sexta-feira, 29 de abril de 2022

"Agora É Mesmo Demais Para Mim", na Netflix

É Mesmo Demais Para Mim | Site oficial da Netflix


 


Não poderia falar deste filme sem mencionar os anteriores: "Demais Para Mim" e "É Mesmo Demais Para Mim".


E sem falar na personagem principal - Marta - uma órfã que tem uma rara doença genética - fibrose cística ou mucoviscidose.


Apesar da sua condição, ela é uma pessoa extremamente positiva, e bem disposta, que não se deixa afectar pela doença, e que quer viver a vida ao máximo.


 


No primeiro filme, Marta vai tentar conquistar o rapaz que todas as mulheres desejam e que, provavelmente, nunca olharia para ela.


Nada de novo.


Mais um daqueles filmes com a típica história da mulher invisível e do homem que se apaixona, precisamente, por ela. Com a diferença que ela quer viver esse grande amor, antes de não ter mais tempo para tal.


 


No segundo filme, percebemos que as coisas com Arturo nao resultaram, e Marta namora agora com Gabriele, um artista que, para complicar o romance, vai trabalhar para Paris, aumentando as inseguranças e ciúmes em relação a Marta, que podem pôr em causa a relação. Também nada de novo.


Sendo um filme, até mais de meio, aborrecido e secante, foi mesmo mais para o fim que veio aquilo que vale a pena destacar:


A amizade genuína e tão difícil de encontrar nos dias que correm, entre Marta, Federica e Jacopo, desde a infância, até à actualidade. A forma como pessoas tão diferentes se complementam, e se dão tão bem. A forma como cuidam e protegem a Marta, sem o parecer, e sem a sufocar. A forma como estão sempre lá, uns para os outros, nos bons e nos maus momentos. A forma como discordam mas, ainda assim, se apoiam mutuamente.


E o momento em que Marta deixa cair a máscara e diz, pela primeira vez, tudo o que sente, os medos que tem, a revolta com a doença e com aquilo que tem sido a sua vida, e mostra toda a sua vulnerabilidade, fragilidade, tristeza e receio, por detrás da pessoa mais animada e divertida, que se forçou a ser, para lidar, ou esquecer, a doença e a sua gravidade.


 


Porque não temos que ser sempre fortes.


Que mostrar aos outros que está tudo bem, quando nada está bem. Sobretudo, àqueles que estão connosco e que sabemos que, mesmo que nos deixemos cair, estarão lá para minimizar ou impedir as mazelas.


 


Chegados ao último filme da trilogia, voltamos a uma história que não cativa, nem acrescenta nada de novo, à excepção, lá está, dos minutos finais, em que podemos perceber até que ponto a avó de Marta conseguirá, ou não, sair do seu pedestal e procurar a neta, e em que compreendemos que, desta vez, e após uma nova infecção grave, poderá ser mesmo demais para Marta.


 


Será o fim?


Terá Marta esgotado todas as suas forças, toda a sua alegria e vontade de viver, toda a sua força e optimismo, perante o inevitável?


O que lhe estará reservado?


 


Na minha opinião, o segundo filme é o melhor dos 3, ainda que nenhum deles encha as medidas. 


 


 


 

Quando recebemos apoios inesperados!

Euro DE Desenho Animado Ilustração


 


A propósito dos apoios dados pelo governo para ajudar nesta fase de aumento generalizado dos preços, nomeadamente, do gás, tinha pesquisado, no início do mês, se teria direito aos mesmos.


 


A verdade é que, no Portal das Finanças, surge a informação de que não se verifica, no meu caso, insuficiência económica. No entanto, eu estou a beneficiar de desconto de tarifa social na electricidade. Não sei como, mas estou.


E esse era o requisito necessário para o direito aos apoios.


Mas como no site da Segurança Social também não mencionava qualquer pagamento, mentalizei-me de que não era para mim.


 


Hoje, para minha surpresa, tinha o dinheiro na conta!


Então, já que tive direito, fui experimentar o do gás.


Peguei na factura do gás (garrafa), na da EDP, e fui aos CTT perguntar como se processava.


Deram-me uma folha de consentimentos para preencher e assinar. Tiraram cópia da factura do gás. A da EDP não foi necessára. E verificaram os dados pelo Cartão de Cidadão.


Ainda demorou uns 5 minutos, mas tive direito aos 10 euros.


 


Agora, já sei que no mês de Maio, e em Junho, basta repetir este procedimento, e obter o apoio.


Não é muito, mas ajuda.


 


E por aí, alguém beneficia destes apoios?


Sabiam da sua existência?


 

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Uma ida ao hospital...

Consulta médica | Luiz Carlos Marques Cardoso


 


Ontem foi dia de consulta de Nefrologia do meu pai.


Chegados ao hospital, perguntámos a um vigilante onde ficava essa especialidade. Calculei que fosse no mesmo bloco dos internamentos, mas queríamos confirmar. Com maus modos, mandou-nos para a recepção central. Mais à frente, perguntámos a um outro vigilante, mais simpático, que nos disse que estávamos no lado oposto, e que teríamos que dar a volta a todo o hospital.


Não havia volta a dar, só entradas para estacionamento, pelo que voltámos ao mesmo sítio, e ao mesmo vigilante, que então disse ao meu marido para ficar na fila para estacionamento.


Eu e o meu pai saímos, e fomos perguntar a um terceiro vigilante, que nos confirmou que era na recepção central. 


Ou seja, andámos ali às voltas sem necessidade.


 


Chegados ao sítio certo, requisitar cadeira de rodas, para evitar que o meu pai tivesse que andar todo aquele percurso.


Na zona das consultas, tirar senha para confirmação.


E aqui tenho que enaltecer a única coisa boa desta ida ao hospital: uma vigilante que, sem necessidade nenhuma, nos disse para tirarmos uma senha prioritária, para ser mais rápido, e nos disse que podíamos (quem não estivesse a confirmar a consulta) entrar para o corredor, onde estava mais calmo, em vez de ali, junto com dezenas de pessoas.


