quinta-feira, 7 de abril de 2022

Desafio de Escrita do Triptofano #11

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A caminho de uma gala solidária


 


Anacleta: Pablito, não queres fazer um desviozinho?


Pablo: Não posso, menina. Tenho instruções para a levar, sem demoras, à gala de beneficência.


Anacleta: Chato! Não te cansas de fazer sempre o mesmo? De ser assim tão certinho?  


Pablo: É o meu trabalho, menina. Se não o fizer bem feito, sou despedido. E se for despedido, não tenho como sustentar a minha família.


Anacleta: Podias sempre arranjar outro trabalho, mais divertido! Isto é uma seca. Sempre a mesma rotina, sempre as mesmas pessoas, sempre as mesmas malditas regras. Cada dia igual ao anterior. Não há nada pelo qual anseies. Que te faça querer viver. Olha para estes soldados! Todos iguais. Todos alinhadinhos. Que falta de personalidade!


Pablo: Não diga isso, menina. É apenas sentido de dever, e respeito para consigo e para com a sua família.


Anacleta: Tretas! Vá lá, Pablito. Vamos fugir um pouco à normalidade. Só hoje.


Pablo: A menina é teimosa! Não lhe expliquei já...


 


E parou de falar, ao ver que Anacleta já tinha tirado as roupas de cerimónia, e estava agora com uma t-shirt, calças e ténis.


 


Pablo: Mas o que é isso, menina?!


Anacleta (dando umas tesouradas na farda de Pablo): Isto?! Isto é a nossa desculpa perfeita! Agora que não estamos apresentáveis, podemos faltar à gala, e ir onde quisermos.


Pablo: A menina sabe os problemas que me está a arranjar? A mim, e a si! Ou acha que os seus paizinhos vão ficar contentes consigo?


Anacleta: Quero lá saber. Também já tiveram a minha idade! E, se calhar, também já quebraram as regras. Descontrai, Pablito. Vais ver que vais gostar!


 


Depois de umas horas a satisfazer os caprichos de Anacleta, Pablo dá-lhe a entender que está na hora de regressarem, e enfrentarem as consequências daquele acto de rebeldia.


E lá voltam, Pablo receoso, e Anacleta cansada e pensativa, a caminho de casa.


 


Às tantas, diz Anacleta: Sabes, Pablito, não percebo porque é que as pessoas são todas tão diferentes onde estivemos.


Pablo: Então, menina? Ainda há pouco se queixava de tudo ser sempre igual. 


Anacleta: Eu sei, Pablito. Mas é que se tudo for diferente, não nos encaixamos em nada. Sentimos que não pertencemos a nada.


Pablo: Mas não era isso que a menina queria? Ser alguém diferente?


Anacleta: Sabes que mais? Acho que afinal, até gosto da minha normalidade. É bom estar de volta.


Pablo (pensando para com os seus botões): Pelo menos ganhou juízo.  Sempre serviu para alguma coisa.


 


Anacleta (ao fim de uns instantes, como que lendo o pensamento de Pablo): Mas sabes que, mais dia, menos dia, vamos fazer outra escapadinha! Sabes porquê?


Pablo: Não faço ideia, menina.


Anacleta: Porque é a única forma de nos relembrar daquilo que temos, daquilo que somos, e do quão gratos devemos estar. De nos relembrar de que nem tudo é sempre bom, mas também nem tudo é sempre mau. De querer voltar para onde, antes, queríamos sair. Estás a perceber?


Pablo: Sim, menina. A única forma de lidarmos e aceitarmos a normalidade, é fugindo dela, de vez em quando.


Anacleta: Olha! Até que és um sábio companheiro de aventuras, Pablito! Quem diria...


 


 


Texto escrito para o Desafio de Escrita do Triptofano


 


Também participam:


Maria Araújo


Ana D.


 


 

6 comentários:

  1. Bom dia Marta !!!
    Gostei muito do teu texto, tem muito sentido e fizeste bem em partilhar. Beijinhos grandes e bom fim de semana.

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  2. Obrigada Célia!
    A imagem é assim uma mistura de Nikita, do Elton John, com Palácio de Buckingham e personagem Shin Chan. Não sabia muito bem o que escrever sobre ela, mas saiu um pouco de comédia com alguma seriedade e verdade.
    Beijinhos e bom fim de semana!

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  3. Um conto interessante para as crianças acima dos 8 anos

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  4. Pelo menos é menos dramático que O Soldadinho de Chumbo
    Acho que está tão na moda ser diferente que, muitas vezes, não percebemos que não há mal nenhum em sermos semelhantes.

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  5. O soldadinho de chumbo nunca foi dos meus contos escolhidos para as crianças.
    Boa semana

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