quinta-feira, 31 de março de 2022

Desafio de Escrita do Triptofano #10

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No reino de Natura, havia um menino a quem chamavam o "adivinhador de sonhos", porque ele costumava, através das suas bolhas de sabão, imaginar os sonhos daqueles que o rodeavam, ainda que, raramente, acertasse em algum.


Mas ele não desistia e, por onde passasse, levava sempre consigo o que precisava, e distribuía bolhas coloridas pelo ar.


 


Um dia, ao passar por umas flores, ouviu a conversa entre estas, em que uma dizia às outras "Ah, como eu queria...", e logo o menino interrompeu, afirmando:


- Espera, não digas! Vou tentar adivinhar! 


 


E, ao formar a primeira bolha, disse:


- ... como tu querias ser uma Sakurasou (que simboliza “desejo” e “amor duradouro”), e ser apreciada num dos mais belos jardins japoneses!


 


Algumas flores riram-se de tal ideia, e disseram-lhe que tinha que apurar mais o seu poder.


O menino tentou de novo.


- ... como tu querias ser uma flor exótica, como a Alamanda, e estar agora na imensa floresta amazónica!


 


Perante a expressão que as plantas fizeram, percebeu que tinha errado de novo.


E, de novo, fez mais uma bolha.


- ... como tu querias ser um Saguaro e habitar no Deserto de Sonora.


 


- Oh rapaz, estás muito longe de acertar. Deixa-te disso.


- É desta, responde ele! - fazendo surgir uma bolha ainda maior no ar


... como tu querias ser uma King Protea, exuberante, de cores vivas, e deslumbrares os visitantes do jardim botânico Kirstenbosch da Cidade do Cabo!


 


E logo fazendo mais uma bolha, antes que lhe dissessem que continuava a errar:


- ou ser uma daquelas belíssimas tulipas num dos campos da Holanda!


 


Expectante, olhando para a flor, na esperança de, finalmente, ter acertado, compreendeu que a tarefa era mais difícil do que tinha imaginado.


A flor, com pena do menino, que tanto se esforçou, explicou-lhe então:


- Sabes, esse é o grande problema de vocês, humanos.


- Pensam sempre em coisas grandiosas, vistosas, famosas.


- Querem sempre viajar para ali, para acolá, achando que aqui nunca encontrarão nada que vos agrade.


- Eu sou o que sou, e como sou. Não quero ser outra. Gosto de mim assim. E gosto de estar aqui. 


- Quem me conhece, e está comigo, também me aceita como sou.


- O que eu estava a dizer, quando me interrompeste, era como eu queria que vocês, humanos, dessem mais valor àquilo que está mesmo à vossa frente, por mais insignificante que vos possa parecer.


- À simplicidade.


- Que percebessem que também podem ser felizes, sonhar e viajar, conhecendo o lugar onde estão, antes de ir para outros.


 


O menino, muito admirado com o discurso da flor, acabou por admitir que ela tinha uma certa razão.


- Já sei! - disse o menino


- Vou fazer mais umas bolhas. E nelas, vou "enviar" tudo o que de bom temos aqui no reino. 


- Assim, as pessoas que as virem no ar, ficam a conhecê-lo. Quem sabe não nos transformamos num destino turístico como os que há por esse mundo fora!


 


Pensa a flor, para com as suas folhas:


- Santo deus! Não percebeu nada!


 


 


Texto escrito para o Desafio de Escrita do Triptofano


 


Também participam:


Maria Araújo


Bruno


Triptofano


Maria


Bii Yue


Ana D.


 


 


 


 


 


 


 

quarta-feira, 30 de março de 2022

"Mentiras", na Netflix

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Ela é professora.


Está em processo de separação, após um casamento de vários anos que chegou ao fim, apesar de manter a amizade com o ex marido.


Está livre, e pronta para refazer a sua vida e, quem sabe, encontrar de novo o amor.


 


Ele é cirurgião.


É pai de um dos alunos dela, e é daí que se conhecem.


Está livre, e quem sabe não encontra, nela, a pessoa com quem iniciar um novo relacionamento.


 


Apesar de reticente, considerando que talvez seja cedo e ainda não esteja preparada, Laura aceita o convite para jantar com Xavier.


Passam uma noite agradável, que termina em casa de Laura.


Um copo de vinho, enquanto o táxi não chega para levar Xavier a casa.


 


Laura acorda no dia seguinte, e todo o seu brilho se foi.


Parece que envelheceu uns bons anos.


Não se sente bem. Está estranha.


Xavier não está. Apenas uma mensagem de que foi uma noite inesquecível.


Resta saber em que sentido, para um, e para outro...


 


Laura desabafa com a irmã sobre o facto de achar que foi drogada, e violada, por Xavier.


Seguem-se os trâmites habituais: exame físico, queixa à polícia, e interrogatório a Xavier.


Que não faz a mínima ideia do que se terá passado, na cabeça de Laura, para lhe fazer tal acusação. 


Na verdade, Xavier mostra-se incrédulo, estupefacto, meio perdido, com tal afirmação. E tenta, como pode, perceber, junto de Laura, o que a levou a pensar que ele tenha feito tamanha monstruosidade. Sem sucesso.


 


Apesar de, por momentos, até mesmo Xavier a ter feito duvidar, Laura mantém a sua versão, e vai tentar de tudo para provar que está certa.


Ainda que os exames não tenham acusado nada: nem presença de drogas, nem indícios ou marcas de agressão, nada.


 


Quem fala a verdade? 


E quem está a mentir?


Será Laura capaz de inventar esta história? Por loucura? Ou com que intenção?


Será Xavier, de facto, um abusador e violador?


 


Mas estas não são as únicas verdades por descobrir.


Há muito mais mentiras a pairar em torno de Laura, e dos que lhe são mais próximos e que, a seu tempo, serão descobertas.


 


Esta é uma minissérie de 6 episódios, que cativa desde o primeiro instante, e que se vê muito facilmente.


Confesso que, no fim do primeiro episódio, eu mesma duvidei da veracidade de tudo o que Laura afirmou.


Terão os seguintes, conseguido fazer-me mudar de ideias?


 


Só vos digo que o melhor, mesmo, é não confiarem em ninguém.


E que até as pessoas que aparentam ser mais inocentes, podem esconder crimes que nunca imaginaríamos!


 


 

terça-feira, 29 de março de 2022

Reflexão do dia


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Nem sempre se consegue fazer fogo friccionando duas pedras.

