terça-feira, 3 de março de 2026

As Últimas Palavras: Eric Dane

 


Está disponível, na Netflix, a entrevista concedida por Eric Dane, a Brad Falchuk, no âmbito da série documental "Famous Last Words".

Cada entrevista é gravada para ser exibida, apenas e só, após a morte do entrevistado. Daí que sejam as suas últimas palavras.

A Esclerose Lateral Amiotrófica  (ELA) é um assunto sensível para mim.

Ainda muito pouco conhecida, divulgada, de certa forma, desvalorizada pelos médicos em termos de diagnósticos precoces (ainda que nada altere o destino), nem sempre as pessoas que têm esta doença, sabem que a têm.

A minha mãe nunca chegou a saber. Foi diagnosticada no dia em que morreu.

Nem sempre a doença se manifesta da mesma forma, com a mesma gravidade e celeridade. E nem sempre afecta o corpo de forma semelhante, por uma mesma ordem.

Nesta entrevista, vemos Eric Dane numa cadeira de rodas. Conseguimos perceber tudo o que diz, mas nota-se que a fala já está arrastada.

A minha mãe só perdeu a locomoção na semana em que faleceu, mas a fala já tinha, há muito, sido afectada de tal forma que não conseguíamos entender nada do que dizia.

Soubemos, depois, que ela tinha a forma mais grave da doença: a paralisia bulbar progressiva, cuja degeneração e morte ocorrem mais rapidamente, devido à dificuldade em deglutir, engolir, e complicações respiratórias, nomeadamente, por risco de aspiração.

Eric Dane foi diagnosticado em Abril de 2025. Faleceu em Fevereiro de 2026. Menos de um ano depois.

Lutou e resistiu como pôde, sabendo que a morte era certa.

Como causa directa da morte, lá está, insuficiência respiratória, sendo a causa subjacente a esclerose lateral amiotrófica

No momento da entrevista, é possível ver a sua vulnerabilidade física e emocional, ainda que mantenha o seu sentido de humor.

É uma espécie de viagem ao seu passado. Uma revisitação de toda a sua vida, até então.

Uma reflexão sobre o que somos, o que temos, o que sobra de nós. 

Uma reflexão sobre resiliência e perseverança, tantas vezes confundidas.

Um olhar sobre si próprio.

"Os meus amigos também me recordam de que tudo o que me resta sou eu. É uma maneira um bocado marada de percebermos que sempre fomos suficientes. Quando tudo nos é tirado, a única coisa que nos resta somos nós". 

É fazer as pazes com o passado, e viver o presente, sabendo que não haverá futuro.

Eric Dane foi um activista na luta para a consciencialização da esclerose lateral amiotrófica, dando voz e sensibilizando para esta doença rara, e participando em campanhas de angariação de fundos para investigação e financiamento público.

A esse propósito, e do pouco investimento que é feito para se descobrir uma cura para a doença, diz ele: "Acho que é difícil compreender o conceito de uma vida individual...e como essa vida pode ser importante e quantas pessoas ela afecta. E, quando um dirigente olha para os números..."

 

Aconselho a ver toda a entrevista mas, sobretudo, a mensagem final que Eric Dane deixa às suas filhas, que aqui resumo, mas que devem ver na íntegra:

"Eu tentei. 

Tropecei algumas vezes, mas tentei.

Quero dizer-vos quatro coisas que aprendi com esta doença.

Primeiro, vivam agora. Agora mesmo, no presente.

Em segundo lugar, apaixonem-se.

Em terceiro lugar, escolham bem os vossos amigos.

Por último, lutem com todas as vossas forças e com dignidade.

Esta doença está a levar lentamente o meu corpo, mas nunca vai levar o meu espírito."

 


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