Confirmada a consulta, algum tempo depois da hora, restava esperar pela chamada.


O meu marido aproveitou para almoçar. Eu estava sem fome. Com uma dor de cabeça horrível e constipada. Até parecia mais doente que o meu pai. A máscara também não ajudava.


 


Fomos então chamados. 


Entrei com o meu pai.


O médico fez umas perguntas básicas, tipo consulta de enfermagem, tirou notas do processo clínico de internamento, e mandou-nos à nossa vida!


Pronto, não foi bem assim.


Apenas nos disse que sem análises ou outros exames, não poderia fazer qualquer alteração à medicação, por isso, mantinha-se tudo como estava.


E como também não tínhamos qualquer noção do peso, valores da tensão arterial ou frequência cardíada, também não podia fazer muito.


É caso para dizer "em casa de ferreiro, espeto de pau". 


Então, um hospital não tem uma balança? Não tem um aparelho que meça esses valores?


Ah e tal, ou medem na farmácia, ou compram os aparelhos e fazem-no em casa.


 


O meu pai começou a queixar-se de uma dor.


O médico nem deu hipótese. "Aqui só vamos falar dos rins, o resto não é para aqui."


Disse que o meu pai está muito, demasiado magro - caquexia.


Explicámos que come bem mas, como agora tem tido episódios frequentes de diarreia, acaba por não adiantar muito.


Ah e tal, isso deve ser problema de intestinos, tem que ser com a médica de família.


Voltámos à dor, por insistência minha, uma vez que era mais ou menos na zona dos rins, ainda que possa ser outra coisa.


Ah e tal, isso deve ser líquido nos pulmões, tem que ir a uma urgência e fazer um RX.


 


Mas voltando, então, à única coisa que interessava ao médico - os rins.


Ficámos a saber que o meu pai está no estádio 4, de 5. E que a ideia é manter por ali, porque se passar para o último, é sinal que os rins deixaram de funcionar, e terá que se sujeitar a hemodiálise, ou diálise peritoneal.


No entanto, tudo está dependente da parte cardíaca. 


Ficámos a saber que não pode fazer nada com contraste pela veia. E que, em caso de toma de antibióticos, tem sempre que referir que é insuficiente renal, para ajustar a medicação.


E confirmámos que não pode tomar anti-inflamatórios para as dores. Só pomadas, ou gel.


 


Fora isso, já percebemos que a ideia é andar lá constantemente, seja nesta vigilância, seja a fazer análises e exames.


Ah e tal, tudo o que é passado aqui, é para fazer aqui.


Mas vejam se a médica de família passa credenciais para fazerem na vossa zona. Se não querem estar a vir cá...


Pois, não queremos!


É dispendioso, incómodo, massacrante. Não moramos em Lisboa. 


Já basta ter que ir às consultas.


 


Saímos do hospital. 


Fui comendo pelo caminho.


Passámos pela urgência de Mafra. O médico ainda perguntou se não queríamos ir à urgência do Santa Maria! Estão a ver a piada?! Só se fosse para passar lá dois dias.


Mesmo assim, aqui em Mafra, no Centro de Saúde, às 17 horas, já não havia consulta de doença aguda. Fomos à urgência, umas 15 pessoas à frente. 


Desistimos.


 


Hoje, enviei email para o Centro de Saúde, a solicitar uma consulta ao domicílio, e coloquei a questão dos exames/ análises.


Estou à espera de resposta...


E é isto: se dúvidas houvesse de que uma pessoa doente fica ainda mais doente com tudo isto, estão, definitivamente, esclarecidas.


E a vontade de voltar a ir a um hospital é quase nenhuma.


 


 

terça-feira, 26 de abril de 2022

Bruna Gomes: mal acabou de sair, e já voltou a entrar!



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Sobre a decisão da Bruna Gomes, de participar no BB - Desafio Final, muito se tem dito, especulado, opinado, criticado e condenado.

 



Acredito que um programa como este é muito desgastante a nível físico e emocional. Também acredito que, indo a pessoa mentalizada para um determinado período em jogo, quando se aproxima do final, a pessoa sente um misto de querer sair e recuperar, estar com os seus, matar saudades, e a tristeza de nunca mais voltar ali àquela casa, de ser o fim.

 



Ainda assim, se fosse eu, estando mentalizada para, no máximo, 2 meses, e depois de ter vivido tantas emoções, saber que ainda teria mais 5 semanas pela frente, estando já a acusar cansaço, dificilmente aceitaria voltar.



Por outro lado, a Bruna tem a vantagem de já estar com o andamento do jogo. Pareceu-me estar ainda com a adrenalina toda e, como tal, poderá ter pensado que mais 5 semanas passam num instante.

 



Talvez ela tenha querido prolongar a experiência, por ter gostado até ali e querer saborear mais um pouco.



Talvez ela tenha querido, numa perspectiva que conquistar os seguidores portugueses, ter mais este tempo de visibilidade e dar-se a conhecer ainda mais. E desta vez, sem romance.



Não sabemos se o contrato dela já previa esta participação.

Se, a nível financeiro, lhe dará jeito mais estas semanas a receber.

Não sabemos de que forma a Cristina Ferreira e a produção poderão ter convencido ela a tomar essa decisão, já que ela era uma das concorrentes mais querida e era boa para as audiências.

 



E, apesar de a Bruna ter dito que tinha que ir buscar o primeiro lugar (e é natural que ela queira ganhar), acredito que aquilo foi dito em tom de brincadeira.



Mas foi o suficiente para a apelidarem de ambiciosa, de dizerem que foi com muita sede ao pote. Mas... Não foram todos?! Não estão lá todos, depois de já terem participado, a tentar levar o prémio? A tentar conquistar a vitória que lhes escapou?



As únicas pessoas que nem deveriam estar ali, foram as que já venceram uma vez.