Por vezes, a única coisa que se consegue é, apenas, desgastá-las.

 

 

 

Há pessoas que passam a vida a friccionar pedra com pedra, na esperança de que, um dia, quem sabe, possam conseguir gerar o fogo pelo qual tanto anseiam, e que está difícil de atear.

E, ainda que, a cada fricção, umas vezes mais suave e paciente, outras mais forte e agressiva, a única coisa que consigam, à primeira vista, seja o desgaste de cada uma delas, continuam a insistir.

Porque já o conseguiram uma vez, e resultou. 

Então, mais cedo ou mais tarde, há-de resultar de novo.

Ou talvez não...

 

 

Há pessoas que não conseguem ver que, se querem tanto atear o fogo, há muitas outras formas de o conseguir.

Mais práticas.

Mais eficazes.

Mais rápidas.

Menos abrasivas.

 

 

E há pessoas que, simplesmente, não percebem que, na verdade, nem sequer precisam desse fogo. 

Nem para aquecer.

Nem para iluminar.

Nem para se sentirem vivas.

Porque elas próprias têm tudo isso em si.

 

 

segunda-feira, 28 de março de 2022

Dos refugiados...


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Quero, antes de mais, frisar que este não é, de todo, um post contra os refugiados.

 

 

Não sou, e espero nunca vir a ser, uma refugiada.

Nem quero imaginar o que é ter que, de um momento para o outro,  deixar a minha casa, a minha terra, o meu país, e fugir para outro lado qualquer, desconhecido, sem saber se chegarei lá com vida, ou se morro pelo caminho. E, se chegar com vida, o que me espera, num sítio onde não conheço ninguém, onde nem sequer falo a mesma língua, onde não tenho nada...

Perder, de um dia para o outro, família, amigos, pertences, o lar, o trabalho, a estabilidade, depois de anos de luta para conquistar tudo isso.

E ter que recomeçar, do zero. Ter que depender da boa vontade, caridade e solidariedade dos outros, sem nada que seja meu. 

Pois...

Só quem passa por isso sabe o que custa, o que dói, o quão frustrante, desolador e triste é.

Não desejo isso a ninguém.

 

 

Posto isto, claro que toda a ajuda é bem dada, e preciosa, para que os refugiados, que não têm culpa nenhuma da sua situação.

E é óbvio que o povo português é um grande apoio nesse aspecto, sempre pronto a ajudar, a dar aquilo que tem, e que não tem, para que os outros tenham um pouco.

Nada contra. Eu própria, se puder, o faço.

 

 

O meu post vai mais no sentido de certas injustiças que se observam nestes momentos, e direccionadas para aqueles que têm sempre mais poder nas mãos, mas parece que só o usam quando querem, quando lhes apetece, quando lhes convém, ou quando a isso, por força das circunstâncias, são obrigados.

E, quer queiramos, quer não, isso gera revolta.

 

É um pouco como aqueles pais que todos os dias dão feijão com arroz aos filhos, porque a vida está cara e não há dinheiro para mais, e mesmo que os filhos, uma vez ou outra, peçam algo diferente a resposta é sempre a mesma - não dá.

Mas, depois, seja porque esses mesmos pais se ofereceram para receber um parente, ou porque foram incumbidos ou "obrigados" a recebê-lo, e não querem fazer má figura, nem mostrar a sua verdadeira realidade, acabam por comprar uns bifes do lombo, um peixinho, até uma sobremesa, algo a que os próprios filhos nunca tiveram direito.

Ou seja, para os seus, nunca dava, nunca havia. Mas agora, para os outros, já se fazem excepções.

Com os refugiados, acontece a mesma coisa.

E, volto a dizer, a culpa não é deles.

 

 

Mas, na prática, acaba por se arranjar soluções, alternativas e facilitar muito mais aos refugiados que chegam ao nosso país, que aos próprios portugueses.

Como?

 

Sabem aqueles pais que queriam mesmo matricular os filhos naquela escola mas, por mil e um motivos, não conseguiram?

Pois, se calhar, agora, a escola dá um jeito de arranjar vagas.

Sabem aquelas famílias que são postas na rua, ou que estão em risco de perder a casa, e ir morar na rua, ou num carro, ou que vivem em condições miseráveis, sem que se arranje um sítio onde possam viver dignamente?

Pois, se calhar agora já se arranjam habitações.

Sabem aquelas pessoas que querem mesmo trabalhar, e correm todos os sítios e mais alguns, e as respostas são sempre as mesmas: não estamos a precisar, não tem competências, demasiados estudos, estudos a menos, não tem experiência, etc?

Pois, se calhar agora, criam-se, propositadamente, novos postos de trabalho.

Sabem quando têm que tratar de um documento qualquer, e fica soterrados em burocracias, perdem tempo e, muitas vezes, não resolvem nada?

Pois, se calhar agora, aos refugiados, tudo isso é facilitado.

O que só prova que, havendo vontade e predisposição para isso, é possível.

 

 

E a minha única pergunta é:

Não poderiam agir da mesma forma com os nossos? Em circunstâncias normais?

Serão os portugueses, no seu próprio país, menos do que os que para cá vêm?

Será preciso uma situação extrema, para deixarmos de ser tratados como enteados, e passarmos a ser vistos como filhos?

 

 

Reafirmo que os refugiados não têm culpa.

Como refugiada que fosse, também gostaria de um lugar onde ficar.

De poder trabalhar para não depender mais do que o necessário, da caridade alheia, e recomeçar a minha vida.

Também gostaria que a minha filha continuasse os seus estudos, ainda que num país estranho.

E, para tudo isso, seria preciso documentação.

 

 

Sei que, em determinadas circunstâncias, situações urgentes exigem medidas rápidas e excepcionais.

Mas gostaria que houvesse um esforço maior para que as menos urgentes, mas não menos importantes e necessárias, não ficassem postas de parte, como se não houvesse qualquer responsabilidade em dar-lhes a devida atenção. 

Como se não tivessem qualquer forma de as resolver, ainda que o quisessem.

quinta-feira, 24 de março de 2022

Desafio de Escrita do Triptofano #9

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Corda:


Porque insistes em queimar-me?


 


Vela:


Porque é a única forma de perceberes que eu estou aqui. De me sentires. De olhares para mim.


 


Corda:


Eu sei que estás aí. Eu sinto-te. E vejo-te. 


Talvez não da forma que queres. Com a frequência que queres.


 


Vela:


Hum...


Pois não me parece.


