quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Lucidez

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Pensar que, há muitos anos, era eu que a rejeitava.


Era eu que não queria nada com ela.


Porque ela me fazia lembrar aquilo que eu deveria fazer. O homem que eu deveria ser.


E eu ainda não queria assumir esse compromisso. 


Ainda queria viver muitas aventuras e sabia que, a partir do momento em que ela passasse a fazer parte da minha vida, isso chegaria ao fim.


 


Sabia que precisava dela. Sabia que ela faria parte do meu futuro.


Mas ainda não estava preparado para tê-la comigo.


Por isso, ia alternando, entre uma e outra.


No fundo, ela esteve sempre lá. 


Mas eram mais as vezes que a deixava de parte, a um canto, do que as que me permitia estar com ela.


 


Claro que, um dia, isso mudou.


Estava na hora. 


Já tinha idade para ter juízo. E assumi.


Desde então, caminhamos juntos, lado a lado.


Nunca me abandonou.


Nunca me deixou ficar mal.


Tem sido uma grande companheira, e decisiva, nos momentos mais importantes.


 


Agora, parece-me que isso está prestes a mudar.


Sinto que, de vez em quando, é ela que se afasta de mim. É ela que se ausenta, ainda que por breves instantes.


Como se estivesse a estudar a melhor forma de me abandonar de vez, fazendo-o um pouco de cada vez.


 


Sinto que, em determinados momentos, ela me falha.


Como se já não quisesse saber de mim.


Como se já não me fizesse falta. 


 


Nesses momentos, sinto-me confuso.


As coisas não parecem as mesmas.


A minha vida não parece a mesma.


 


Mas, depois, como se nunca tivesse deixado de ali estar, ela volta.


Volta, e faz-me perceber a figura ridícula que fiz, enquanto me deixou.


E sinto-me mal, por estar tão dependente dela.


E por ela me pregar estas partidas.


Ela, que nunca me deixou ficar mal age, agora, como se fosse esse o seu objectivo.


 


Oh, lucidez...


Porque é que me deixas sozinho, sem rumo, quando mais preciso que me guies?


Porque é que, agora, és tu que me rejeitas? 


Logo agora, quando mais preciso de ti.


 


Porque é que vais, e voltas, em vez de permanecer comigo?


Estarás, tu, a testar-me?


A vingar-te de mim?


 


Quando estás comigo, não consigo parar de pensar que, quando eu menos esperar, não voltarás mais, e me deixarás para sempre.


E se isso acontecer, o que restará de mim?...  


 

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