Se olharmos para trás, a Joana Albuquerque tinha acabado de sair de um BB, quando entrou logo a seguir naquele que venceu.



Mas a visibilidade, o recordar que estão cá, que querem ter oportunidades, o valor pago à semana são, na minha opinião, os principais motivos.

 



Independentemente do motivo que tenha levado a Bruna a participar no Desafio Final, se foi uma decisão acertada ou não, é outra questão.



A Bruna vem de uma casa mais pacífica, em que era muito querida e protegida por muitos. Ainda assim, teve aquela crise de ansiedade, por conta do jantar em que a Sara a confrontou.



Agora, está numa casa com pessoas totalmente diferentes, com competidores, e este desafio vai pô-la ainda mais à prova. Não sei se a nível psicológico, lhe fará bem.



Pensei que seria difícil adaptar-se aos novos colegas mas, até agora, surpreendeu-me pela positiva. E a Ana Barbosa já a colocou debaixo da sua asa. Estou a gostar de ver as duas.

 



Se ela tem hipótese de ganhar? Não acredito. Não ganhou o anterior, e agora tem mais gente contra ela, e adversários mais fortes.

Considero até que, a não ser que lhe tenha sido prometido o prémio ou, pelo menos, a presença na final, nem ao pódio subirá, desta vez.

 



Relativamente ao Bernardo, não acho que ela devesse ter negado a entrada, apenas porque namora com ele. O que considero é que poderia, embora o tenha feito disfarçadamente (coincidência ou preparação), ter avisado antecipadamente o Bernardo, de que iria entrar. Uma conversa franca. Afinal, a produção permite tanta coisa que não deveria, porquê esta necessidade de sigilo dela para com ele?

 



Ainda assim, quero destacar a atitude do Bernardo!



Apesar de tudo o que ele pudesse estar a sentir, em nenhum momento ele deixou de a defender e apoiar, mesmo não concordando.



Agora, e como mulher decidida e independente que é, ou se quer mostrar, só tem que assumir a sua decisão, e o que ela lhe trouxer, de bom, ou menos bom.

 

 

Imagem: Maria

 

sexta-feira, 22 de abril de 2022

"Coração Marcado", na Netflix

Pôster Coração Marcado - Pôster 1 no 2 - AdoroCinema


 


Num dia, uma mulher vence a maratona, e celebra com os filhos e o marido.


Nesse mesmo dia, uma outra mulher está prestes a casar, quando é levada para o hospital, com um problema cardíaco.


Numa noite, uma mulher é atacada para lhe retirarem o coração.


Nessa mesma noite, uma outra mulher, cuja vida depende de um transplante urgente, recebe o coração que precisa.


 


Um homem tenta, a todo o custo, salvar a mulher que ama, mesmo que da pior forma possível.


Enquanto isso, outro homem perde a mulher que ama, e vai fazer de tudo para descobrir quem a matou, e vingar-se.


 


Vale tudo, por amor?


Poder-se-á recriminar Zacarias, por ter feito o que fez, para salvar Camila?


Será que esse acto desesperado foi mesmo um gesto de amor?


 


Poder-se-á recriminar Simón, por não compreender por que razão, para salvar uma desconhecida, teve que perder a sua própria mulher?


Será que a vida de uma, justifica a morte da outra?


 


E como se sentirá Camila, quando souber a origem do seu coração?


A atrocidade que foi cometida, para o conseguir?


Conseguirá ela lidar com a verdade? 


Deverá ela sentir-se grata? Sortuda? Revoltada? Culpada?


 


Como se tudo isto não bastasse, Zacarias arrisca-se mesmo, depois de tudo o que fez, a perder Camila que, desde que recebeu o novo coração, nunca mais foi a mesma e, por coincidência ou obra do destino, se aproxima de Simón, como se algo a atraísse para ele.


E como irá Simón, que entretanto se apaixona por Camila, encará-la, quando souber o que ela representa?


 


Por outro lado, a série aborda os meandros do tráfico de órgãos.


Onde, e de que forma, são escolhidos os "candidatos" a doadores.


Quem faz o "trabalho sujo", e quem mais lucra com o negócio.


E o quão perigoso pode ser entrar nesse mundo, e querer vingar-se de todos os que dele fazem parte.


 


Já para não falar que, quando se deixa de cuidar da família, nomeadamente, dos filhos, no momento em que mais precisam de apoio, em nome de uma vingança que não trará a mãe deles de volta, é meio caminho andado para eles se virarem para caminhos duvidosos, e colocar-se, também eles, em perigo.


E a paz de espírito, por se ter feito justiça, pode dar lugar a mais desespero, culpa, e sofrimento.


 


Conseguirão estas pessoas, algum dia, voltar a ser felizes?


Conseguirão voltar a ser família?


Que destino estará reservado para Camila, Zacarias e Simón?


 


Uma série de 14 episódios, a não perder, na Netflix!


 



 

A flor

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Era uma vez uma flor, com lindas pétalas amarelas.


Nos dias de sol, era vê-la aberta, a receber o calor, a energia, a viver e fazer as delícias de quem por ela passava, e a via por ali em todo o seu explendor.


Já nos dias em que o sol se escondia atrás das nuvens, também ela se mantinha fechada, protegida, para que nada lhe acontecesse.


 


Havia uma menina que, todos os dias, quando por ali passava, olhava para a flor, ora aberta, ora fechada, como se já fosse um gesto rotineiro, e familiar.


E foi assim que começou a reparar que, ao contrário do habitual, nos últimos dias, a flor continuava fechada, sem dar sinal de vida.


A menina estranhou, e decidiu aproximar-se mais da flor.


Foi então que percebeu que a flor não podia mais abrir, porque tinha perdido todas as pétalas. Tinha perdido parte de si.


 


A flor contou-lhe, então, desolada, que num dia em que estava sol, ela tinha aberto, como era habitual, mas não percebeu que um vento forte se estava a aproximar e, quando ele passou por ela, com tal força e velocidade, arrancou-lhe pétala por pétala, sem lhe dar tempo para se resguardar.