Sinto que a única forma de virares a tua atenção para mim, é quando a minha chama te atinge.


 


Corda:


E o que esperas de mim, com essa chamada de atenção? 


 


Vela:


Que percebas que estou aqui. Que faço parte da tua vida.


E que te aproximes mais de mim.


Porque quanto mais foges, e mais te afastas, mais a minha chama aumenta, e se estica para te alcançar.


Ainda que, com essa atitude, eu me torne mais pequena, e perca um pouco de mim. 


 


Corda: 


Lamento, mas não consigo compreender a tua perspectiva.


O que acontece é que, aos poucos, muito lentamente, vais-me queimando.


Com o tempo, vou perdendo a cor. Vou escurecendo.


Dia após dia, vou enfraquecendo com a tua chama e, a qualquer momento, posso quebrar.


E quando eu quebrar, quando me partir, não terás mais como me queimar. 


Terás que procurar outra corda.


Ou, então, arder em vão, sozinha, até que a chama se extinga... 


 


Texto escrito para o Desafio de Escrita do Triptofano


 


 


Também participam:


Ana D.


Maria Araújo


Ana de Deus


Bruno


Triptofano


Maria


Biiyue


 


 


 


 


 


 


 

quarta-feira, 23 de março de 2022

"Pura Raiva", de Cara Hunter

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Há por aí um homem perigoso à solta, que vai atacar quem, e quando, menos se espera...


 


Em primeiro lugar, tenho a dizer que a autora podia ter encurtado um pouco a história, sem fazer render tanto o peixe.


Depois, confesso que me ludibriou. Comecei a ler, e levei tudo para um lado, ainda que sem entender que ligação poderia haver, até porque nada parecia bater certo. Entretanto, embrenhei-me tanto na ação que estava a decorrer que, quase a chegar ao fim, tive dificuldade em recordar aquilo que tinha lido logo no início e que, agora sim, fazia sentido. Mas já tinham passado tantas páginas, e tantos acontecimentos...


Por fim, referir que, em determinados momentos, a informação é excessiva, e fica tantas vezes pendente, que é muito fácil perder o fio à meada e, às tantas, não perceber nada do que se está a ler.


 


Posto isto, "Pura Raiva" é uma história sobre raiva, e sobre inveja.


Sentimentos pouco nobres que não são exclusivos dos adultos, e que podem manifestar-se em tenra idade.


Se isso se traduz, na prática, em agressões, em violência, em crime?


Quem sabe...


E é caso para dizer que, por norma, quem mais parece estar do nosso lado, e ter menos motivos, é quem, na verdade, mais tem algo contra nós, que disfarça, dissimuladamente.


Família.


Amigos.


Ninguém está livre de suspeitas.


 


Há por aí alguém perigoso à solta, que vai atacar quem, e quando, menos se espera...


 


A primeira vítima escapou com vida. Uma adolescente.


Sorte? Ou intencional?


Faith não quer apresentar queixa e tenta, a todo o custo, esconder algo que ela quer pôr para trás das costas. 


Determinada a não dar nas vistas, nem chamar a atenção sobre si, Faith acaba por mudar de ideias, quando surge a possibilidade de haver novas vítimas.


E a seguinte não tarda a desaparecer. Outra adolescente.


Residente na mesma zona. Estudante na mesma escola.


Terá ela a mesma sorte?


 


Os suspeitos são muitos. Quase todos vão dar a um beco sem saída.


Mas não se pode confiar em ninguém.


Nem mesmo, num pai. Numa irmã. Nas melhores amigas...


 


Cada criminoso tem a sua própria justificação, ainda que nada justifique, para os seus crimes.


Mas há "motivos" que nos levam mesmo a ter dificuldade em digerir a maldade de que o ser humano é capaz, por razões tão fúteis, tão estúpidas, tão sem sentido.


Ainda que para eles, cada vez mais cedo, lhes pareça motivo e razão suficiente para tratar alguém assim.


 


E é por isso que, quando a justiça parece querer falhar, há que dar um empurrão, para que os criminosos não se safem.


Para que não façam novas vítimas.


Para que, quem foi atacado, e sobreviveu, possa seguir a sua vida, sem medos.


Até ao dia em que a justiça lhes devolva a liberdade, e volte a aprisionar as vítimas...


Até ao dia em que o passado se torne presente, e ameace o futuro das mesmas...


 


 


SINOPSE


 


"UMA RAPARIGA É RAPTADA NAS RUAS DE OXFORD. MAS ESTE É UM RAPTO DIFERENTE, PARA O INSPETOR FAWLEY.
Uma adolescente é encontrada a vaguear pelos arredores de Oxford, desorientada e angustiada. A história que Faith Appleford conta é assustadora: amarraram-lhe um saco de plástico na cabeça e levaram-na para um local isolado. Por milagre, sobreviveu. Mesmo assim, recusa-se a apresentar queixa.
O Inspetor Fawley investiga, mas há pouco que ele possa fazer sem a cooperação de Faith, que parece esconder alguma coisa. Mas o quê? E porque será que Fawley continua com a sensação de que já viu um caso como este?
Quando outra rapariga desaparece, Adam Fawley não tem escolha e tem mesmo de enfrentar o seu passado."


terça-feira, 22 de março de 2022

Submersa...

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Longe vão os tempos em que nadava e boiava, livremente, à superfície.


E que, livremente, mergulhava.


Quando lhe apetecia. Ou quando, por algum motivo, precisava de ir ao fundo.


Mas logo voltava à superfície. Até porque a maré nunca estava muito alta.


Lá fora, divertia-se com tudo o que via. Com todos os seres que consigo conviviam, e partilhavam o espaço.


 


Depois, um dia, começou a ter que ir mais vezes ao fundo.


Não por sua vontade, mas por necessidade. Havia responsabilidades. Obrigações, que era necessário cumprir, e que dependiam de si.


E o mar, inesperamente, encheu-se de mais água, vinda não se sabe bem de onde. 


A cada dia que passava, água e mais água.


As vindas à superfície foram diminuindo, até que deixaram de acontecer.


Agora, a vida era passada de forma submersa.


 


E, bem vistas as coisas, talvez o hábito e a resiliência sejam tão grandes que se tornou mais fácil viver assim.


Sabe-se lá como, e se, ainda conseguiria ir à superfície, e sentir-se da mesma forma que antes. Divertir-se, da mesma forma que antes.


Quando já nada é como antes.


Quando, ao fim de tanto tempo, se movimenta e orienta melhor lá em baixo.


