Está
disponível, na Netflix, a entrevista concedida por Eric Dane, a Brad Falchuk, no
âmbito da série documental "Famous Last Words".
Cada entrevista é gravada para ser
exibida, apenas e só, após a morte do entrevistado. Daí que sejam as suas
últimas palavras.
A Esclerose Lateral Amiotrófica
(ELA) é um assunto sensível para mim.
Ainda muito pouco conhecida, divulgada, de
certa forma, desvalorizada pelos médicos em termos de diagnósticos precoces
(ainda que nada altere o destino), nem sempre as pessoas que têm esta doença,
sabem que a têm.
A minha mãe nunca chegou a saber. Foi
diagnosticada no dia em que morreu.
Nem sempre a doença se manifesta da mesma
forma, com a mesma gravidade e celeridade. E nem sempre afecta o corpo de forma
semelhante, por uma mesma ordem.
Nesta entrevista, vemos Eric Dane numa
cadeira de rodas. Conseguimos perceber tudo o que diz, mas nota-se que a fala
já está arrastada.
A minha mãe só perdeu a locomoção na
semana em que faleceu, mas a fala já tinha, há muito, sido afectada de tal
forma que não conseguíamos entender nada do que dizia.
Soubemos, depois, que ela tinha a forma
mais grave da doença: a paralisia bulbar progressiva, cuja degeneração e morte
ocorrem mais rapidamente, devido à dificuldade em deglutir, engolir, e
complicações respiratórias, nomeadamente, por risco de aspiração.
Eric Dane foi diagnosticado em Abril de
2025. Faleceu em Fevereiro de 2026. Menos de um ano depois.
Lutou e resistiu como pôde, sabendo que a
morte era certa.
Como causa directa da morte, lá está,
insuficiência respiratória, sendo a causa subjacente a esclerose lateral
amiotrófica.
No momento da entrevista, é possível ver a
sua vulnerabilidade física e emocional, ainda que mantenha o seu sentido de
humor.
É uma espécie de viagem ao seu passado.
Uma revisitação de toda a sua vida, até então.
Uma reflexão sobre o que somos, o que
temos, o que sobra de nós.
Uma reflexão sobre resiliência e
perseverança, tantas vezes confundidas.
Um olhar sobre si próprio.
"Os meus amigos também me recordam de
que tudo o que me resta sou eu. É uma maneira um bocado marada de percebermos
que sempre fomos suficientes. Quando tudo nos é tirado, a única coisa que nos
resta somos nós".
É fazer as pazes com o passado, e viver o
presente, sabendo que não haverá futuro.
Eric Dane foi um activista na luta para a
consciencialização da esclerose lateral amiotrófica, dando voz e sensibilizando
para esta doença rara, e participando em campanhas de angariação de fundos para
investigação e financiamento público.
A esse propósito, e do pouco investimento
que é feito para se descobrir uma cura para a doença, diz ele: "Acho
que é difícil compreender o conceito de uma vida individual...e como essa vida
pode ser importante e quantas pessoas ela afecta. E, quando um dirigente olha
para os números..."
Aconselho a ver toda a entrevista mas,
sobretudo, a mensagem final que Eric Dane deixa às suas filhas, que aqui
resumo, mas que devem ver na íntegra:
"Eu tentei.
Tropecei algumas vezes, mas tentei.
Quero dizer-vos quatro coisas que aprendi
com esta doença.
Primeiro, vivam agora. Agora mesmo, no
presente.
Em segundo lugar, apaixonem-se.
Em terceiro lugar, escolham bem os vossos
amigos.
Por último, lutem com todas as vossas
forças e com dignidade.
Esta doença está a levar lentamente o meu
corpo, mas nunca vai levar o meu espírito."

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