 


Tinha "baixado a guarda", confiado, e fora traída.


Agora, era uma flor incompleta, sem graça, murcha, sem vontade de viver.


Nunca mais seria a mesma.


 


A menina, querendo animá-la, disse-lhe que agora, ela seria diferente, mas não menos bonita.


Simplesmente, agora tinha-se transformado numa flor apétala. 


Mas muito mais forte. Uma sobrevivente.


E garantiu-lhe que ia continuar a passar por ali, e admirá-la ainda mais!

quarta-feira, 20 de abril de 2022

A hipocrisia, o politicamente correcto, a frontalidade e a falta de respeito

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Há quem diga que, hoje em dia, a hipocrisia se disfarça, e se protege, sob a prática do "politicamente correcto", para não ferir susceptibilidades e magoar aqueles a quem é dirigida.


Da mesma forma, há que diga que, hoje em dia, a frontalidade é, muitas vezes, confundida com o direito a uma certa agressividade ou, até, falta de respeito, para com aqueles a quem se quer transmitir a mensagem.


 


Na verdade, a linha que separa estes conceitos é muito ténue.


Uma pessoa hipócrita acaba por, de certa forma, faltar ao respeito ao não ser honesta. Mas nem sempre. Por vezes, a intenção é só mesmo não se chatear, e não magoar o próximo.


No mesmo sentido, ser frontal é uma forma de se ser verdadeiro para com o outro, acreditando que a mentira magoará mais, a longo prazo, que a verdade, naquele momento em que é dita. Mas, por vezes, a forma como essa verdade é dita também poderá constituir uma falta de respeito, se a pessoa a proferir com agressividade, com maldade, com intenção de ferir.


 


Ainda assim, é uma linha demasiado grande para que eles se misturem, se se souber separar as águas.


Ser hipócrita é fingir algo que não se sente. É agir propositadamente com falsidade. Por vezes, vem acompanhada de ironia, de gozo, de inveja. 


É, muitas vezes, um falso moralismo.


 


Ser politicamente correcto, é adoptar uma conduta que se assume como correta, mas que não corresponde ao que, de facto, as pessoas pensam ou fazem no seu dia a dia. Por vezes, e em determinados contextos e situações, é necessário adoptar essa postura, sem que isso magoe quem quer que seja.


É ajustar. Adaptar. Ao género do ditado "em Roma, sê romano".


É filtrar. Ocultar. Minimizar. Ao género da máxima "Se não tens nada de bom para dizer, está calado".


É, muitas vezes, querer agradar a gregos e a troianos. Não é por mal. É querer estar bem com todos. E que todos estejam bem consigo.


É querer, quando em grupo, e perante personalidades e características diferentes, manter uma certa harmonia, paz, tranquilidade.


 


Ser frontal é, no fundo, ser honesto.


Consigo. E com os outros.


É mostrar aquilo que se sente. Que se pensa.


É ser sincero. Sem necessidade de ofender.


Sem se sentir melindrado, por o fazer. Por não se saber qual será a reacção, do outro lado. Por não se saber se esse ponto de vista, ou opinião, será aceite, ou mal visto, perante os outros.


E se seremos recriminados por tal atitude.


 


Porque, se assim for, a tendência a ser politicamente correcto, será cada vez maior.


E, depois, cria-se a convicção de que vivemos num mundo cheio de hipocrisia.


Que, se calhar, até nem é mentira...


 


 


 


 

terça-feira, 19 de abril de 2022

Uma História sem Verbos

41 ideias de Floresta desenho | floresta desenho, cenário anime, fundo de  animação


 


A Joana propõs o desafio uma historia sem verbos, e eu decidi testar a minha capacidade de "comer" verbos, e perceber até que ponto eles são, ou não, fundamentais para dar sentido a uma história.


 


Aqui fica:


 


Livre como um pássaro


Leve como um a pena


Na floresta, feliz e solta


Ei-la: uma bonita rena


 


Ao longe um coelho branco


Numa toca escondido


Com uma cenoura na mão


Um feito conseguido


 


Perto, a água fresca e limpa


Daquele pequeno ribeiro


Um espelho resplandecente


Do majestoso pinheiro


 


Uma menina curiosa


E muito aventureira


Uma magia poderosa


E ei-la, de repente, na clareira


 


Mundos desconhecidos


De amigos improváveis


Alguns intrometidos


Outros mais amáveis


 


Um chá e biscoitos mágicos


Uma mesa composta


Um lanche saboroso


E, voilà, uma chave exposta


 


De repente, na Lapónia


Em visita ao Pai Natal


Depois, um saltinho à Amazónia


Através do misterioso portal


 


O relógio atrasado


A porta para a felicidade


Adeus chapeleiro aluado


 Hora da realidade

Pequenas "mentirinhas" que nos vão contando...

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No futebol existem as faltas tácticas.


São cometidas, intencionalmente, com o objectivo de travar uma jogada de ataque perigosa. Ou com outra intenção que seja benéfica, naquele momento, para a equipa de quem as comete.


Ainda que saibam que estão a cometer faltas e, como tal, serão penalizados, compensa-lhes.


 


Na nossa vida, em vez de falhas tácticas, somos brindados com pequenas "mentirinhas" que nos vão contando e que, de certa forma, nos apaziguam temporariamente, embora depressa percebamos que não passam de conversa fiada.


Mentirinhas como "já estou quase a chegar", quando, muitas vezes, ainda nem de casa se saiu!


Ou do género "ainda hoje alguém entrará em contacto consigo", e nunca ligam!


 


Ontem, calhou-nos outra: "Ah e tal, demora cerca de uma hora, uma hora e meia"


Pois...


A minha filha chegou à loja perto das 14.30h. Disseram-lhe que só às 18h poderia ir buscar o equipamento. Portanto, 3 horas e meia! Que se transformaram em 4 horas, porque à hora prevista ainda não estava pronto.