 


Até poderia tentar.


Mas a sensação é a de que, à semelhança de quem está soterrado e tenta escavar para sair do buraco, mas só lhe cai mais e mais areia em cima, soterrando ainda mais, sempre que pensa sequer em experimentar vir à tona, mais o mar se enche, mais água lhe cai em cima, mais difícil se torna, e menos vontade tem.


 


Além disso, há amarras a prender.


Como quem vai criando raízes, por estar muito tempo no mesmo sítio.


Como quem fica enredado na teia e, mesmo quando parece que está a soltar-se, há sempre um fio que impede. Ou que só solta, se tiver outro alguém a quem possa agarrar temporariamente.


E há todo um mundo que depende de si. Há todo um peso nas suas costas que, para que possa tentar sair dali, ainda que por instantes, alguém tem que estar disposto a carregar ou, pelo menos, partilhar.


Também isso não é fácil.


Porque há sempre quem desafie, quem chame para a superfície, mas poucos são os que querem aceitar a contrapartida.


 


E é por isso que, até lá, continuará a ser uma vida submersa...

segunda-feira, 21 de março de 2022

"Sem Dizer Adeus", na Netflix

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"Sem Dizer Adeus" estreou há poucos dias na Netflix.


 


Sim, é mais um filme romântico.


Sim, há o homem que só vive para o trabalho. E a mulher, que é totalmente o oposto.


E sim, como em quase todos os filmes do género, os opostos vão atrair-se!


 


Então, o que faz de "Sem Dizer Adeus", um filme que valha a pena ver? Que se destaque entre tantos do género?


As paisagens mágicas, por exemplo!


O filme é passado em Cusco, cidade situada nos Andes do Peru.


Também encontramos por lá Machu Picchu.


Ficamos a conhecer Salcantay, no pico da Cordilheira dos Andes.


Ou Puno, uma cidade no sul do Peru, no lago Titicaca, um dos maiores lagos da América do Sul. 


E Paracas, uma pequena cidade portuária muito virada para o turismo.


Portanto, natureza no seu melhor! 


Um passeio de tirar a respiração, sem sair do sofá.


 


Cultura, tradições, arte e história - uma parte importante de qualquer viagem!


A música tradicional de Cusco


Os pratos típicos, e uma diferente forma de cozinhar


O Império Inca


Arquitectura, e vestígios arqueológicos


Um povo simples, prático, com espírito de confiança, entreajuda, amizade, humildade.


 


As raízes


Ariana é aquilo a que se chama uma "mulher do mundo". Sempre a viajar, não consegue estar muito tempo no mesmo sítio, mesmo que esse sítio seja aquele que guarda as suas memórias, e onde estão assentes as suas raízes.


Apesar da sua grande ligação à tia, à terra e ao povo, Ariana parece aquele tipo de pessoa que não se quer prender a nada, e a ninguém, seja de que forma for.


 


Salvador é um arquitecto que vive para o trabalho. 


Embora criativo, e bem sucedido, Salvador tem como paixão os números e, por isso, vive para o lucro. 


Quer sempre levar a sua ideia avante, em parte muito pressionado pelo pai, e não costuma olhar a meios, para atingir os fins, com o lema de que "tudo tem um preço".


Salvador e o pai parecem uma dupla em termos familiares e profissionais.


Ao contrário de Ariana, Salvador não se deixa desprender nem por um momento.


O objetivo, e equilíbrio, é cada um deles deixar-se levar por aquilo que tenta evitar a todo o custo, ou não sabe como parar de evitar.


Para que possam ser ainda mais felizes.


Sem promessas.


Mas assumindo um compromisso.


Portanto, mais que o romance em si, é uma descoberta e mudança em cada um deles!


 


 


 


 


 

sexta-feira, 18 de março de 2022

Momento embaraçoso do dia

6 coisas (boas e ruins) que só quem é envergonhada entende - VIX 


 


Aquele em fiquei a olhar para uma pessoa que, aparentemente, me conheceu e me cumprimentou, tratando-me até pelo nome, sem eu saber quem era!


A cara não me era estranha, mas não fazia a mínima ideia de como se chamava, nem de onde conhecia tal pessoa.


E a dita cuja, ao perceber que eu não a estava a conhecer, lá me elucidou.


 


Se isto pode acontecer a qualquer um?


Pode.


Mas, comigo, acontece quase sempre.


E com esta pessoa, já é a segunda vez!


 


Está cientificamente comprovado que a minha memória está mais para peixe, que para elefante!


Posso até, em raras ocasiões, ver uma pessoa e recordá-la daí em diante. 


Mas, regra geral, esqueço-me de quase todas, se não lidar com elas no dia a dia.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Desafio de Escrita do Triptofano #8

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Deofrásia vai com a família ao cinema.


Para poupar, coloca dentro da mala uma garrafa de água, umas bolachas e um pacote de leite, caso  tenham fome.


 


À chegada ao estacionamento, depois de tirar o ticket


Bitóles (para a mulher): Toma, mulher. É melhor ficares tu com o bilhete, que eu não tenho bolsos. Olha, e já agora, guarda-me aí a carteira e o telemóvel.


Ninufas (para a mãe): Oh mãe, posso pôr os meus fones na tua mala, para eu não perder?


 


E Deofrásia lá vai pondo tudo dentro da mala, que agora já nem fecha.


Quando acabam de ver o filme, Deofrásia já colocou na mala os bilhetes do cinema, e uns folhetos que lhe deram com a programação da semana seguinte.


 


Entretanto, o telemóvel toca


Deofrásia (tentando encontrá-lo): Raios, não vejo o telemóvel no meio disto tudo. 


E tanto tempo levou que, quando o encontrou, já não foi a tempo de atender a chamada.


 


À saída do shopping


Bitóles: Oh mulher, passa-me aí a carteira, para eu pagar o estacionamento.


Deofrásia (não vendo a carteira onde a tinha posto): Ai, Bitóles, queres ver que a carteira caiu lá no cinema? 


Bitóles: Tu não digas isso, mulher. Tu procura bem.


Deofrásia: É o que estou a fazer. Ah, está aqui. Ufa.


Bitóles: Só falta mesmo o ticket.


Deofrásia (tirando um molho de cartões da bolsa): O ticket, pois... Ora bem... churrasqueira, cabeleireiro, electrista, calendário... Ticket!


 


A caminho de casa, com o sol a bater de frente


Deofrásia (procurando na mala): Ia jurar que tinha aqui os meus óculos de sol.


