quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Histórias Soltas #31: O menino e a flor

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Naquela pequena aldeia, viviam-se tempos difíceis.


A seca extrema obrigou ao racionamento da água, que era usada apenas para o essencial.


Naquela pequena aldeia, numa casinha de pedra, morava um menino. No jardim, a sua flor. 


Eram companheiros, cúmplices. Tinham-se um ao outro. E ele não queria que a história de ambos terminasse.


Não havendo forma de a regar, como em outros tempos, e com a chuva a teimar em não cair, não sabia bem como mantê-la viva.


Mas, sempre que podia, sempre que conseguia, à socapa, guardar umas gotas de água, levava à sua flor.


Não era muito. Não era, certamente, o suficiente. Mas era melhor que nada. Talvez, com sorte, essas pequenas gotas lhe permitissem resistir mais um pouco.


Era a única coisa que ele podia fazer. Dar-lhe algum alento. Esperança. Por ela, e por ele.


 


No entanto, a flor via as coisas de outra forma.


Aquelas gotas, não só não lhe matavam a sede, como pareciam, pelo contrário, fazê-la ansiar por mais água.


Água que não sabia quando, ou se, algum dia, viria.


Não sabia quanto tempo mais aguentaria sem a água que, realmente, necessitava.


Além de mínima, parecia que aquela água já nem tinha o mesmo sabor de antes. Parecia insípida.


Talvez ela estivesse mesmo condenada.


 


Então, entrou em modo de rejeição.


Começou a recusar as poucas gotas que o menino lhe trazia.


Ao contrário do menino, que acreditava que mais valia pouco, que nada, a flor começou a pensar que mais valia nada, que tão pouco, se o fim que os esperava era o mesmo.


O menino não conseguia compreender.


Ainda insistiu, contrariando-a. Levando, de vez em quando, as suas preciosas gotas.


Mas vendo a atitude da flor, acabou por, também ele, se render. E desistir.


 


A flor percebeu que, quanto menos água tinha, menos parecia precisar dela.


Menos lhe sentia a falta.


Achou que era um bom sinal. Que a sua resolução estava a resultar.


Até que, um dia, simplesmente, morreu.


E, com a sua morte, também a de uma bonita história, que poderia ter tido outro final.


 


 


 


Imagem: abano


 


 


 


 

2 comentários:

  1. Uma história muito bonita e triste, que parece condizente com o mundo actual. Não me perguntes porquê.

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  2. Com o mundo, com as pessoas, com as relações...
    Por momentos, apesar de não ter sido essa a inspiração, veio à mente aqueles idosos que "enxotam" os poucos familiares que ainda lhes têm carinho, e acabam por morrer sozinhos.

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