 


E é isto.


Anda meio mundo a mentir, estrategicamente, a outro meio mundo, e vamos engolindo todas, sabendo que o são, umas mais fáceis de digerir que outras, porque, afinal, somos nós que precisamos das coisas.


 

segunda-feira, 18 de abril de 2022

A minha vizinhança é uma animação

História de hoje: Uma vizinhança do barulho | Jornal do Sindico


 


Sábado à tarde, estávamos em casa, e ouvimos os gritos.


Era a vizinha, em guerra com o filho.


Nada de novo.


Todas as semanas há espetáculo no bairro. Por vezes, mais do que uma sessão por dia.


Em algumas delas, a GNR e os Bombeiros juntam-se à festa.


Numa ocasião, vimos mesmo um cabo de vassoura no ar.


 


A mãe tem a fama de beber uns copitos, arranjar confusão com toda a gente e ser ordinária.


O filho, tem uma doença qualquer, mas também a fama de ser drogado.


Dizem que o filho bate na mãe. 


Não sei se é verdade. Não sei se não será recíproco...


 


Mas, dizia eu, a vizinha estava aos gritos com o filho.


A mãe: "És um drogado! Queres dinheiro? Vai pedir à tua mãe! Vai pedir à tua mãe!"


O filho, para a mãe: "Fala baixo! Porque é que estás para aí a gritar?"


E a mãe, continuando a gritar: "E tu, porque é que estás a falar baixo?"


 


Realmente, que despautério!


Quem é que discute a falar normalmente?


Parece anedota!


Mas isto tem tudo para correr mal.


 


Volta e meia, os vizinhos chamam a GNR. 


Mas tudo segue igual. 


Não se vê grande intervenção.


Qualquer dia, já ninguém faz nada. Já ninguém liga.


 


E, qualquer dia, alguma desgraça acontece.


Não foi por falta de aviso...


 

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Desafio de Escrita do Triptofano #12

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Ao se deparar com o novo membro da família, o gato Papoilo faz um escândalo!


Gato Papoilo: - Estrunfina! Está um monstro na nossa sala! Está a olhar para mim com um olhar assassino!


Estrunfina: - Não é um monstro, Papoilo! É um peixe. Não me digas que estás com medo dele? Um gatão desse tamanho, com medo de um peixinho?!


Gato Papoilo: Prometes que ele vai ficar sempre ali dentro?


Estrunfina: Claro! É um peixe. Tem que estar dentro do aquário. 


Gato Papoilo: Que vida triste... Anos e anos aí dentro. Não sei o que vocês veem nestes peixes. Não falam. Nem sequer dá para brincar com eles.


Estrunfina: Mas podes brincar com ele!


Gato Papoilo: A sério?! Boa! Posso atirar o aquário ao chão para fazer de bola, e correr atrás dele!


Estrunfina: Papoilo! Estás doido? Se atirares o aquário ao chão, ele parte-se, a água entorna e o peixe morre.


Gato Papoilo: Ora bolas. Isso não. Não quero molhar-me. E ainda espetava algum vidro na minha pata.


Estrunfina: Vais ver que ainda vão ser grandes amigos.


Gato Papoilo: Olha, se somos amigos, posso dar-lhe um abraço, certo? 


Estrunfina: Hum... e como é que vais fazer isso? Acabaste de dizer que não te querias molhar!


Gato Papoilo: Podias tirá-lo só uns segundos, e depois voltavas a pô-lo lá.


Estrunfina: Não pode ser, Papoilo. Já te disse que se o tirar da água, ele morre. E não queremos isso, pois não?


Gato Papoilo (falando entre dentes): Fala por ti, que eu cá não faço questão que ele viva. 


 


Ao fim de alguns minutos, Estrunfina vê Papoilo fazendo gestos estranhos em frente ao aquário.


Estrunfina: O que estás a fazer?


Gato Papoilo: Estou a tentar adivinhar o futuro. 


Estrunfina: Ai sim?! Não me digas que o aquário virou bola de cristal?!


Gato Papoilo: Não acreditas?! Ora escuta: vejo aqui um futuro muito auspicioso para o Boleta.


Estrunfina: A sério?! E mais?


Gato Papoilo: Hum... parece que ele vai viver uma grande aventura, fazer uma viagem inesquecível e estreitar laços com os seus familiares mais chegados.


Estrunfina: E sobre mim, consegues ver alguma coisa?


Gato Papoilo (fazendo mais uns gestos, e uns sons): A bola mostra que vem aí um período mais conturbado, mas depois da tempestade, tudo voltará ao normal.


Estrunfina: Isso é que é pior. Então e tu?


Gato Papoilo: Eu? Ora bem... Parece que vou ter um presente especial nesta Páscoa!


 


E dizendo isto, Papoilo, que já tinha percebido qual a melhor forma de eliminar o seu inimigo, atirou o aquário ao chão, achando que valia a pena arriscar uma molha em troca do petisco, pegou no peixe com a boca e fugiu para debaixo da cama de Estrunfina, saboreando o Boleta, enquanto Estrunfina ralhava com ele e varria os cacos, recriminando-o por tal atitude para com o peixe.


 


Horas mais tarde, Papoilo tentando seduzir Estrunfina com turrinhas, e mostrando-se muito arrependido, para que esta o perdoe...


Gato Papoilo: É que ele estava tão bonito, tão gordinho, era impossível resistir!


Estrunfina: Ah, Papoilo! Tu não tens emenda!


Gato Papoilo: Se quiseres, eu posso compensar-te. Amanhã mesmo trago-te um rato. Ou um pássaro!


Estrunfina (fazendo cara de nojo): Credo, Papoilo. Não é preciso. Vá, esquece lá isso.


Gato Papoilo: Então, e estás a pensar trazer mais algum membro para a família brevemente?


 


 


Texto escrito para o Desafio de Escrita do Triptofano


 


Também participam:


Ana D.