Bitóles: Então, se os puseste, estão aí!


Deofrásia: Pois, só não sei onde!


Ninufas: Oh mãe, já que estás com a mão na massa, passa-me os fones.


Deofrásia (vasculhando): Mau... carregador... cabo... fones! Olha, e como é que a caixa de óculos veio parar aqui?!


 


Ao aproximar da portagem


Bitóles: Oh mulher, tens aí moedas para a portagem?


Deofrásia: Hum... deixa ver. Aqui nesta carteira não. Mas espera, tenho aqui um porta moedas. Pode ser que tenhas sorte. Afinal não, são só uns botões que guardei aqui. E aqui nesta bolsinha, será que pus algumas? Nada feito. São só umas moedas de escudo, que andava a coleccionar!


Bitóles: Santo Deus. Do que esta mulher se lembra!


 


À chegada a casa


Deofrásia: Olha, vou só ali a casa do meu pai.


Bitóles: E tens a chave?


Deofrásia: Claro. Tenho sempre aqui na mala!


 


À porta de casa do pai, já noite, com pouca luz, procurando a chave


Deofrásia: Mas que raio?! Onde está a chave? Carteira... lenços de papel... outra carteira... agenda... estojo... chaves do trabalho... Querem ver que perdi a chave?


 


Sem conseguir encontrá-la, Deofrásia corre até casa, e já desesperada, depeja todo o conteúdo da mala em cima da mesa.


Deofrásia: Ora vamos lá ver. Um saco... bolsa das pen's... travessão de cabelo... bloco de notas... Olha, a caneta que andava à procura no outro dia! E cá está ela, a maldita chave! 


Ninufas: Credo, mãe! Que confusão que aí vai! Porque é que guardas tanta coisa dentro da mala?


Deofrásia: Filha, a mala de uma mulher é como um armazém - cabe sempre tudo!


Ninufas: Pois, pois... Cá para mim está mais para poço sem fundo! Nunca se encontra nada!


 


 


Texto escrito para o Desafio de Escrita do Triptofano


 


Também participam:


Ana D.


Maria Araújo


Bii Yue


Triptofano


Maria


Bruno


 


 


 


 


 


 

quarta-feira, 16 de março de 2022

Dualidades, defeitos e imperfeições

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Da mesma forma que sou um coração de manteiga, sou um coração de pedra.


Da mesma forma que sou demasiado sentimental, também consigo ser insensível.


Da mesma forma que consigo ser bondosa, também posso ser mesquinha.


Da mesma forma que gosto de ajudar, também sou daquelas que se mostra indiferente. 


Aquilo que tenho de optimista tenho, em igual medida, de pessimista. 


 


Sou uma pessoa cheia de dualidades, defeitos e imperfeições.


E, em determinados momentos, sou precisamente o contrário daquilo que as pessoas esperavam de mim.

terça-feira, 15 de março de 2022

"Um Clarão de Luz", de Jodi Picoult

BNP - Bibliografia Nacional Portuguesa 


 


Não sei se pelo momento em que escolhi lê-lo, ou se mesmo por culpa da história, este é um livro que me tem custado ler. O que nem é hábito, tendo em conta a autora.


No início, lia 2 ou 3 páginas, e tinha que parar, porque ficava cheia de sono.


Passados uns dias, lá tentava novamente.


 


Acreditem que, só quando cheguei quase a meio do livro, é que percebi que a história se estava a desenrolar do fim para o início, o que ainda torna tudo mais confuso.


Para além de haver várias situações e conversas paralelas misturadas e, às tantas, eu já nem sabia se aquela passagem era de uma personagem, ou de outra, e como é que tudo aquilo se ligava e fazia sentido.


Tinha tudo para ser cativante, pela temática, e foi por isso que foi um dos felizes contemplados a ir lá para casa. 


Mas digo-vos: não é um livro que entusiasme. Atrevo-me a dizer que chega a ser penoso insistir na sua leitura, e tentar chegar ao fim, porque não capta a atenção, não me mantém presa, e leva-me, constantemente, a dispersar e querer ler outra coisa qualquer.


 


Quanto à história?


Ah, sim!


Um homem, armado, invade uma clínica de saúde reprodutiva, e faz reféns todas as mulheres e funcionários que se encontram lá dentro, acabando por ferir, mortalmente, alguns deles.


O motivo?


Ao que parece, a filha dele fez ali um aborto, sem ele saber e, agora, de certa forma, procura vingança.


Embora a realidade seja muito mais complexa do que isso.


E, para complicar, uma das reféns é, precisamente, a filha do agente destacado para mediar as negociações com o atirador.


Tem tudo para correr mal.


Pelo meio, os motivos que levaram aquelas mulheres, àquela clínica, e os seus diferentes, mas nem por isso, menos válidos, pontos de vista sobre a mesma temática - o aborto, e os direitos das mulheres. E onde estes se cruzam com os eventuais direitos de um embrião/ feto/ bébé, ser humano que está a crescer na barriga das mães.


 


 


SINOPSE

 


"Um dia quente de outono começa como qualquer outro no Centro - uma clínica que presta cuidados de saúde reprodutiva a mulheres. Como habitualmente, os seus funcionários acolhem as pacientes que ali se encontram para aconselhamento e tratamentos. de repente, pelo final da manhã, um homem armado entra nas instalações e começa a disparar, causando feridos e fazendo reféns.

O agente de polícia Hugh McElroy, especialista em negociar a libertação de reféns, estabelece um perímetro de segurança e traça um plano para comunicar com o atirador. ao olhar sub-repticiamente para as mensagens recebidas no seu telemóvel, apercebe-se, horrorizado, de que Wren, a sua filha de apenas quinze anos, se encontra no interior da clínica.

Wren não está só. Ela vai partilhar as horas seguintes, sob um clima de grande tensão, com outras pessoas: uma enfermeira em pân ico, que tem de se autocontrolar para salvar a vida de uma mulher ferida; um médico que põe a sua fé à prova como nunca antes acontecera; uma ativista pró -vida, que se tinha feito passar por paciente e é agora vítima da mesma raiva que ela própria sentia; uma jovem que quer abortar. e o próprio atirador, completamente transtornado, a querer ser ouvido.

Uma narrativa que equaciona a complexa temática dos direitos das mulheres grávidas e dos direitos dos seres que elas estão a gerar, além de refletir sobre o significado de ser boa mãe e bom pai.

