quinta-feira, 19 de junho de 2025

"Pela noite dentro - Contos e Outros Escritos", de José da Xã

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Comecei a ler este livro e foi, quase, como voltar atrás no tempo.


A uma outra vida, da qual pouco sabia, a não ser por algumas histórias que o meu pai foi contando e, recentemente, pela leitura do seu livro.


A uma outra realidade, de há muitas décadas.


A um Alentejo (no caso do meu pai), onde a única coisa que esperava os jovens era a vida no campo. Com tudo o que tem de bom. E de mau.


A dureza, o trabalho árduo, a pouca instrução académica, uma certa pobreza.


A vergonha, disfarçada pela dignidade. 


A míngua, disfarçada pela simplicidade.


Os modos, por vezes algo abrutalhados, relevados pela sinceridade, simpatia e hospitalidade.


A coscuvilhice, perdoada pela união e entreajuda entre vizinhos. Afinal, todos se conhecem. Para o bem, e para o mal. Todos sabem da vida um dos outros. Todos falam uns dos outros. Mas, quando é preciso, estão lá.


O retrato de um povo que, embora trabalhe de sol a sol, e esteja dependente daquilo que a terra lhes dá, também é capaz de levar a vida com uma curiosa calma, satisfazendo-se com pouco, e dando valor às pequenas coisas.


Destaco a descrição, em muitos destes contos, da força das mulheres. Da sua capacidade de resiliência, e de como conseguem ultrapassar as dificuldades.


E a lealdade dos animais, para com os humanos com quem criam laços, e de alguns humanos, para com os seus animais, que consideram amigos ou, mesmo, família.


 


E "Os Felícios"?!


O que me diverti com eles!


De repente, o leitor salta do campo, para a cidade. De outros tempos, para a realidade actual.


A era das tecnologias, onde impera o vício das redes sociais. Os olhos permanentemente colados a um ecrã de telemóvel.


Os Felícios são uma crítica social. Uma espécie de sátira ao que observamos, em algumas famílias e na dinânimica entre cada um dos membros dessas famílias, hoje em dia.


O retrato dos jovens de hoje: dos seus interesses, das suas prioridades. E o dos adultos, por vezes tão ou mais imaturos que os jovens.


Ainda assim, é possível perceber que os Felícios preservam, apesar de tudo, o espírito de união de uma verdadeira família, que é coisa que se vê cada vez menos.


Acredito que "Os Felícios", e os seus caricatos episódios dariam, por si só, um livro autónomo e muito divertido!


 


Obrigada, José, pelo miminho, e pela oportunidade de ler estas histórias!


Parabéns à Olga pela ilustração da capa!


 


 


 


 


 


 


 


 


 

3 comentários:

  1. Muito bem!
    Gostei muito de "Os Felícios" por ser o contrário de todos os outros contos, e que trata de uma realidade que muito bem comentaste neste teu post.
    Beijinhos

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  2. Também gostei muito
    A diferença é que as famílias reais, ao contrário desta, conseguem ser ainda mais desligadas e indiferentes.
    Beijinhos e bom fim de semana!

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