Maria Araújo


Bruno


 


 


 

"O desaparecimento de Stephanie Mailer", de Joël Dicker

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Em 1994 ocorreu, em Orphea, nos Hamptons, um quádruplo homicídio.


O alvo seria o perfeito, e a sua família. Meghan teria sido um dano colateral.


Um homem foi acusado do crime, e a vida seguiu em frente para todos.


Vinte anos mais tarde, a jornalista aborda um dos policiais responsáveis pelo caso afirmando que, apesar da sua carreira impecável, ele deixou escapar o verdadeiro culpado daquele homicídio, porque só viu aquilo que "quis ver".


E é assim que, contra a vontade de muitos, Jesse, Derek e Anna voltam a desenterrar o caso, e a ressuscitar fantasmas do passado.


 


Na noite após ter conversado com Jesse dando a entender que o verdadeiro assassino estava à solta, Stephanie Mailer desaparece.


Mas esse desaparecimento é apenas o início. O ponto de partida para desvendar a verdade. E, nesse caminho, muitos segredos serão revelados, e mais algumas pessoas, directa ou indirectamente envolvidas, eliminadas.


Há pessoas que procuram respostas às dúvidas que as consomem há 20 anos. Que procuram justiça. 


E há outras, como o assassino, que farão de tudo para que nada seja descoberto.


 


Confesso que, apesar do início cativante, a determinado momento, com tantas personagens novas a entrar na história, sem qualquer ligação aparente entre elas, e sem ligação aparente à trama principal, houve um momento em que pensei ficar por ali na leitura.


Felizmente, não fiquei.


Continuo a achar que houve ali partes desnecessárias, e personagens a mais, das quais se poderia prescindir, sem afectar a história.


Mas valeu a pena chegar ao fim.


 


Este livro mistura drama, comédia, suspense, crime e um pouco da realidade de cada um de nós.


E prova, tal como Stephanie disse, que muitas vezes a verdade está mesmo ali à nossa frente, mas só vemos aquilo que queremos ver.


Porque a pessoa que eles procuravam, esteve sempre ali!


 


Quem era, afinal, o verdadeiro alvo a abater? E porquê?


E quem será o assassino, que continua a fazer vítimas?


Estas são as perguntas para as quais o tempo se está a esgotar, e a que a equipa agora responsável pela reabertura do caso terá que responder.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

"A Última Viúva", de Karin Slaughter

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Assim de repente, o título do livro poderia sugerir uma história bem diferente daquela que, na verdade, conta.


E ainda bem. 


Porque surpreendeu, pela positiva.


 


Em primeiro lugar, quero destacar a relação entre os protagonistas.


Ambos marcados pelo passado.


Ambos com receios.


Ambos muito diferentes, mas com um objectivo comum: ser felizes.


Sara já foi, em tempos, casada. Agora, é viúva. E esse facto é um entrave na medida em que nunca se sabe bem se uma nova relação é o "seguir em frente", ou se é visto como "traição".


Depois, há sempre as inevitáveis comparações. E essas podem interferir, e muito, sobretudo quando vindas de familiares directos, e em modo negativo, relativamente à nova pessoa.


E Will não parece ser aceite pela mãe de Sara.


Aliás, há algo em particular, que ela lhe diz, em jeito de acusação, que o deita abaixo e o faz duvidar de si próprio, culpar-se pelo que aconteceu.


 


E o que é que aconteceu?


Sara foi raptada enquanto tentava ajudar algumas pessoas feridas devido a um ataque bombista. Estava no lugar errado, à hora errada. E tinha a profissão errada.


Na verdade, ela foi levada apenas porque era médica.


Tal como, um mês antes Michelle tinha sido levada, por ser cientista.


 


Agora, estão ambas nas mãos de criminosos, um grupo que pretende levar a cabo uma missão, transmitir uma "Mensagem", como lhe chamam, que vai chocar o mundo, e fazer história.


Dado o objectivo, para Michelle compreende-se o porquê de a terem escolhido. Pensa-se logo num ataque terrorista relacionado com a disseminação de alguma doença, infecção, ou algo do género. 


Já Sara, como médica, não se sabe se foi raptada apenas para auxiliar os membros feridos do grupo ou para, mais tarde, no acampamento, tentar controlar o sarampo que atingiu grande parte das crianças. O que não faz sentido, tendo em conta o que aconteceu mais para o final do livro.


Mas, a determinado momento, é claro que ela servirá de testemunha para o que aí vem, e simbolizará "a última viúva", a sobrevivente.


Se os terroristas não mudarem de ideias antes...


 


Will não conseguiu proteger Sara.


Não conseguiu evitar que fosse levada.


Ficou ferido e, agora, teme perdê-la para sempre, às mãos dos bandidos.


Mas não desiste. E, em parte por Sara, em parte por si, e por considerar que deve isso à família da sua amada, Will fará de tudo para a encontrar e trazer de volta, sã e salva.


 


No acampamento, Sara percebe que está no meio de um grupo em que abusos sexuais, pedofilia, racismo e extremismo estão presentes.


E não há nada que ela possa fazer, senão colaborar, e esperar.


A frustração, o desespero, a descrença e a repulsa são evidentes.


Apesar de ser relativamente bem tratada, tendo em conta a situação, ela não sabe o que o destino lhe reserva, e quanto tempo aguentará.


Quanto tempo faltará para lhe fazerem o mesmo que fizeram a Michelle, quando não lhes foi mais útil.


 


Conseguirá Will cumprir a promessa, chegar até ela e tirá-la dali?


Sairá, ele próprio, se lá chegar, daquele acampamento, com vida?


 


E com este livro já aprendi algo que desconhecia: o que é o botulismo, como se manifesta, como actua, e quais as suas consequências.


 


 

SINOPSE


"Um sequestro por resolver
Numa noite quente de verão, Michelle Spivey, cientista do Centro para o Controlo de Doenças (CDC) de Atlanta é levada por desconhecidos de um parque de estacionamenteo de um centro comercial. Não há pistas, ela parece ter-se desvanecido como se fosse fumo e as autoridades procuram-na desesperadamente.