Um romance desafiador, absorvente e apaixonante."


segunda-feira, 14 de março de 2022

"O Fim de Semana", na Netflix

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Como já referi, ultimamente não tenho tido vontade de ver séries. E mesmo filmes, não tem aparecido nada que me cative.


No entanto, quando recebi a notificação de estreia de "O Fim de Semana", quis logo vê-lo. A minha filha também.


Assim, esperámos por um dia em que estivéssemos as duas livres, e fizemos a nossa sessão de cinema.


 


Curiosamente, mal começámos a ver, e sabendo sobre o que se tratava, demos início, as duas, à nossa lista de suspeitos - supeito n.º 1, suspeito n.º 2 - e por aí fora.


Fomos tecendo teorias. Formulando hipóteses. 


Fomos juntando suspeitos à lista. Eliminando outros.


Até equacionámos não ter acontecido nada.


 


Um filme, para me surpreender, tem que ir para além do óbvio.


Todos os suspeitos pareciam demasiado suspeitos para, de facto, o ser.


Da mesma forma, pessoas demasiado prestativas e simpáticas, levam-nos a desconfiar.


Posto isto, eu dei o meu palpite: uma pessoa que não tinha nada a ver, mas que seria, para mim, aquela "reviravolta" esperada.


A minha filha, por sua vez, apontou a mira para outra pessoa que, à partida, também não fazia qualquer sentido.


 


A verdade é que a disputa, no filme, e cá em casa, foi mesmo entre essas duas pessoas!


Ou eu estava certa. Ou era a minha filha que tinha razão.


E, no fundo, ambas estámos no caminho certo.


Apesar de apenas uma de nós "vencer o duelo", qualquer uma daquelas pessoas tinha cometido crimes e estava, directa ou indirectamente, ligada ao mistério.


 


Mais importante que isso, tivemos ali uma hora e meia divertida e expectante, armadas em detectives, e gerou-se uma boa interação.


E a minha filha acabou por mostrar-se mais crente na bondade e inocência das pessoas, que eu, defendendo até ao fim que acreditava na sinceridade de uma daquelas personagens.


 


Quanto ao filme, duas amigas vão passar um fim de semana à Crácia.


Uma delas, Kate, desaparece. A outra, Beth, é considerada suspeita.


Kate está a divorciar-se. Parece não estar feliz. E vinga-se como pode.


Beth, casada e recém -mamã, não está na melhor fase do seu casamento.


 


À medida que vamos vendo o filme, ficamos com a ideia de que Kate é uma "cabra" disposta a dar cabo da vida de Beth e não a melhor amiga, como se esperaria.


Mas, o que aconteceu, na verdade, a Kate?


O seu desaparecimento é involuntário? Ou propositado?


E se ela, realmente, morreu, quem a matou?


 


Com uma história simples e igual a tantas outras, este filme conseguiu cativar, e surpreender até aos últimos minutos!


 



 


 

domingo, 13 de março de 2022

Festival da Canção: E a escolhida foi "Saudade, Saudade", da Maro

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Está escolhida a representante de Portugal no Festival da Canção, que este ano se realiza em Turim:


"Saudade, Saudade", da Maro!


 


Se foi surpresa?


Em certa parte, sim.


Tudo apontava para uma disputa entre Syro e Aurea. Eventualmente, FF. E até Pongo & Tristany pareciam embalados nas sondagens. 


É verdade que também lá estava a Maro, mas...


 


O que é que "Saudade, Saudade" tem, que faltou às restantes?


Muito se tem falado desta música, desde a semifinal.


Se, por um lado, a melodia é bonita, a letra, cantada entre inglês e português, não era nada de extraordinário.


Se, por um lado, tinha aquela palavra tão nossa "Saudade", por outro, pode-se dizer que, de uma forma geral, era só mesmo essa parte que se percebia da música.


A Maro parece que canta para si, é difícil entender o que diz.


Mas, nesta final, ela fez-se acompanhar de um coro, e deu toda uma outra vida à música.


Atrevo-me a dizer que foi o coro que a salvou,  e contribuiu largamente para a vitória!


As suas companheiras ouviam-se melhor que ela, e viveram mais a actuação que a própria intérprete.


Ainda assim, com prós e contras, a mim foi a única que me tocou desde o início. E, ao que parece, conquistou júri e público, com votação máxima de ambos. O pleno!


Deixando para trás os grandes favoritos. Nomes bem mais conhecidos, e com grandes carreiras musicais.


 


Agora a pergunta é: o que irá acontecer em Turim?


Um coisa é certa: há algumas coisas que têm que ser melhoradas, até à apresentação em Turim, nomeadamente, a dicção da Maro. E a confiança em palco.


Não sei se será logo despachada na semifinal, mas...


Acredito que se pode tornar uma espécie de hino, entre todos os participantes! Já estou a imaginar os restantes concorrentes a cantar "Saudade, Saudade"! E a bater palmas!


Aliás, se virem o vídeo abaixo, em que todos os finalistas se juntaram à Maro e cantaram com ela, perceberão que, quanto mais pessoas a cantarem, melhor ela resulta.


 


 


 


Por outro lado, depois de um ano em que ganhou uma música de rock, talvez este ano a escolha penda para uma música mais calma.


E, dado o momento que estamos a viver, tendo já alguns refugiados se identificado com a música, é possível que também o mundo nela se reveja.


 


Se tem alguma hipótese de passar à final, e até mesmo ganhar?


A esperança é sempre a última a morrer!


Talvez o consiga. Talvez não.


Mas, a mim, já me conquistou!


 


 


Imagem: RTP - Festival da Canção


 

sexta-feira, 11 de março de 2022

Da guerra...

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A guerra…


Procurei, calmamente, escapar dela.


Eu.


A minha família.


Os meus amigos.


E todos aqueles que aqui estavam, tranquilamente, a viver a sua vida.


 


Não a antevi. Não a percebi.


Para falar a verdade, nem sequer a concebi. Não a imaginei.


E, no entanto, parece que ela estava implícita.


Nas entrelinhas que não vi.


Nas letras pequeninas que ignorei.


 


Falava-se disso, é certo.


Mas acontecer mesmo, não acreditava.


Não queria acreditar.


Até ao dia em que aconteceu.


E percebi que era real.


 


A guerra…


Procurei, racionalmente, contorná-la.


Tentei esconder-me. Mas não o consegui fazer.


Arrisquei enfrentá-la. Afinal, sou forte.


Mas ela fintou-me.


