quinta-feira, 31 de março de 2022

Desafio de Escrita do Triptofano #10

thumbnail_20220331_080805.jpg


 


No reino de Natura, havia um menino a quem chamavam o "adivinhador de sonhos", porque ele costumava, através das suas bolhas de sabão, imaginar os sonhos daqueles que o rodeavam, ainda que, raramente, acertasse em algum.


Mas ele não desistia e, por onde passasse, levava sempre consigo o que precisava, e distribuía bolhas coloridas pelo ar.


 


Um dia, ao passar por umas flores, ouviu a conversa entre estas, em que uma dizia às outras "Ah, como eu queria...", e logo o menino interrompeu, afirmando:


- Espera, não digas! Vou tentar adivinhar! 


 


E, ao formar a primeira bolha, disse:


- ... como tu querias ser uma Sakurasou (que simboliza “desejo” e “amor duradouro”), e ser apreciada num dos mais belos jardins japoneses!


 


Algumas flores riram-se de tal ideia, e disseram-lhe que tinha que apurar mais o seu poder.


O menino tentou de novo.


- ... como tu querias ser uma flor exótica, como a Alamanda, e estar agora na imensa floresta amazónica!


 


Perante a expressão que as plantas fizeram, percebeu que tinha errado de novo.


E, de novo, fez mais uma bolha.


- ... como tu querias ser um Saguaro e habitar no Deserto de Sonora.


 


- Oh rapaz, estás muito longe de acertar. Deixa-te disso.


- É desta, responde ele! - fazendo surgir uma bolha ainda maior no ar


... como tu querias ser uma King Protea, exuberante, de cores vivas, e deslumbrares os visitantes do jardim botânico Kirstenbosch da Cidade do Cabo!


 


E logo fazendo mais uma bolha, antes que lhe dissessem que continuava a errar:


- ou ser uma daquelas belíssimas tulipas num dos campos da Holanda!


 


Expectante, olhando para a flor, na esperança de, finalmente, ter acertado, compreendeu que a tarefa era mais difícil do que tinha imaginado.


A flor, com pena do menino, que tanto se esforçou, explicou-lhe então:


- Sabes, esse é o grande problema de vocês, humanos.


- Pensam sempre em coisas grandiosas, vistosas, famosas.


- Querem sempre viajar para ali, para acolá, achando que aqui nunca encontrarão nada que vos agrade.


- Eu sou o que sou, e como sou. Não quero ser outra. Gosto de mim assim. E gosto de estar aqui. 


- Quem me conhece, e está comigo, também me aceita como sou.


- O que eu estava a dizer, quando me interrompeste, era como eu queria que vocês, humanos, dessem mais valor àquilo que está mesmo à vossa frente, por mais insignificante que vos possa parecer.


- À simplicidade.


- Que percebessem que também podem ser felizes, sonhar e viajar, conhecendo o lugar onde estão, antes de ir para outros.


 


O menino, muito admirado com o discurso da flor, acabou por admitir que ela tinha uma certa razão.


- Já sei! - disse o menino


- Vou fazer mais umas bolhas. E nelas, vou "enviar" tudo o que de bom temos aqui no reino. 


- Assim, as pessoas que as virem no ar, ficam a conhecê-lo. Quem sabe não nos transformamos num destino turístico como os que há por esse mundo fora!


 


Pensa a flor, para com as suas folhas:


- Santo deus! Não percebeu nada!


 


 


Texto escrito para o Desafio de Escrita do Triptofano


 


Também participam:


Maria Araújo


Bruno


Triptofano


Maria


Bii Yue


Ana D.


 


 


 


 


 


 


 

7 comentários:

  1. Boa tarde Marta!!
    É sempre um prazer e privilégio ler a tua escrita.
    Adorei. Os humanos nunca mais aprendem, que menos por vezes é mais.
    Beijinho.
    Luísa Faria.

    ResponderEliminar
  2. É mesmo!
    Querem sempre tudo em grande, e acabam por não apreciar nem dar valor ao que mais importa.
    Beijinhos e uma boa semana!

    ResponderEliminar
  3. Infelizmente, há muita gente que, por mais que se explique, não percebe o que se está a dizer.

    ResponderEliminar

A semana numa imagem

  Chuva, chuva, e mais chuva!