Uma explosão devastadora
Passado um mês, a tranquilidade de uma tarde de domingo vê-se sacudida por uma explosão que faz tremer o chão a quilómetros em redor, seguida segundos depois por uma segunda, igualmente potente. O coração de Atlanta, onde se encontra a Universidade de Emory, a sede do FBI da Geórgia, os hospitais e o próprio CDC, foi atacado.

Um inimigo diabólico
A médica forense Sara Linton e o seu namorado, o polícia Will Trent, aparecem na cena do crime... E sem o saberem, mesmo no epicentro de uma conspiração letal que ameaça acabar com a vida de milhares de inocentes. Quando os terroristas sequestram Sara, Will vai-se infiltrar colocando a sua vida em perigo para salvar a mulher e o país que ama."


quinta-feira, 7 de abril de 2022

Desafio de Escrita do Triptofano #11

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A caminho de uma gala solidária


 


Anacleta: Pablito, não queres fazer um desviozinho?


Pablo: Não posso, menina. Tenho instruções para a levar, sem demoras, à gala de beneficência.


Anacleta: Chato! Não te cansas de fazer sempre o mesmo? De ser assim tão certinho?  


Pablo: É o meu trabalho, menina. Se não o fizer bem feito, sou despedido. E se for despedido, não tenho como sustentar a minha família.


Anacleta: Podias sempre arranjar outro trabalho, mais divertido! Isto é uma seca. Sempre a mesma rotina, sempre as mesmas pessoas, sempre as mesmas malditas regras. Cada dia igual ao anterior. Não há nada pelo qual anseies. Que te faça querer viver. Olha para estes soldados! Todos iguais. Todos alinhadinhos. Que falta de personalidade!


Pablo: Não diga isso, menina. É apenas sentido de dever, e respeito para consigo e para com a sua família.


Anacleta: Tretas! Vá lá, Pablito. Vamos fugir um pouco à normalidade. Só hoje.


Pablo: A menina é teimosa! Não lhe expliquei já...


 


E parou de falar, ao ver que Anacleta já tinha tirado as roupas de cerimónia, e estava agora com uma t-shirt, calças e ténis.


 


Pablo: Mas o que é isso, menina?!


Anacleta (dando umas tesouradas na farda de Pablo): Isto?! Isto é a nossa desculpa perfeita! Agora que não estamos apresentáveis, podemos faltar à gala, e ir onde quisermos.


Pablo: A menina sabe os problemas que me está a arranjar? A mim, e a si! Ou acha que os seus paizinhos vão ficar contentes consigo?


Anacleta: Quero lá saber. Também já tiveram a minha idade! E, se calhar, também já quebraram as regras. Descontrai, Pablito. Vais ver que vais gostar!


 


Depois de umas horas a satisfazer os caprichos de Anacleta, Pablo dá-lhe a entender que está na hora de regressarem, e enfrentarem as consequências daquele acto de rebeldia.


E lá voltam, Pablo receoso, e Anacleta cansada e pensativa, a caminho de casa.


 


Às tantas, diz Anacleta: Sabes, Pablito, não percebo porque é que as pessoas são todas tão diferentes onde estivemos.


Pablo: Então, menina? Ainda há pouco se queixava de tudo ser sempre igual. 


Anacleta: Eu sei, Pablito. Mas é que se tudo for diferente, não nos encaixamos em nada. Sentimos que não pertencemos a nada.


Pablo: Mas não era isso que a menina queria? Ser alguém diferente?


Anacleta: Sabes que mais? Acho que afinal, até gosto da minha normalidade. É bom estar de volta.


Pablo (pensando para com os seus botões): Pelo menos ganhou juízo.  Sempre serviu para alguma coisa.


 


Anacleta (ao fim de uns instantes, como que lendo o pensamento de Pablo): Mas sabes que, mais dia, menos dia, vamos fazer outra escapadinha! Sabes porquê?


Pablo: Não faço ideia, menina.


Anacleta: Porque é a única forma de nos relembrar daquilo que temos, daquilo que somos, e do quão gratos devemos estar. De nos relembrar de que nem tudo é sempre bom, mas também nem tudo é sempre mau. De querer voltar para onde, antes, queríamos sair. Estás a perceber?


Pablo: Sim, menina. A única forma de lidarmos e aceitarmos a normalidade, é fugindo dela, de vez em quando.


Anacleta: Olha! Até que és um sábio companheiro de aventuras, Pablito! Quem diria...


 


 


Texto escrito para o Desafio de Escrita do Triptofano


 


Também participam:


Maria Araújo


Ana D.


 


 

quarta-feira, 6 de abril de 2022

"Ruby ao Resgate", na Netflix

Ruby ao Resgate | Site oficial da Netflix


 


Este é um filme baseado numa história verídica, em que uma cadela de rua, levada para um abrigo, após ser devolvida várias vezes, por diversas famílias, e em risco de abate, foi finalmente adoptada e tornou-se K-9, uma cadela de resgate da unidade canina, e heroína.


 


O filme retrata a realidade de muitos animais, de muitos abrigos, e de muitos adoptantes.


Os animais não nascem ensinados.


Nem todos têm o mesmo tipo de comportamento, e agem da mesma forma.


Cada um tem a sua própria personalidade, e o seu próprio tempo para aprender e perceber as coisas.


Acredito também que, cada animal, neste caso, os cães, sabe quando encontra o dono certo ou a família certa para si.


Aliás, penso mesmo que são mais eles que nos escolhem, do que nós os escolhemos a eles.


 


Ruby era uma cadela com problemas comportamentais, indisciplinada, não ouvia nem obedecia a ninguém, não era sociável e, por isso, ninguém estava disposto a dar-lhe uma oportunidade, a dar-lhe tempo.