E avisou-me do que me esperava, se continuasse.


 


A guerra…


Procurei, seguramente, afastar-me dela.


Deixando tudo para trás.


Anos de vida. De lutas. De conquistas.


Tudo o que tinha construído. Alcançado.


Não havia tempo.


 


A guerra…


Procurei, apressadamente, salvar-me. E aos meus.


Com o receio, a angústia, e a tristeza a inundar-me.


Com a sensação de perda. De fracasso. De luto.


De lágrimas nos olhos. O coração, nas mãos, apertado.


E uma dor no peito, impossível de descrever.


 


A guerra…


Porque é que, simplesmente, não nos deixam?


Porque é que, simplesmente, não nos respeitam?


Porquê, nós?


Sempre os mesmos.


Os que ficam. Os que partem. Os que já nada podem fazer.


 


A guerra…


Procurei, desesperadamente, fugir dela.


Mas, por mais que fuja, ela persegue-me.


Nenhum lugar é seguro.


Mesmo que assim o creia.


Sinto que não passa de uma ilusão.


 


Mesmo quando me dizem que está tudo bem.


Que estou em segurança, e já não corro perigo.


Sinto que, a qualquer momento, uma bomba pode rebentar.


Um míssil pode cair.


A morte me pode levar.


 


A guerra…


Procuro ter fé. Ter esperança.


Acreditar que o pior já passou.


Que já não corremos perigo.


Mas não passou.


Porque os traumas ficam para sempre.


 


Os traumas.


As marcas.


O medo.


A destruição à nossa volta.


O que se perdeu, e já não se recupera.


 


Perde-se a liberdade.


Perde-se a inocência das crianças.


Perde-se a alegria.


Perde-se a segurança.


Perde-se um povo.


 


A guerra…


Procuro, deste lado, acreditar que vai acabar.


Com um sentimento de gratidão.


Por ter tido a oportunidade de sobreviver.


Ou, quem sabe, desolação.


Por ter perdido os meus, pelo caminho.


 


Do outro lado, os que ficaram de livre vontade.


Para defender a nossa terra.


Ou foram obrigados a ficar.


Para lutar nesta guerra.


Com as armas que têm, e que não têm.


 


A guerra...


Espero, um dia, regressar.


À minha terra. Ao meu país. 


Ter tempo para recomeçar a vida, que ficou suspensa.


Até lá, resta rezar para que mais nenhum inocente sofra.


Nesta guerra que nunca quisémos. E nunca pedimos...

Das partilhas inúteis nas redes sociais

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Ontem o meu marido perguntou-me se eu tinha visto um vídeo que ele tinha partilhado. 


Tinha sido uma pessoa, que ele conhece, a filmar o momento em que uma assistente social, acompanhada de agentes da polícia, retira uma criança à mãe, e que pediu para partilhar o vídeo. Com que objectivo?


Pois...


Ah e tal, devia ser para ajudar. - respondeu o meu marido.


Ajudar? Quem? Como?


Penso que a ideia era condenar, à partida, esta retirada, e o papel dos assistentes sociais. Viralizar o vídeo. Levar as pessoas a comentar, a dar opiniões de algo que não sabem. E tornar famoso quem o filmou.


 


Em primeiro lugar, quem está a partilhar, e quem está a ver de fora, não conhece o contexto. 


Em segundo lugar, não é por as pessoas descarregarem ali o seu ódio, e as suas opiniões sem conhecimento de causa e fundamento, que a criança vai deixar de ser retirada, ou devolvida à mãe.


Até porque as pessoas hoje têm uma opinião e, amanhã, se for preciso, já têm outra. É para o lado que pendem, naquele dia.


Hoje condenam por se tirar uma criança. Amanhã, condenariam por não ter sido tirada, e evitar o pior. 


Portanto, onde é que está a ajuda na partilha no vídeo?


Talvez eu esteja a ver as coisas mal. Mas eu não teria partilhado, nem comentado, sem saber o que levou a essa situação.


Não falo daquilo que não sei. Nem alimento quezílias nem guerras que não são minhas.


 


Esta é só uma de muitas situações e publicações que não percebo porque são publicadas, e tão pouco, partilhadas.


É como aquelas imagens de pessoas, com deformações físicas ou outras, que perguntam se alguém lhes vai dar os parabéns, ou um bom dia.


Qual é a ideia?!


Gerar "pena"?


Porque se é, nem isso conseguem. Têm, precisamente o efeito contrário e, a mim, passam-me ao lado.


 


Gosto de partilhar coisas úteis, engraçadas, importantes, curiosas, que possam ter interesse para mim, e para aqueles com quem estou a partilhar, ou ajudar de alguma forma, quem está do outro lado.


Não apenas porque é moda.


Não quando me pedem, sem razão plausível.


Não porque goste ver o circo pegar fogo e incendiar as redes, gratuitamente.


Ou porque compactue com vitimizações sem sentido, quando a ideia é, precisamente, tratar todos de igual forma, sem fazer discriminações.


 


E por aí, também costumam encontrar partilhas inúteis nas redes sociais? 

quinta-feira, 10 de março de 2022

Desafio de Escrita do Triptofano #7

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Mirófones aproveitou que a sua mãe, Vitolina, estava a dormir, para se esgueirar até ao laboratório mágico da progenitora, onde nunca lhe havia sido permitido estar sozinho, e tão pouco tocar em nada. O objectivo era tentar criar uma poção que lhe devolvesse o coração, que lhe havia sido roubado.


 


Mirófones (entusiamado com a ideia): Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais mágico do que eu?!


Espelho: Olha, olha! Acaso és mágico, tu?!


Mirófones (dando um salto, com o susto): Tuuuu... Tu falas?


Espelho: E porque não haveria de falar? Não me fizeste uma pergunta?


Mirófones: Estava apenas a brincar. Sabes, aquela cena da bruxa má, do conto da Branca de Neve.


Espelho: Bem, bruxa má não és. Ao pé dela, és um franganote. E mágico, tão pouco! 


Mirófones: Não importa. Vou olhar para todos estes livros, e descobrir a receita para ter o meu coração de volta. Depois, vou criar a poção, e bebê-la. Não há-de ser assim tão difícil.


Espelho (duvidando das capacidades de Mirófones): Veremos... Boa sorte!


Mirófones: Ora bem. Por onde começo? Letra C... coração... tratar do coração... deve ser isto! 


