.


E avisou-me do que me esperava, se continuasse.


 


A guerra…


Procurei, seguramente, afastar-me dela.


Deixando tudo para trás.


Anos de vida. De lutas. De conquistas.


Tudo o que tinha construído. Alcançado.


Não havia tempo.


 


A guerra…


Procurei, apressadamente, salvar-me. E aos meus.


Com o receio, a angústia, e a tristeza a inundar-me.


Com a sensação de perda. De fracasso. De luto.


De lágrimas nos olhos. O coração, nas mãos, apertado.


E uma dor no peito, impossível de descrever.


 


A guerra…


Porque é que, simplesmente, não nos deixam?


Porque é que, simplesmente, não nos respeitam?


Porquê, nós?


Sempre os mesmos.


Os que ficam. Os que partem. Os que já nada podem fazer.


 


A guerra…


Procurei, desesperadamente, fugir dela.


Mas, por mais que fuja, ela persegue-me.


Nenhum lugar é seguro.


Mesmo que assim o creia.


Sinto que não passa de uma ilusão.


 


Mesmo quando me dizem que está tudo bem.


Que estou em segurança, e já não corro perigo.


Sinto que, a qualquer momento, uma bomba pode rebentar.


Um míssil pode cair.


A morte me pode levar.


 


A guerra…


Procuro ter fé. Ter esperança.


Acreditar que o pior já passou.


Que já não corremos perigo.


Mas não passou.


Porque os traumas ficam para sempre.


 


Os traumas.


As marcas.


O medo.


A destruição à nossa volta.


O que se perdeu, e já não se recupera.


 


Perde-se a liberdade.


Perde-se a inocência das crianças.


Perde-se a alegria.


Perde-se a segurança.


Perde-se um povo.


 


A guerra…


Procuro, deste lado, acreditar que vai acabar.


Com um sentimento de gratidão.


Por ter tido a oportunidade de sobreviver.


Ou, quem sabe, desolação.


Por ter perdido os meus, pelo caminho.


 


Do outro lado, os que ficaram de livre vontade.


Para defender a nossa terra.


Ou foram obrigados a ficar.


Para lutar nesta guerra.


Com as armas que têm, e que não têm.


 


A guerra...


Espero, um dia, regressar.


À minha terra. Ao meu país. 


Ter tempo para recomeçar a vida, que ficou suspensa.


Até lá, resta rezar para que mais nenhum inocente sofra.


Nesta guerra que nunca quisémos. E nunca pedimos...

8 comentários:

  1. Penso que vais merecer um destaque da equipa sapo com este post! Muito bom, fiquei emocionada!

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  2. Gostei muito, Marta!
    E oxalá esta guerra termine o quanto antes!

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  3. Gostei imenso Marta.
    Quando tempo ainda irá durar?
    Um bom fim de semana.

    Luísa Faria.

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  4. A geração mais nova nunca viu nem sentiu a guerra de perto. Foi no Afeganistão, no Iraque e na África perdida nas notícias. Esta é bem perto, bem real.

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  5. Verdade.
    Do Iraque, lembro-me de ouvir e ver na televisão, mas era lá longe.
    Mesmo esta, apesar de mais próxima, relativamente a nós, ainda está lá.
    E nós, para já, aqui, em paz.
    Mas nem sequer podemos imaginar o que é estar debaixo de fogo, sem saber quantos mais minutos se vai viver, ficar sem nada, ter que abandonar a sua terra sem saber o que espera do outro lado, ou ficar, e resistir contra os loucos que lhes estão a destruir a vida.

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  6. Obrigada, Maria
    Uma guerra deixa sempre as suas cicatrizes naqueles que têm a sorte de escapar dela com vida.
    Mas, antes disso, passa-se de apreensão e relativa calma, ao medo e desespero, numa luta contra o tempo, e contra a morte.

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  7. Obrigada, Ana!
    Tenho dúvidas de que termine tão cedo.
    Mas esperemos que sim, para o bem de todos.

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  8. Obrigada, Luísa
    Quem sabe quanto tempo ainda irá durar esta guerra, e as consequências que trará para todos os directa e indirectamente envolvidos.
    É ter esperança.
    Beijinhos e uma boa semana!

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