A única pessoa com quem Ruby estabeleceu uma ligação foi com a sua tratadora do abrigo, a única que se preocupava com ela, que temia o pior, caso não aparecesse alguém que, realmente, soubesse lidar com Ruby, e compreendê-la.


E ainda não tinha aparecido essa pessoa.


No fundo, ela só precisava de alguém que acreditasse nela. Que a ensinasse à sua medida. Que não desistisse dela.


 


Tal como Dan, o polícia que, no filme, ao tentar cumprir o seu sonho de pertencer à unidade canina, recorre ao abrigo, na esperança de adoptar um cão que possa treinar, e ajudá-lo a concretizar esse objectivo.


A ligação é imediata até porque, como afirma a mulher de Dan, eles são muito parecidos.


 


O problema é que, quando não se tem confiança em si próprio, quando se duvida de si mesmo, é difícil fazer com que os restantes, ao redor, pensem de outra forma.


Dan tem esse problema. 


Até àquele momento, Dan teve que ultrapassar diversas dificuldades, e superar várias limitações, esforçando-se o dobro ou o triplo dos restantes, para conseguir chegar onde está.


Ainda assim, há momentos em que a falta de confiança, e de esperança, voltam a atormentá-lo, e isso irá reflectir-se em Ruby, ou seja, Dan acaba por projectar tudo isso, e as suas frustrações, culpando Ruby, não confiando nela, não acreditando nela.


 


Ora, Ruby, como todos os animais, tem sentimentos.


Percebe quando os humanos estão a ser injustos, quando parecem desiludidos e tristes com os seus animais.


Percebe quando é desejada, e quando não a querem.


Por isso, depois de Dan ter duvidado do instinto de Ruby, numa operação, e a ter culpado pela sua má sorte, Ruby abandona a casa.


No dia seguinte, percebe-se que Ruby tinha razão. Que Dan fora injusto com ela.


Que Dan fez a Ruby, aquilo que sempre acusou os outros de fazerem com ele.


Mas, agora, é tarde.


Ruby desapareceu. E ninguém a encontra.


Está magoada. Sente-se, mais uma vez, rejeitada. Só que agora, é pior, porque foi rejeitada pela pessoa de quem ela gostava.


 


Entretanto, um rapaz desaparece, e Dan é chamado para integrar a equipa de resgate.


No entanto, sem Ruby, nada pode fazer.


 


Conseguirá Dan encontrar a sua cadela?


Voltarão a formar, ambos, uma dupla de sucesso?


Ao contrário dos humanos, os animais perdoam mais depressa. Mas, será este o caso?


 


Só vos posso dizer que o final do filme reserva uma surpresa inesperada, e que nos faz pensar que, se calhar, tudo tem uma razão de ser.


Que, por vezes, sem saber, salvamos vidas que, um dia, nos salvaram a nós.


 


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Vejam o filme!


Sim, é emotivo. Puxa para a lágrima.


Mas é, também, uma aprendizagem sobre os animais.


E uma lição para nós, humanos.


 



 


 

terça-feira, 5 de abril de 2022

"Assim se revisita o coração", de Ana Luísa Amaral

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"Só mal tocando as cordas
Da memória
Consegue o coração ressuscitar

Porque era este lugar
que eu precisava agora
como em deserto até
ao infinito,
e de repente,
uma gravidez imensa,
um cacto verde e limpo

Porque os olhos conhecem
estes sons
de dar à luz o vento
e são-lhe amantes
de tangível luz

Só mal tangendo as cordas
da memória
como estas flores
se tingem de alegria

Porque era neste azul
que eu me queria
como a rocha transpira
e se resolve
em mar"


 


 


Há duas expressões que eu escolheria para sintetizar este poema:


"Recordar é viver" e "Somos as memórias que criamos".


Porque ambas caracterizam aquilo de que o sujeito poético fala neste poema: a forma como as memórias nos parecem devolver a vida.


 


Quando começamos a esquecer as pessoas, as coisas e os momentos que nos fizeram felizes, a esquecer as lembranças e recordações passadas, a perder a memória de tudo o que de bom vivemos, o nosso coração começa a morrer. 


Mas se essa memória, que estava a desvanecer, for reavivada, seja por vontade própria, ou porque algo inesperado contribuiu para esse reavivar, então é como se o coração ganhasse um novo fôlego.


E, de repente, ele volta a bater com mais força, ao relembrar aquilo que estava esquecido. 


 


Por vezes, quando nos sentimos mais tristes, cabisbaixos, sem ânimo e sem vontade, bastam essas memórias para nos trazer de volta a alegria perdida, para nos transmitir a paz e serenidade, e nos fazer sentir bem connosco próprios, mostrando que tudo tem a sua razão de ser, e que tudo acontece na hora e no momento certos.  


Mesmo que não possamos viver, de novo, todas essas lembranças, é quase como se estivéssemos a viver as situações, uma segunda vez, porque conseguimos visualizá-las e senti-las, como se estivéssemos lá.


 


Por vezes, basta um gesto, para que as nossas memórias passadas venham até ao presente, e nos façam abstrair da realidade que estamos a viver, funcionando como um refúgio seguro, ou um escape temporário, que nos devolve a alegria sentida nesses momentos.  


 


Ainda assim, ao mesmo tempo que as memórias nos transportam para onde mais precisávamos estar, naquele momento, como se precisássemos delas para nos reforçar, reerguer, respirar, renovar a força e a esperança também nos relembram que, apesar de tudo, estamos onde deveríamos estar, e não devemos recear o que está por vir, porque ainda poderemos ser felizes, e criar novas memórias. 

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Quantos balões ainda mantêm intactos?

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No universo dos balões dos sentimentos, quais aqueles que ainda se mantêm intactos, e quais os que já levaram uma (ou várias) alfinetadas.


Que balões, mesmo não sendo picados, já começaram a esvaziar?


Quais aqueles que poderiam rebentar, por não fazerem falta?


E quais são os mais são protegidos, por serem essenciais?

A semana numa imagem

  Chuva, chuva, e mais chuva!