 


 


Encontrada a receita, e olhando atentamente para os ingredientes


Mirófones: Portanto, três colheres de farinha branca refinada. Onde é que estará isso? Ah, estás aqui! 


Frasco (assim que Mirófones tentou pegá-lo): Não me toques.


Mirófones, apreensivo, tentou novamente, e de novo a mesma resposta.


Mirófones: Mas que raio! Aqui tudo fala? Pois não quero cá saber de frescuras! Vou pegar em ti, e vou abrir-te!


 


Ao fazê-lo, todo o conteúdo saltou para a sua cara.


Mirófones (depois de uns quantos impropérios, provando a dita "farinha"): Hum... olha que até não és má de todo. 


Passados alguns minutos, enquanto tentava reunir os ingredientes em falta, Mirófones ouve uma voz.


Morcego (imaginário): Vou-te comer!


Mirófones (olhando em volta, e vendo um grande morcego pendurado na beirada da janela): Sai daqui!


Morcego: Vou-te comer agora!


 


E Mirófones, assustado com aqueles olhos demoníacos, e dentes afiados que se dirigiam a si, encolheu-se debaixo da bancada. Mas nada aconteceu. 


Mirófones: Já devo estar a alucinar!


E, dito isto, começou a rir dos seus próprios medos, e da figura ridícula que tinha feito. 


 


Mirófones (depois do ataque de riso): Certo. Só falta o chá espirituoso destilado.


Misturou tudo e esperou que a poção ficasse pronta.


Enquanto isso, curioso, decidiu provar um pouco do chá. De repente, viu o seu coração à sua frente.


Mirófones: Ah, malandro! Voltaste!


Coração: (imaginário): Apanha-me, se puderes!


Mirófones: Queres brincadeira, é?! Pois vais ver como elas te mordem!


Começou a tentar apanhar o coração, que o fintava a cada investida, como se estivesse a gozar com ele.


No meio desta luta, sem se dar conta, atirou com alguns balões e tubos, fazendo imenso barulho, até que acabou por, ele próprio, tropeçar na cadeira e cair ao chão. 


 


Ainda atordoado, vê uma "lava" azul a sair do caldeirão, e espalhar-se pelo chão, aproximando-se cada vez mais de si, como se quisesse persegui-lo.


Levantou-se num ápice, e fugiu dali para fora!


 


Vitolina (que entretanto tinha acordado): Mas o que é que se passa aqui?


Mirófones (correndo que nem um louco pela casa fora, até sair para a rua): É o mar! Quer engolir-me! Foge, mãe, que ele está a vir aí!


Vitolina (seguindo-o até à porta):Ensandeceu! Só pode... Mas que raio andaste tu a fazer esta noite?! 


Mirófones: Eu... Eu... Eu só queria ter o meu coração de volta. Ela roubou-mo, e agora não mo quer dar.


Vitolina: Ela? Ela, quem? A tua namorada? 


Mirófones: Sim.


Vitolina: Tolo! 


Mirófones: Fui tentar fazer uma poção mágica, mas não sei se resultou.


Vitolina: Ouve-me com atenção. Não há magia nenhuma no mundo que possas usar contra o amor. Quando se ama, cada um guarda o coração do outro, e cuida dele, como se fosse o seu. Não é roubado, é partilhado. Confiado. A única forma de teres o teu coração de volta, só para ti, é deixares de amar. É isso que queres?


Mirófones: Não...


Vitolina: Então, deixa-te de parvoíces!


 


Ao voltar a entrar em casa, Vitolina vira-se para o filho 


Vitolina: E da próxima vez, não abuses do "pó de macaco" e da aguardente! Fizeram uma bela magia contigo!


E seguiu caminho, dando umas valentes gargalhadas, enquanto o filho subia para o seu quarto, envergonhado.


 


Texto escrito para o Desafio de Escrita do Triptofano


 


 


Também participam:


Ana D.


Ana de Deus


Triptofano


Maria


Biiyue


Maria Araújo


Bruno


 


 


 


 


 


 


 

quarta-feira, 9 de março de 2022

Tentativa de música

Reações Emocionais e a Psicologia na Música | GPET Física 


 


Uma destas noites sonhei que estava a ouvir uma música. 


Ou melhor, o refrão de uma música em que, para além da parte instrumental, só consegui perceber "palavras ao vento".


Não sei se existe, se ouvi em algum lado e ficou aqui gravado, ou se o meu cérebro inventou, mas decidi dar à parte musical do refrão, uma possível letra.


E, já que inventei o refrão, porque não tentar criar o resto? 


 


Aqui fica:


"Dizes que ainda me amas


E que não me queres perder


Que as coisas ainda podem mudar


Que ainda temos muito para viver


 


A mim parecem desculpas


De quem quer esconder a verdade


Não quero um assumir de culpas


Queria apenas sinceridade 


 


(refrão)


Isso são tudo palavras ao vento


Da boca p'ra fora e sem sentimento


Confesso que esperava muito mais de ti


 


Tudo o que dizes é só no momento


Podia acreditar em ti, mas lamento


Quero muito mais do que isso para mim


 


Percebi que não basta amar


Para fazer com que tudo dê certo


É como tentar encontrar


Um oásis no deserto


 


De nada adianta falar


Se as palavras não geram acção


Só servem para enganar


Não vêm do coração


 


(refrão)


Isso são tudo palavras ao vento


Da boca p'ra fora e sem sentimento


Confesso que esperava muito mais de ti


 


Tudo o que dizes é só no momento


Podia acreditar em ti, mas lamento


Quero muito mais do que isso para mim


 


E se os gestos contrariam as palavras


E se os anos passam, e tudo permanece igual


De que adianta querer fingir


Que o amor é imortal?


 


De que adiantam sucessivas conversas 


Se voltamos sempre ao mesmo ponto


Palavras que não passam de promessas


Às quais já não quero dar um desconto


 


(refrão)


Isso são tudo palavras ao vento


Da boca p'ra fora e sem sentimento


Confesso que esperava muito mais de ti


 


Tudo o que dizes é só no momento


Podia acreditar em ti, mas lamento


Quero muito mais do que isso para mim


 


Mais vale assumir agora


Sem mágoa ou ressentimento


A verdade que em ti mora


Sem qualquer arrependimento


 


Só com honestidade 


Podemos seguir em frente


E são essas as palavras


Que quero guardar na minha mente."


 


Agora, quem quiser que aproveite a letra, e componha a música!


 


 


 


 


 

A semana numa imagem

  Chuva, chuva, e mais chuva!